Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Era uma criança


   O seu olhar trazia um medo desmedido, o nervosismo lhe tirava um pouco da inocência, a arma em mãos lhe ocultava qualquer traços de ternura. O passo que ia dar lhe tiraria a puerilidade, não haveria volta, ele pisaria em terra de homens. Era uma criança.
   Cansado dos maus tratos verbais e das surras que seu pai lhe aplicava após voltar da rua embriagado, ele procurava outro refúgio, um válvula de escape, uma abertura para a fuga. O seu mundo imaginário não mais aliviava as dores, o seu herói não mais jogava as suas teias para içá-lo e salvá-lo das garras do vilão, o terror habitava a sua casa. Era uma criança.
   O passo dado para lhe tirar do terror familiar foi retido pelo peso do silêncio antes que o levasse para um terror maior. Porém, o peso estava aquém para dobrar a sua consciência.

   PARE, NÃO FAÇA ISSO. quem é você? NÃO ME RECONHECE MAIS, PRECISO COLOCAR A MASCARA PARA ME FAZER RECONHECÍVEL? agora eu percebo que todos nós colocamos mascaras de acordo com a conveniência para ser reconhecido, você não precisa, você é autêntico, homem-aranha. ENTÃO, POR QUE VOCÊ VAI COLOCAR ESSA MASCARA? a natureza já colocou uma mascara em mim, já estou marcado. QUAL MASCARA? está na minha pele, não percebe, a cor, sou negro. A NATUREZA NÃO, A SOCIEDADE, E ELA SÓ ADERE SE VOCÊ ACEITAR, NÃO A COR, MAS O PRECONCEITO.  tudo é fácil quando se é super-herói. NÃO SE FAÇA DE VÍTIMA E SEJA UM. como? olha para o meu pai, negro; olha para a minha mãe, negra. E DAÍ, CARA, VOCÊ ESTÁ SE REFLETINDO NO ESPELHO QUE A SOCIEDADE LHE IMPUTOU, MUDA DE ESPELHO. é fácil quebra um espelho, um preconceito, não. DEUS NOS FEZ DIFERENTE PARA QUE PUDÉSSEMOS CONVIVER COM AS NOSSAS DIFERENÇAS E PARA ISSO NOS DEU A LUZ, A LUZ DA HARMONIA; NO ESCURO SOMOS TODOS IGUAIS PORQUE NÃO NOS REFLETIMOS NO OLHAR DO OUTRO, SE AO ACENDERMOS A LUZ, NÃO NOS ENXERGAMOS IGUAIS É PORQUE A OUTRA LUZ, A DIVINA, ESTÁ APAGADA, NÃO PERMITA QUE A SUA SE APAGUE. a palavra é o refúgio dos covardes quando se é maioria, a minoria só tem uma arma, a ação. UNE A PALAVRA À AÇÃO, JESUS DISSE: "AMAI-VOS UM AOS OUTROS COMO VOS AMEI", ISSO É PALAVRA EM AÇÃO, ASSIM ELE PREGOU, ASSIM AGIU. porém, ele teve mais sorte, sofreu preconceito e foi morto na cruz; eu sofro preconceito, levo a cruz imputada pela sociedade sem levar os cravos como salvação. MAIS UMA VEZ EU VOU LHE SALVAR, MINHA CRIANÇA, NÃO PERMITIREI QUE VOCÊ SUCUMBA POR ESTAR OLHANDO NO ESPELHO ERRADO. homem-aranha, você é uma ilusão, seu mundo lúdico não passa de um refúgio para minha falta de coragem; quando olho no espelho eu me vejo como eu sou, a sociedade que olha o espelho errado; ela se olha e se ver como gostaria de ser, impõe um padrão ético e moral de acordo com a conveniência, porém não percebe que somos plurais. SE VOCÊ AGIR COMO PRETENDE, ESTARÁ SE TORNANDO SINGULAR, ESTARÁ INDO DE ENCONTRO AOS ENSINAMENTOS CRISTÃOS. o cristianismo que a sociedade prega não é o mesmo que ela pratica quando houver um irmão passando fome. ISSO NÃO LHE DAR O DIREITO DE FAZER JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS. justiça? qual justiça, a que prega as cotas para negro como solução, a que dá bolsa-família; não homem-aranha, eu quero é oportunidades, a sociedade não sabe prouver isso; preciso quebrar esse espelho. MAS... não insista, a época do heroísmo passou, você não existe, nossa sociedade não permite a ilusão, endurecemos muito cedo...

   O silêncio foi quebrado aliviando o seu peso quando o líder do bando ordenou a invasão à agência bancária.
   Ao anunciar o assalto, ele não quebrou nenhum espelho, ao disparar a sua arma no caixa que acionou o alarme, ele se assemelhou a imagem que a sociedade lhe imputou.
   "Vamos à imagem. A cena é chocante. Negro, morador de favela... A notícia é quente... Bandido, quinze anos, uma criança... Aconteceu agora a pouco... Traficante, morto pela polícia... Nossa polícia que tira das ruas esses bandidos... A zona sul de São Paulo está assistindo... Põe a imagem, pessoal... O criminoso deu um tiro na cabeça do caixa... Olha o momento que a cabeça do caixa tomba...” - O locutor, negro, narrava a cena do assalto dramaticamente. A sua locução estava de acordo com que a sociedade queria ouvir, cega, ela não via a imagem.
   "A noticia na hora que acontece. O nosso repórter está ao vivo, vamos a ele pessoal".
   "Comandante, poderia ter evitado as mortes? - Perguntou o repórter constrangendo comandante e locutor.
   "Mortes? A polícia fez um bom trabalho. Não morreu nenhum dos nossos, não morreu nenhum cidadão de bem, as mortes que houve foram de bandidos. - Disse o comandante, branco".
   "Não podemos deixar esses bandidos tirar da gente o que conseguimos com o suor do corpo. Quantos morreram? - Disse uma transeunte, branca".
   "A função da polícia é extirpar da sociedade essa escória. - Disse o policial, negro".
   A câmera foi se afastando, o repórter foi saindo de cena, o ângulo aberto mostrava uma mãe, negra, desesperada, chorando, gritando a inocência do seu filho. Ela não tinha voz.
   Em casa, todos, o locutor, o repórter, o policial, a transeunte se olhou no espelho e viram a imagem que a sociedade queria que eles vissem, não perceberam que pouco importava a cor de sua pele, negra ou branca, era por dentro que se escondia a cor do conceito, preceito e preconceito, e essa imagem ninguém via em si.

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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Confissão

CAPÍTULO FINAL


   Vi que a perna que empurrava a terrina de sopa para dentro do porão era de mulher. Agachado, eu a agarrei com as duas mãos e a puxei de uma vez só. Quando o corpo dela foi ao chão, o seu grito se tornou audível por toda a casa. Eu tinha que agir rápido. A luz que vinha da parte de cima da casa fez brilhar um objeto que estava próximo da terrina, peguei-o e cravei no pescoço dela. O cabo da colher estraçalhou o seu pescoço espargindo o seu sangue sobre o meu rosto. Não, meu Bispo, eu não tive tempo de me arrepender e nem pedir perdão pelo ato praticado, pois uma mão me puxava para cima, para fora do porão, arrastando o meu corpo pela escada. Quando cheguei à sala, eu estava diante do Demônio, os seus olhos azuis tinham perdido a doçura. Se ao me vilipendiar, ele tinha enfiado dentro de mim o inferno com seus dedos, agora ele ia me mostrar que o inferno também estava do lado de fora. Ele agarrou o meu corpo fraco e me arremessou contra a escrivaninha. A vela de sete dias havia se consumido, não havia luz, estava no sétimo dia. Após a criação do mundo, Deus havia descansado no sétimo dia, meu Bispo. Naquela casa, naquele momento, se Ele tentasse interferir, não adiantaria, pois diante daquele homem, eu vi o Diabo. Eu estava diante de um espelho.
   Assim que ele pôs o pé sobre o meu pescoço, a falta de ar fez com que eu estrebuchasse, e com pés e mãos batendo no chão, eu pedi clemência. Ele sorriu de satisfação pelo pedido, pegou-me pelos pés girando o corpo vária vezes e o soltou satisfeito. O meu corpo foi de encontro à mesinha de centro, quebrando-a. Senti um filete de sangue escorrer no chão, ao passar a mão por debaixo de mim, eu senti o fio da faca cortar um dos meus dedos. Gelei quando ele se encaminhou até a escrivaninha, abriu uma das gavetas, retirou o fumo de rolo juntamente com a caixa com papel de seda para enrolar cigarro e me encarou. Pensei, ele notou a falta da faca. Felizmente não, meu Bispo, ele não notou. Sim, ele continuou me encarando, colocou o fumo na boca e o retirou amiúde. A baba escura escorria pelo canto de sua boca. Sorrindo maliciosamente, ele mediu um palmo do rolo e o cortou com os dentes. Sim, meu Bispo, as suas atitudes eram doentias. Sempre rindo, ele abraçou o rolo cortado com a palma da mão e fez movimentos contínuos de cima para baixo e vice-versa, depois o dilacerou com os dentes em pedaços pequenos. Pegou a seda da caixa, encostou-a na borda da escrivaninha e com os dedos empurrou os pedaços do fumo sobre o papel, enrolou-o, lambeu a ponta de fechamento enrolando-a. Após levar o cigarro à boca, ele abaixou e pegou o guarda-chuva que estava encostado no canto da parede, próximo da porta da saída, batendo o cabo na escrivaninha. Percebi que a sua intenção era demonstrar a resistência e dureza do cabo pelo ruído provocado. Ele não precisava de tanto, bastou eu ver a cor e o entalhe da madeira para saber que era de lei, dura e eficaz se a intenção era ferir, afinal era um legítimo jacarandá.
   Quando ele se encaminhou em minha direção batendo o cabo do guarda-chuva em suas coxas, eu vi, meu Bispo, o terror passando naqueles olhos azuis, como em um filme, audível, pois os seus lábios gesticulavam freneticamente, o inferno você conhecerá agora, e serei eu que emitirei o ticket da passagem. O som gutural de sua voz, a imagem dele caminhando em minha direção, e apenas o cabo do seu guarda-chuva sendo processado pela minha mente fez com que ela ativasse o meu sistema de autodefesa, ou seja, acordou a maldade existente em mim. Eu, lestamente, com a energia que me restava, ergui o meu corpo um pouquinho do chão e enfiei a minha mão alcançando o cabo da faca, porém, não tive força o suficiente para suster o corpo, quando puxei a faca, o fio gélido da lâmina rasgou a minha carne. Ao encostá-la próximo de meu corpo, o sangue quente do meu corpo havia mudado a temperatura da lâmina.
   Meu Bispo, ele afundou os seus joelhos nas minhas coxas. Não, meu Bispo, eu não senti dor, em mim havia somente um sentimento, o de vingança. Ele tentou por várias vezes acender o cigarro, contudo, o fumo ainda estava úmido. Quando conseguiu acender, tragou o cigarro com prazer imensurável, não tão diferente quanto às sevícias praticadas em mim. Ao esbaforir, eu vi o meu medo intricado por entre a fumaça, como se me dissesse, não se iguala a ele. Quando a maldade lhe ataca, ou você se entrega, ou luta, não somente para se salvar, mas também para que essa maldade não se eterniza. Ele não me deu tempo para filosofar, meu Bispo.
   Ao vê-lo erguer o guarda-chuva, eu desferi a faca no seu tórax. Quantas vezes? Não sei, meu Bispo. Só parei quando ouvi os ossos de sua caixa torácica se quebrando com o impacto das últimas facadas. Meu peito estava inundado de sangue, no entanto, a macula permaneceria na alma, não obstante ela já estava maculada somente com a intenção da morte. Não, meu Bispo, não acabou, o pior veio depois quando eu me vi nos olhos dele.
   Após enterrar a última facada no seu peito, o seu corpo tombou para trás, ele, suspenso no fio derradeiro que ainda o ligava à vida, ergueu o guarda-chuva e se jogou para frente. Desviei de sua investida e o cabo do guarda-chuva passou rente ao meu pescoço, ao tocar o chão trincou o piso. É agora, meu Bispo, que meu inferno começou, pois o que fiz está me martirizando, por mais que eu fuja, a culpa me persegue. Tem certeza que quer ouvir, meu Bispo?
   Não há dor pior do que a que dói na alma, a do corpo o tempo cura, a da alma entregamos nas mãos de Deus, mas não nos livramos de senti-la.
   Eu o empurrei para trás apoiando o seu corpo nas minhas pernas erguidas, agarrei o guarda-chuva com as duas mãos e o inclinei um pouco em sua direção, então, com as pernas, empurrei o seu corpo para frente. Ouvi o ruído da sua cabeça batendo na ponta do guarda-chuva, quando o seu rosto ficou próximo ao meu, eu senti certo prazer com a sua morte. Porém, a culpa foi mais rápido do que a minha satisfação. Fiquei extático, em estado de choque por um longo tempo. Somente saí deste estado quando o peso do seu corpo empurrou a sua cabeça para mais próximo de mim, a ponto dos nossos narizes se tocarem. Os seus olhos azuis me fitaram dizendo que ele havia morrido, porém, continuava vivo dentro de mim. Vi-me em um espelho, e aqueles olhos azuis, sem vida, me refletiam. Mesmo se não houver luz... Não há, meu Bispo. De alguma forma não há, com as minhas atitudes, as minhas escolhas, eu trilhei o caminho das trevas. Como ia dizendo, mesmo se não houver luz para refletir a minha imagem ao olhar em um espelho, dora adiante, não é a mim que vejo, é ele, o Demônio. Seus olhos azuis permanecerão em minha mente dizendo que ele vivi em mim.
   Eu sei, meu Bispo, a justiça dos homens me absolveu alegando que eu agi em legítima defesa. Sim, o Senhor me concedeu o perdão, porém, sou eu que não me perdoo. A maldade é fruto da ignorância. E eu sabia, meu Bispo, eu sabia. Mesmo que eu pague minha pena temporal, ainda me sentirei devedor.
   Jesus lutou contra a maldade usando somente uma ferramenta, o amor. Aguentou o peso da maldade em sua carne, e mesmo assim, ofereceu amor. Foi crucificado, morreu e ressuscitou, mas nunca deixou de amar. Permanece aqui entre nós como luz para que possamos, através de sua luz, religar à Deus. Não, meu Bispo, o Senhor não está me entendendo. Eu não estou me comparando a Jesus, o meu sofrimento não tem a mesma grandeza do Seu sofrimento. Apenas quero lhe dizer que ao me olhar no espelho eu via essa luz me refletir, eu me via como realmente era, eu via a bondade em mim. Hoje, apesar de senti-la bruxuleando em algum ponto em mim, eu só consigo enxergar trevas. A maldade é uma capa invisível que não deixa essa luz se intensificar e refletir quem eu era. O mal viceja em mim, meu Bispo.
   Sim, desnudarei do hábito. Não consigo mais olhar a minha comunidade e ensiná-la a perseverança se não perseverei, em lhe ensinar a bondade se eu não fui bom, a amar como Cristo amou, a receber a sua luz se eu não fui capaz de amar o outro, se eu deixar a luz de Cristo se apagar. Sim, meu Bispo, quando a maldade abate sobre nós, enfraquecemos as nossas defesas. Mas ai que esta o meu dilema, há a necessidade de ser tão mal, ou mais, a quem nos pratica a maldade? Esse mesmo silêncio que lhe perturba, meu Bispo, a mim também perturba, pois não temos a resposta certa. 
   Eu tirarei o hábito que veste o meu corpo, mas ele continuará me vestindo, a minha alma. Seguirei com o meu ministério. Como? Serei uma formiga a espalhar o alimento para esse grande formigueiro que é o mundo. Qual alimento? O amor, meu Bispo. Espalharei a luz de Cristo para que a ignorância não a ofusque.
   Obrigado, meu Bispo, que a paz de Cristo permaneça em nós e o brilho da luz divina diminua a ignorância nos homens. Sim, um dia nos encontraremos.
   Fui certo da minha missão. Olhei para trás e vi tristeza e lágrimas nos olhos do Bispo, não saberia dizer se era pela minha partida ou por outro motivo qualquer. Percebi que ele reteve o seu pé no ar, aproximei para me certificar o que estava acontecendo. Entendi a tristeza e as lágrimas ao ver sob o seu pé uma fileira de formigas passando com o alimento em direção ao formigueiro, enquanto outras voltavam em busca de mais alimento. Ele repôs o pé no chão, longe das formigas, rodou com os dedos o anel, sorriu para mim e gritou, Padre, temos que ser formiga, era isso que Cristo queria nos dizer. Sorrindo, respondi-lhe que sim. Amar uns aos outros, era isso que as formigas faziam todos os dias, todos os dias.
   Meu Bispo havia entendido, o nascedouro da maldade está nos pequenos atos diários, por isso ele não pisou nas formigas.
   Voltei para mim e percebi as chamas da minha vela interna mais intensa. Segui, tal a formiga.

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV

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sábado, 11 de fevereiro de 2012

Confissão

CAPÍTULO IV


   Meu Bispo, havia muita coisa no ar, muitas suspeitas. A sacola que ele depositou na porta do quarto, por que não levou para a cozinha que é o normal? Ou então, se era para ser colocado no quarto, por que não abriu a porta e colocou? Além disso, aquele silêncio dele, a demora de falar comigo como se quisesse saber alguma coisa apenas me analisando através da minha fisionomia, uma leitura corporal que me denunciasse. E a esposa, apesar da compenetração ao rezar o Rosário, estava prestando atenção em nós dois, e sua fisionomia era de alguém que fez um delito que se arrependeu.
   Qual foi a pergunta que ele me fez, meu Bispo? Essa, qual o motivo que me levou a casa dele? Não, demorei em responder, não havia me preparado para aquela pergunta. Instintivamente levei o vinho à boca, e ele, esperando a resposta, me encarou com um sorriso como quem dissesse, eu lhe peguei. Assim que retirei a taça da boca, prontamente, lhe disse que estava recolhendo donativo na comunidade para a futura reforma da igreja. Ele soube logo que eu estava mentindo. Como eu percebi isso? Assim que ele me abraçou e deu três tapas no meu ombro e encaminhado para uma escrivaninha, eu reparei um jornal dentro da sacola próxima a porta do quarto cuja manchete era que o homem encontrado na igreja sofreu abusos sexuais pelos pais segundo o padre. Ele retirou uma vela de sete dias da gaveta e a acendeu para a Santa Maria Madalena, olhou por alguns minutos a chama e me disse que era interessante o desgaste da vela para se ter a luz, ela ia se derretendo, se desfazendo em sacrifico da iluminação. Assim como nos era necessário o sacrifício da carne, o seu apodrecimento, o seu desgaste para a iluminação da alma. Finalizou dizendo que é morrendo que se alcança a vida eterna. Trêmulo, tentei me desvencilhar do seu abraço, porém, ele não deixou.
   Meu Bispo, olhei naqueles olhos azuis buscando alguma emoção e percebi que até a doçura de antes havia se perdido. Ele retirou algumas notas da gaveta e me deu como donativo. Com um sorriso irônico no rosto ele me perguntou se aquela quantia dava para comprar o indulto para salvação da sua alma. Sim, meu Bispo, o perdão só se consegue com um sincero pedido e o arrependimento das mazelas praticadas, as indulgências para o pecado cometido por ele, por mais severas que fossem, não o livraria do julgamento divino, afinal, ele tirou uma vida. Contudo, meu Bispo, eu não poderia dizer-lhe isso, estava aquém da sua compreensão.
   O que eu lhe disse? Não se compra o perdão, ele é invendável. É o seu valor que nos torna humano e para consegui-lo é necessário o arrependimento, mas mesmo assim, o perdão não nos livra da justiça dos homens. Senti suas mãos percorrerem as minhas costas nervosamente e parar no meu pescoço. Seus dedos, quentes e incontroláveis, tamborilaram antes de apertarem as veias do meu pescoço. Disse-me que sem oxigênio não haveria as chamas na vela, portanto, não haveria iluminação. Então conclui que o sacrifício do corpo era necessário para se alcançar a iluminação e consequentemente o perdão. Seus dedos, vagarosamente, afrouxaram e eu voltei a respirar normalmente, pois o ar já estava me faltando. Ele se encaminhou abraçado a mim até o quarto, abriu a porta e me empurrou, abaixou pegando o pacote que ele havia trazido e entrou fechando a porta. A escuridão no quarto não me permitiu ver nada, a não ser o branco dos seus olhos. O peso de suas duas mãos nas minhas costas me fez cair sobre a cama. Senti os seus joelhos comprimirem os meus órgãos internos contra o colchão. Outra mão, mais macia, amarrava os meus braços e pernas na cabeceira da cama, quando uma labareda bruxuleou no ar, eu percebi a silhueta de uma mulher, era a sua esposa. Aos poucos ela foi acendendo as velas dispostas em volta da cama, a luminosidade foi dando forma e cores aos objetos no quarto. Eu vi várias fotografias em porta-retratos pregados na parede, e neles, a imagem de seu filho, cronologicamente, desde a infância até a idade adulta, sofrendo sevícias. Meu terror aumentou quando ele colocou um tripé com uma câmara no meio do quarto, pegou uma vela de setes dias na sacola, uma vasilha cujo rótulo estava escrito vaselina e um objeto roliço que eu não conseguia identificar. O silêncio imperou e só foi quebrado pelos meus gritos de dor. Se havia algum cheiro ali antes eu não saberia dizer, no entanto, agora, do quarto evolava o cheiro de vela queimada. Minha pele estava vermelha devido aos respingos da parafina. A sensibilidade à dor tinha atingido o seu pico, estava a ponto de desmaiar, o tamborilamento que ele fazia com os dedos sobre a minha coluna vertebral não me provocava nenhuma sensação. No exato momento que ele abriu o vasilhame e untou as mãos com a vaselina e esfregou no objeto roliço, eu tive a sensação que as velas se apagaram uma a uma. A escuridão tomou os meus olhos e foi quebrada por flashes da câmara fotográfica. O objeto percorreu a minha coluna vertebral amiúde, de cima para baixo, freneticamente. O medo, tomando conta de mim, me fez perder todos os meus sentidos. A escuridão agora era total. Quando acordei, a dor possuía o meu corpo, o ambiente estava escuro. Percebi que não estava mais no quarto. Engatinhei - a dor era tão intensa que eu não conseguia ficar de pé, quanto mais andar - apalpando o chão para ver se reconhecia o lugar. Estava em um quadrado, sem nenhuma mobília. Era o porão.
   Não, meu Bispo, não sabia quando era dia ou noite. Somente saía do porão para o quarto e deste para o porão novamente. Aleatoriamente, eles me davam uma terrina de sopa. Para me confundir, eles colocavam uma quantidade de sopa muito pequena e me dava em intervalos curtos entrecortado por uma quantidade maior em intervalos longos. Só comecei a calcular os dias quando reparei na escrivaninha que a vela de sete dias colocada para Santa Maria Madalena estava pela metade, então deduzi que tinha passado três dias desde que entrei naquela casa. Meu querido bispo, somente depois de vilipendiar o meu corpo e me causar dores físicas e psicológicas, eu vim saber que carregava uma maldade tão perversa quanto a que estava sendo praticada contra mim. O mal, meu Bispo, mora em nós e quando ele encontra outro que o pratica contra si, ele se autodefende praticando-o em igual ou maior quantidade. Nesse mesmo dia que eu reparei na vela, vi a faca que ele usava para fazer o seu cigarro com fumo de rolo esquecida em cima da mesinha de centro. O mal em mim começo a confabular a minha autodefesa. Meu Bispo, não queira saber o quanto orei a Deus para que tirasse aqueles pensamentos de mim e me mostrasse o caminho para sair dali sem deixar aflorar a minha maldade.
   Meu corpo fraquejava devido os abusos sexuais e a desnutrição, minha fé estava abalada, a minha vela interna estava se apagando, eu perdia a minha luz e nem mais a Deus eu me apegava. Pequei, meu Bispo, e isso nunca deixarei de me cobrar, essa culpa de ter perdido a fé, a esperança. De tanto sofrer abusos, a maldade foi o meu espelho, e quando olhei dentro de mim, não me reconheci.

Continua.

Capítulo I
Capítulo II
Capitulo III

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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Confissão

CAPÍTULO III


   Como eu escapei? Hoje, quando eles estavam fazendo as sevícias em meu corpo, minha mãe passou mal e o Demônio teve que socorrê-la, na pressa esqueceram-se de me prender no porão. Sim, Padre, durante vinte anos, eu vivi preso dentro de um porão, só saía de lá quando eles queriam aquilo. Como eu tenho o conhecimento de Deus? Estranho a sua pergunta, Padre. Não há necessidade do conhecimento para sentir Deus, pois antes mesmo de existirmos, a Sua presença já era sentida, além do mais, Padre, o medo e a dor me levou até Ele. Padre, posso lhe pedir um favor? Feche os olhos e imagine que o mundo não exista, que não exista nada. Pensou? Agora me responda o que você ver? Está vendo, Padre, antes de qualquer existência, você sente Deus. Essa mesma pergunta feita para uma pessoa sem fé, ela sentirá a escuridão, o vazio, o nada. Então, Padre, não precisamos de conhecimento para sentir Deus, precisamos apenas de fé.
   Não, Padre, eu ainda não terminei. Não matei o Demônio em mim. Padre, vou lhe pedir perdão. Qual meu outro pecado? Ainda não o cometi. Vou cometê-lo agora. Perdoa, padre. Seja misericordioso. Que minha alma descanse nos braços do meu Pai.

   Meu Bispo, quero o seu perdão. Falhei na minha missão e me deixei levar pelas vontades. Eu sei, meu Bispo, o controle das vontades nos aproxima de Deus. Sim, vou lhe contar o que aconteceu.
   Quando ele me disse para ser misericordioso e pediu o meu perdão para um pecado que ainda não havia praticado, eu nunca pensei que ele puxaria uma faca e a cravaria no seu próprio peito. Agonizando, ele se arrastou ao meu encontrou, abraçou-me e tartamudeou em meus ouvidos que havia matado o demônio dentro dele, mas ele continuava vivo lá fora. Disse-me o seu endereço e ciciou antes de morrer, mate-o, Padre, é seu dever eliminar o Demônio. Repousei o seu corpo na cadeira e então me dei conta do que havia acontecido. Minha estola roxa estava impregnada de sangue, alguns respingos de sangue manchavam a minha batina. Olhei para a imagem do Cristo no altar e percebi os seus olhos desesperançosos. Uma pergunta não se cala na minha mente: Será que no dia da Sua crucificação Ele também não tinha os mesmo olhos que eu percebi na Sua imagem?
   Não sei, meu Bispo. Essa é outra pergunta que me faço e não tenho respostas. Talvez, devido à truculência da polícia, achando que ela chegaria lá atirando e depois interrogando. Talvez por curiosidade eu mesmo fui lá.
   A casa era comum, tinha uma amendoeira na porta. Na parede da garagem havia uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. Uma senhora apareceu na porta antes mesmo de eu tocar a campainha. Em suas mãos havia um Rosário, seus dedos giravam uma das contas... Sim, meu Bispo, João Paulo II dizia que o Rosário é o compêndio da Bíblia. Ela me disse que estava nos Mistérios dolorosos. Seu rosto denotava um cansaço doentio, seus olhos uma tristeza infinita, contudo, eram benevolentes. Eu sei, meu Bispo, o corpo escamoteia as máculas da alma, eu sei disso. Ela me pediu para entrar e que aguardasse no sofá enquanto terminasse de rezar o Rosário. Antes de sentar perquiri com os olhos a casa e não vi nenhuma escada que poderia levar ao porão. Havia apenas a sala, cozinha, banheiro e o quarto que estava com a porta fechada.
   Não, meu Bispo, ele chegou alguns minutos depois, trazendo uma sacola que depositou próxima a porta do quarto e um sorriso amabilíssimo. Seu rosto tinha traços fortes, mas olhos azuis dulcíssimos. Ele deu um beijo na testa da esposa e depois pediu minha benção. Sim, eu estava de batina. Serviu-se de duas taças de vinho e me convidou para sentar no sofá. Colocou as duas taças na mesinha de centro, e, com os dedos, empurrou uma das taças em minha direção sem me dirigi uma palavra. Levou a sua taça a boca e com os olhos sobre a borda da mesma me analisou. Abaixou os olhos em direção a outra taça e meneou a sobrancelha. Entendi o sinal e peguei a taça bebendo um pouco do vinho. Repentinamente, ele se levantou, foi à cozinha, pegou algo e depois tirou alguns objetos da sacola que ele havia trazido. Depositando-os em cima da mesinha e sorrindo passou os dedos no fio da faca. Pegou o fumo de rolo dentre os objetos depositados na mesinha e o cortou em rodelas bem finas picando-as depois. Retirou de uma caixa com papel de seda para enrolar cigarro da gaveta da escrivaninha uma folha, colocou-a na borda da mesinha e com a palma da mão arrastou o fumo picado sobre a seda enrolando-a. Passou a língua na borda da seda e com os dedos indicadores a fechou para, em seguida, com o dedo polegar e indicador alisar o cigarro para certificar que estava pronto. Por fim quebrou o silêncio me dizendo o que seria dos homens se não fosse as mãos, pois com elas satisfaz os desejos da carne e também os da alma ao orar aos céus a sua salvação. Disse-me ainda que as mãos dele só serviam para satisfazer os desejos da carne, os da sua alma eram as mãos da esposa que satisfaziam, como agora. Olhei para ela e vi a sua compenetração ao rezar o Rosário, sem saber em qual Mistério ela estava, porém seu rosto transparecia uma dor inaudita, como se ele estivesse mostrando as mazelas da alma, ou então implorando salvação para essas mesmas mazelas. Quando ela percebeu que eu estava olhando, as feições desapareceram, então, voltei-me para ele. Surpreendendo-me, ele me fez uma pergunta que eu não estava preparado para responder.

Continua

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo IV

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sábado, 28 de janeiro de 2012

Confissão

CAPITULO II



    Não sei quanto tempo eu estou aqui... Sim, Padre, eu sei, você tem tempo disponível. Padre, poderia apagar as velas? Obrigado. Sabe, você me faz lembrar a formiga que leva a folha para o formigueiro. Há tanta bondade transpirando dos seus olhos. De nada. Sim, eu consigo ver seus olhos pela cortina que nos separa, Padre. Falo, eu pedi para apagar a vela porque o seu cheiro me faz lembrar o Demônio. Vou lhe contar. É muito dolorido lhe falar sobre o Demônio, de alguma forma me sinto ligado a ele, como se ele fosse uma extensão de mim. Todos nós somos uma extensão do Demônio. Não somos, Padre? Não? É porque você não conheceu o Demônio. Quando ele entra em você, ele não permanece, forçosamente, você se vê obrigado a colocá-lo para fora praticando as mesmas atrocidades que ele fez com você. Sim, Padre, é por isso que estou aqui. De alguma forma, falando, eu o estou colocando para fora. Hoje eu o matarei.
   Sabe, Padre, quando somos criança o que precisamos é de uma mão nos mostrando o caminho, e, se é uma mão cuidadosa, que nos mostra o caminho certo. Quando completei cinco anos, o Demônio pegou na minha mão e me levou para o quarto. Se minha mãe não fez nada? Ela estava no quarto colocando as velas em volta da cama. Ele pediu para eu tirar a minha roupa. Inocente, sem conhecimento da maldade, a tirei e subi na cama conforme ele pediu. Ele apagou a luz e a única coisa que percebi foi o brilho do branco de seus olhos. Aos poucos, minha mãe foi acendendo as velas, e assim que o lume bruxuleou no pavio, o quarto ganhou cor e forma. O desenho do corpo da minha mãe foi ganhando formas que ainda não tinha visto. Eram curvas e saliências que até então não era do meu conhecimento. Ela andou até a cadeira, sentou de pernas abertas e eu vi uma mancha escura. Cruzou as pernas e sorriu para mim. O seu sorriso me tranquilizou.
   O Demônio me deitou de bruços com a cabeça virada em direção da minha mãe. Agora, além de sorrir, ela passava as mãos sobre as suas coxas e as levava até os seios, os massageando. As mesmas mãos que um dia acarinharam os cachos dos meus cabelos e deveriam mostrar o caminho certo. Aquelas mãos, Padre, estavam percorrendo caminhos errados, explorando um terreno que não deveria ser do meu conhecimento. Essas mãos, Padre, me mostraram o inferno, porém, foram as mãos do Demônio, mais precisamente os seus dedos que faria do meu corpo o próprio inferno. Padre? Está me ouvindo, Padre? Padre, onde está você? Não precisa se desculpar, Padre. Eu sei, é chocante. Mas sabe o que me choca mais, são pessoa que não reage como o senhor reagiu. Algumas são tão maléficas como foram a minha mãe e o meu padrasto, pois sente prazer ao ver ou ouvir essa história. Padre, onde está Deus nessa hora? Entendo, Padre, Deus sempre existe, essas pessoas que não percebe a Sua existência. Como fazer com que elas percebam, Padre? Ah! Padre, o senhor é mesmo uma formiga. Então, a solução é uni-las as outras correntes para que ela sinta a bondade da maioria e assim contaminada por essa bondade perceberão a infinitude das ações Divina. Concordo, Padre. Sinto-me contaminado pela sua bondade. Amém, Padre.
   Sim, Padre, preciso colocar para fora o resto do Demônio que ainda permanece em mim. O Demônio enrolou os seus malditos dedos entre os cachos dos meus cabelos, percorreu, amiúde, subindo e descendo, suavemente, a minha coluna vertebral, arrepiando-me, fazendo sentir medo, e, também, prazer. Padre, me perdoa, eu era uma criança... Era para eu sentir apenas dor... Suavemente, ele ergueu minha cabeça e vi os dedos de minha mãe entrando e saindo da mancha escura entre as suas pernas. Padre, eu fechei os olhos, e mentalizei várias formigas entrando ali, erguendo-me e me arrastando daquele inferno. Eu sei, Padre, não preciso contar mais. Sabe, Padre, os dedos do Demônio entraram em mim, e seus tentáculos não machucaram só o físico, desestabilizou a alma, pois, eu sinto falta desses dedos. Isso me martiriza, Padre. O Demônio, por mais que eu fale sobre o ocorrido, sempre estará em mim, a necessidade é a lembrança de sua existência. Padre, me perdoa por eu necessitar dele e, também... Padre por que descerrou a cortina? Ah! Padre, depois de vinte anos é o primeiro toque carinhoso, sem intenção de fazer aquilo, que sinto. Obrigado, Padre, por me conceder o seu perdão.  
   O que me fez sobreviver nesse inferno? A minha fé, Padre. Deus me manteve de pé. Todos os dias eu esperei a formiga trazer a folha. Sim, Padre, ela veio todos os dias. Quem era a formiga? Deus, Padre, e a folha era o Seu alimento.

Continua

Capítulo I 
Capítulo III
Capítulo IV 


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domingo, 22 de janeiro de 2012

Confissão

                                                              
CAPÍTULO I

    
   "Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos. Jostein Gaarder".

   Posso começar a falar? Obrigado. O medo levou o homem ao encontro de Deus para ajudá-lo a enfrentar os seus monstros, imaginários ou não, apenas com a sua fé, tanto é que bastou ele saber de sua coragem para ir de encontro a Deus e achar que por si só aniquilaria todos os seus monstros. Há monstros que mesmo destruídos permanecem em nós, como se a maldade que nos fizeram quisesse se revelar através de nossos atos. É por isso que estou aqui, querendo o seu perdão para aniquilar de uma vez o meu monstro, antes que ele toma conta de mim. Quem é o meu monstro? Eu o chamo de Demônio. Só pronunciar o seu nome me vem uma vontade de arrancar a pele do meu corpo, assim eliminaria as manchas maculadas por ele. Licença, preciso sair agora, limpar minhas mãos, os meus dedos, pois a vontade que eu tenho é de cortá-los. Por quê? Ele usou os dedos para entrar em mim. Quem? O meu monstro, o Demônio. Tudo bem, usarei o banheiro. À direita?
   A água estava quente. Melhor assim. Limpou as sujeiras embaixo da epiderme, e essas são as piores, maculam até a alma. Sabe, as pessoas trocaram o confessionário pelo divã achando que uma analise psicológica dos seus problemas destravará os caminhos da mente, mal elas sabem que o demônio já os conhece muito bem, até os seus desvios. Sabe, Padre, o mal da humanidade é a falta de fé, a total descrença em Deus, é achar que a solução para as suas doenças, seja física ou psicológica, está somente em uma ciência. O homem se acha Deus de si mesmo. Sim, Padre, eu acredito em Deus. Sim, estou aqui para confessar os meus pecados.
   Sabe, Padre, às vezes duvido que o homem seja uma criação divina, ele parece mais uma obra do diabo. Olha em nossa volta, a perfeição na natureza. As plantas não precisam daquilo para... Não, Padre, só de ouvir essa palavra me dá nojo. Então, as plantas não precisam daquilo para se multiplicar, elas são Deus em essência. Enquanto o homem vive por e para aquilo, os animais irracionais só fazem aquilo quando estão no cio, apenas para a sua multiplicação. Por que eu tamborilo o dedo médio na mão quando falo daquilo? Foi com o dedo que o Demônio entrou em mim, Padre. Se ele fez aquilo comigo? Sim. Sim, ele fez sexo. Desculpa, Padre, eu vou vomitar. Eu sei, à direita, não macularei o chão da sua Igreja.
   Minha mãe? Ela ganhava dinheiro fazendo uso daquilo. Sim, Padre, ela era prostituta. A desgraçada... Desculpa, não falarei mais palavrão.  A minha mãe me abandonou em uma caçamba de lixo. Me responda, Padre, pode haver Deus em uma pessoa assim? Não, Padre, nós não somos uma extensão de Deus, as pessoas não são assim por não exteriorizar o Deus em si, por deixá-Lo interiorizado. Não, Padre, elas não sente a presença de Deus em todas as coisas, mas somente em si e se acham onipotentes. Deus, para elas, inicia e encerra em si. Eu? Como eu sinto Deus? Deus, Padre, para mim, está em tudo, até numa simples formiga que leva uma folha para o formigueiro, pois, aquela folha será para o proveito de todas. Deus é isso, Padre, a liga que nos une ao todo, a uma só corrente, sem distinção dessa ou daquela espécime, sem individualismo, sem um querer ser maior do que o outro, por que grandeza só há uma, a de Deus. Por que eu estou chorando? Me sinto um elo quebrado dessa corrente. Esperança? Padre, é o que mais tenho desde os cinco anos. Quantos anos eu tenho agora? Vinte e cinco.
   Não, Padre, uma mendiga me achou pensando que eu era algum alimento... Engraçado, né? Quando viu que eu era um recém-nascido, ela me deixou na primeira porta que encontrou. Isso mesmo, na porta do prostíbulo. Noutro dia, após ser abandonado em uma caçamba de lixo, eu voltei para os braços da minha mãe. Se tivesse que escolher, preferia ter permanecido no lixo. Quando completei cinco anos, ela casou com um cafetão, o Demônio. Posso descansar um pouco, Padre?

Continua

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV 

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sábado, 19 de novembro de 2011

Violência urbana

   Maria fazia, como todos os dias, antes de sair de casa, sua oração ajoelhada em frente do oratório. Tendo Santa Rita de Cássia como protetora, ela perdera a esperança no ser humano, mas não na vida, mesmo sabendo ser difícil desassociar uma coisa da outra. Muito cedo perdera o marido atacado por cirrose hepática. Sozinha, ela criara os três filhos e por deixá-los a sós, para trabalhar, os perdera para o crime. Bola era o único filho vivo, mas havia dez anos que não o via, desde que ele fugira de casa.
   Ao sair de casa, Maria se benze fazendo o sinal da cruz e beijando a medalha de Santa Rita que traz sempre consigo. Ela se dirige ao ponto para tomar o ônibus que a levará a Rua Cascalho.
              
   Rua Cascalho cedo da manhã. O silêncio imperava. De vez em quando se ouvia o vento que trazia um pouco de umidade. Amanhecia seco. Do nada surge um carro em alta velocidade. O barulho da frenagem dos pneus no asfalto interrompe o silêncio.
   - Porra Neto estacione o carro próximo da saída. Que merda cara, você quer nos ferrar?
   - Calma Paco! Você não está falando com qualquer um não.
   - Bola passa as máscaras. Apressa-se porra. Vamos cacete, isso aqui vai ser um assalto, não um piquenique de fim de semana com a família. Atenção, quando entrarmos quero todos com as máscaras. Neto deixa o motor ligado. Bola, você fica com o caixa... Não, você é muito gordo para isso. Neto, você fica com o caixa, e revolver apontado para cabeça dele, qualquer movimento, você estoura os miolos dele. Bola, você fica na porta vigiando. Vamos!
   Os três entraram surpreendendo o caixa e o atendente. Neto já havia pulado o balcão e estava com o revolver apontado para cabeça do caixa. Bola estava na porta da loja desempenhando a sua função. Paco estava com o atendente que lutava desesperadamente para se desvencilhar.
   - Que merda! O que este prego tem, fumou bosta de gado? – Paco dá uma rasteira no atendente levando-o ao chão. Com o joelho sobre o seu peito e o revolver enterrado na sua boca, ele grita:
   - Quieto. – Repetiu a frase só que pausadamente.

   Maria já estava no ônibus, um ponto antes de descer ela tem a impressão de que uma voz sussurrava aos seus ouvidos: “não desça!”. A voz era doce e tinha hálito de rosas. Ela não dá ouvido. O cheiro de rosas aumenta, tem a impressão de estar num roseiral. Ela desce.
   Em um momento de descuido, Paco só teve tempo para sentir o chute na região genital. A dor era intensa, mas mesmo assim ele engatilhou a arma, mirou no atendente e, no momento do disparo, sentiu um impacto no ombro.
   - Você tá louco Paco. Estamos aqui para roubar não assassinar. - Neto esbraveja após se chocar com Paco.
   Não ouve tempo de evitar o disparo. A bala seguiu seu destino. Passou de raspão pelo atendente, atravessou a porta de vidro assustando Bola, e acertou em cheio, no outro lado da rua, Maria que a pouco havia descido do ônibus. Ela levou as mãos ao peito e, mergulhada em sangue, desmaiou. Em poucos segundos estava morta. Rodeada por rosas brancas, ela acordou no colo de Santa Rita de Cássia. Alcançou, enfim, para sempre, a paz.
   - O que está acontecendo aí, cara? Porra, tem um presunto do outro lado da rua. Melou, melou. Que merda! – Bola assustado começa a andar em círculos, e só se deu conta que havia outro corpo no chão quando tropeçou nele, desabando de uma vez.
   Após o choque que levou de Neto, Paco disparou de novo. A bala alcançou o atendente antes dele atravessar a porta de vidro, estilhaçada pelo primeiro tiro, e cair na calçada da loja. A última imagem, antes de morrer, que viu, foi um corpo imenso que desabava sobre ele. Era Bola que acabara de tropeçar.
   - Que está acontecendo aí, isso aqui é um assalto ou uma carnificina? – Interroga Bola, aturdido, aos seus amigos.
   O imprevisto havia acontecido e a vida de cada um deles estava em suas mãos, cabia a cada um tomar a decisão. Paco havia tomado a sua e, com a sua decisão, mudou o destino de todos. Após Paco amarrar o caixa, Neto pegou sua arma que havia caído no choque. Com aquele movimento, Neto selou seu destino. Paco não hesitou quando viu Neto com a arma na mão. Apontou-lhe seu revolver sem esboçar nenhum sentimento, a não ser raiva. Instantaneamente, Neto também lhe apontou a sua. Os dois frente a frente, de arma em punho, duelavam.
   - Seu merda, por que atravessou o meu caminho? – Paco esbravejou.
   - Não havia necessidade de matá-lo. – Neto demonstrava serenidade.
   - Agora o bostinha vai dar um de bom samaritano. O merdinha escolheu o crime como opção de vida e agora se acha defensor dos fracos e oprimidos. Há, há, há, me poupe bosta ambulante.
   - Ele é um ser humano...
   - Chega de bobagens, seu riquinho de merda. Por que então você está aqui?
   - Você sabe muito bem, Paco. A culpa é sua.
   - Não me culpa pela tua escolha, seu merdinha filho de papai. O seu erro é fruto somente da sua escolha. Você que subiu o morro atrás de drogas, não fui eu que desci.
   - Meu fascínio pelo crime foi devido à ilusão que você me passou...
   - Chega desse papo. Você já me atrapalhou muito.
   - Se atrapalhei é porque não havia necessidade de você tirar a vida do cara.
   - Não havia, não havia. – Paco imita a voz de Neto. – Chega de bobagens. Para você que nasceu bem, afinal seus pais são ricos, é fácil ter dó dos outros. E eu que vi só pobreza, pergunta-me se alguém teve dó de mim, se teve dó dos meus pais. Meu pai, aos trinta e cinco anos, foi mandado embora do emprego, não conseguiu outro porque estava velho e, além disso, era discriminado por ser negro e favelado...
   - Isso não lhe dá o direito de matar alguém.
   - Cala a tua boca que eu ainda não terminei. Envergonhado, meu pai abandonou a família, entregou-se a bebida e morreu. Alguém teve dó dele? Não. Vivemos num mundo egoísta, onde ninguém dá a mínima para sua dor. Minha mãe foi obrigada a trabalhar de empregada doméstica. Um mês, exato um mês de trabalho, o sacana do seu patrão tentou estuprá-la. Ela o denunciou, o delegado disse que não podia fazer nada, pois ela não tinha testemunha. Na segunda tentativa de estupro, ela o matou. De desgosto, minha mãe, morreu na prisão. Aos dez anos, sozinho no mundo, não tive assistência do estado, só quem olhou para mim foi o traficante da favela que eu morava. E estou aqui vivenciando minha dor todos os dias e você vem me falar de dó. Só há um sentimento em mim: “Ódio”. Agora abaixa sua arma.
   Foi o erro de Neto. Ao abaixar a arma, Paco com um tiro estourou seus miolos. Caído no chão, como último espasmo, riu. Ao se virar, Paco percebeu que ao cair, Neto soltou-se de sua arma, e esta já estava na mão do caixa que havia se soltado das cordas. Paco só sentiu o impacto das balas no seu corpo para perceber que chegara seu fim. Disse suas últimas palavras:
   - Seu merda.
   Bola, desesperado, entrou na loja quando foi surpreendido pelo caixa que disparou sua arma, mas não tinha mais balas. Riso sarcástico, Bola abaixou-se, encostou seus lábios próximos da orelha do caixa e sussurrou:
   - Seu terror vai começar agora. Sabe por que eu estava lá fora? Porque eles tinham medo de eu estragar tudo, pois dos três eu sou o mais malvado.
   O caixa tentou falar alguma coisa. O medo o impediu e ele engasgou com sua própria saliva.
   - Eu quero a chave do cofre. – Agora Bola gritava.
   - Não está comigo. – O caixa conseguiu atinar as palavras.
   A orelha esquerda do caixa foi arrancada, com um tiro a queima roupa, dado por Bola.
   - Eu quero a chave do cofre.- Disse Bola aos berros.
   - Não...
   Bola não deixou ele completar a frase e deu-lhe um tiro na perna esquerda. Quando Bola lhe apontou a arma na direção da sua cabeça, o caixa apontou à esquerda do balcão. Era o local onde estava a chave.
   - Imbecil, não havia necessidade de lhe arrancar a orelha e nem quebrar sua perna. Vou lhe aliviar a dor. Vá para o inferno!
   O estampido do descarrego da arma é ouvido em toda a loja. Bola abre o cofre, põe tudo que tem valor numa sacola e sai em disparada com o carro. Após meia hora dirigindo, ele liga o rádio do carro:
   “Aqui é Amari Terra falando da periferia de São Paulo. Mais um assalto seguido de morte. Por que São Paulo está violenta? A resposta talvez esteja na impunidade que os infratores gozam. Em um país onde os mandatários, que são responsáveis em manter a ordem e a lei, são os primeiros a deixar roubar ou, eles próprios, a roubarem. Em um país onde deputados são pego em ato de corrupção, absolvidos pelos seus pares, só pode passar a sociedade que o crime compensa. Daí advém toda violência que nasce e cresce assustadoramente em São Paulo. Amari Terra falou para o programa Violência Urbana direto da periferia de São Paulo. Bom Dia”.
   - Seus trouxas. – Bola desligou o rádio. 

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Aonde o sol se esconde - Final

   Qual de nós nunca imaginou um final feliz para a história de nossa vida? Qual de nós, após o fim, nunca desejou o paraíso, a felicidade?
   O padre beijou o crucifixo, ajoelhou em agradecimento por ter sido salvo, em seguida curvou-se e beijou o assoalho do altar abençoando o único local que não foi maculado pelo sangue da carnificina, até então. Ao se levantar esbarrou na pia batismal quebrando o silêncio mortal. O policial, que até aquele instante pensava estar só, aguçou os seus sentidos em direção ao fundo da igreja. A fumaça provocada pelos disparos ainda permanecia no ar e o impedia de discernir qualquer objeto, porém ele tinha os outros sentidos. O disparo dado pelo policial em direção de onde veio o barulho atravessou o cérebro do padre, o arremessando ao chão; o sangue espargiu no ar e atingiu o rosto do noivo.
   O garoto que acabara de entrar pela porta traseira frustrou-se por não ter dado aquele disparo, por não ter aquela morte creditada à sua vingança. Ele caminhou até o padre, o cutucou com o cano do AR-15 para ter a certeza da sua morte; nervoso, olhou em todas as direções em busca de algo móvel. Vendo movimentos de feixes de luz, ele escondeu atrás do altar e apontou a sua arma.
   Na mão direita a arma do policial fumegava, na esquerda a lanterna foi ligada, e, a mão nervosa, apontava os feixes de luz em todas as direções à procura de mais alguém.
   O halo de luz surgindo em sua frente fez com que o noivo imaginasse que sua noiva veio buscá-lo para levá-lo lá aonde o sol se esconde; ele foi em direção à luz estancando o sangramento na barriga com uma das mãos. O policial disparou a arma, pois a mão do noivo colocado em sua barriga dava a entender que ele estava armado. O noivo correu em direção à luz gritando, vem meu amor, você veio me buscar, eu não tenho medo, vamos ser feliz sim, lá aonde o sol se esconde. Antes de atingir à luz, o noivo encontrou a bala no meio do caminho. Sua vista escureceu, sentiu tontura, tentou equilibrar, a luz da vida estava lhe fugindo, tudo em sua volta tornava-se branco, tão branco como o vestido de sua noiva.
   O garoto saiu de onde estava escondido com o AR-15 pronto para dispará-lo, mas ele se reteve, suas pernas tremeram, estático, ele não acreditou no que estava vendo. Cristo havia descido da cruz, com as mãos em chagas lhe pedia a arma. O garoto limpou os olhos, com certeza estava tendo uma alucinação, os esfregaram várias vezes a ponto de deixá-los vermelhos. Um sopro com aroma de alfazema chegou-lhe aos ouvidos pedindo a arma. Filho não guarda rancor em seu coração, a vingança só voltará contra si. Mas eles mataram os meus pais, não foi você que disse, dê a César o que é de César. E a Deus o que é de Deus, filho; e o que é de Deus é o amor, só através do amor você terá a redenção. As lágrimas desceram do rosto do garoto, um alívio imensurável tomou conta de sua alma. Quando ele se levantou, esbarrou no pedestal que estava a bíblia, a derrubando no chão; só então ele percebeu que o policial estava correndo em sua direção. O garoto saiu em disparada pela porta traseira da igreja, sem desespero. O policial, em seu encalço, o seguia descarregando a sua arma.
   Quando a brancura era a única cor que o noivo conseguia sentir, ele viu a sua noiva vindo em sua direção, pegar em sua mão, colocar a aliança em seu dedo e pedi-lo para colocar a dela. Os dois estavam unidos e banhados de luz. Ela lhe disse, vamos. Para aonde, perguntou-a. Lá aonde o sol se esconde. A felicidade está lá? Sim e não, respondeu-o. Como? Se ela estiver em você, estará lá também, mas se não, não. Ele não fez mais pergunta.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Aonde o sol se esconde - 6ª Parte

     A policia estranhou quando viu nos vitrais da igreja focos de luz bruxuleando, posto que ordenara a companhia elétrica o corte do fornecimento da energia assim que começasse a investida contra o morro. O capitão ordenou a invasão à igreja, e, sem fazer perguntas, atirasse mesmo que ofendesse os ouvidos de Deus. A saraivada de balas ensurdeceu, seja os ouvidos humanos ou não. O primeiro tiro acertou a barriga do noivo, o desacordando; ele não chegou a ver a sua noiva cair morta próxima do altar. Aos poucos as pessoas na igreja foram caindo mortas, algumas se arrastavam sobre os corpos dos outros, assustadas, sem conseguir desviar das poças de sangue, preocupadas em se desviar das balas que zuniam sobre as suas cabeças. Assim que cessou os disparos, apenas um policial ficou na igreja para fazer o rescaldo, havia a necessidade de provas para justificar a carnificina. O noivo estava acordando com uma bala alojada no intestino, o padre rezava pelo milagre de estar vivo, o policial, no meio da fumaceira provocada pelos disparos, procurava por provas. O garoto ainda não havia chegado à igreja.
     Qual de nós nunca brincou de polícia e bandido sabendo quem era o bandido e quem era o policial? Qual de nós ao ver um policial fardado se sentia seguro, protegido?
     Decepcionado consigo mesmo por não ter sido capaz de se vingar, - sem saber se foi devido ao seu temor a Deus, ou se a conduta ética e moral incutida por seus pais na primeira infância, ou ainda, se devido a sua covardia – o garoto saiu em disparada pela porta traseira da igreja, sem desespero. O policial, em seu encalço, o seguia descarregando a sua arma. O garoto, mesmo com um AR-15, não revidava por saber ser inútil o revide, mormente se ele parasse seria presa fácil; contudo, ele sabia que a oportunidade de matar o policial ele teve na igreja, e não o fez. Serelepe, ele correu desviando das balas que zuniam sobre a sua cabeça. Apesar de o policial ser mais rápido, o garoto era conhecedor de cada rua do morro, e este conhecimento era o que ele precisava para se livrar da perseguição. Quase do seu tamanho, a arma lhe serviu de apoio quando sentou. Do alto do morro ele viu Cristo de braços abertos, inerte, como deve ser toda estátua.
     Silente, o helicóptero da polícia circundava o morro, porém, tanto audível como visível a qualquer sentido humano, o garoto não o percebeu, absorto em seus pensamentos, com os olhos fixo na estátua do Cristo no alto do morro.
     Amanheceu, e o sol surgiu forte nas bordas do céu iluminando todo o morro e deixando a mostra o quanto devastadora era a mão humana quando agia movida pela maldade. E quando se pensava que essa mão ia sossegar para contar os seus mortos, o reflexo do sol sobre o AR-15 do garoto luziu aos olhos do policial. O helicóptero retornou, e a mão ávida do policial engatilhou o seu fuzil com mira a laser. Bem perto dali, um traficante, com olhos e ouvidos atentos, percebeu o helicóptero e engatilhou a sua arma, também.
     As balas, anjos infernais, saíram pelos canos das armas e atingiram os seus respectivos alvos ao mesmo tempo. O helicóptero, dando volta em torno de si na descendência, ao atingir o solo explodiu matando todos os seus ocupantes. O garoto olhou para o Cristo Redentor, depois para o morro, e, enfim, para a opulência do asfalto, contudo não enxergou nada, pois a vida lhe estava sendo expirada. O traficante o pegou, o colocou sobre o ombro esquerdo e o ouviu pronunciar suas últimas palavras, “Pai, perdoa-os”. Ora olhando para o morro, ora para o asfalto, o traficante, com apenas uma mão, disparou sua arma prometendo vingança àqueles que mataram o seu filho adotivo, ou seja, todo e qualquer policial. Mal ele sabia que as últimas palavras do garoto não foram ditas para ele.
     Após chorar os seus mortos, o morro, silente, clamava para que eles fossem enterrados; sempre presente, o traficante o desceu carregando o garoto no seu ombro.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Aonde o sol se esconde - 5ª Parte

     Quando a mente humana não percebe a luz que emana de um solo sagrado é porque não sabe mais em que chão pisa.
     Aquela mão não lhe dava apenas a proteção, mas também o levava aonde os seus pensamentos permitiam. Aquela mão agora, desprendida da sua, tentava apoiar na parede para desacelerar a velocidade da queda. Aquela mão envolvida no sangue que espargia da cabeça tentava apoiar nele para evitar a queda. Aquela mão não o levaria mais aonde os seus pensamentos permitiriam, aquela mão não lhe daria mais proteção. O policial, com uma arma em uma das mãos, vasculhava o corpo morto em busca de provas para justificar o assassinato que acabara de cometer; não encontrando, ele plantou uma, e saiu passando a outra mão na cabeça do garoto que a rejeitou se desviando. Devido a repulsa, o garoto recebeu uma coronhada no queixo e foi lançado de encontro ao corpo morto do seu pai. Após a morte de seu pai, foi pelas mãos de sua mãe que ele voltou a ter segurança, mas durou pouco. Desgostosa, ela se foi, também, morta pela polícia. Mas foi pela mão, a pior mão, malévola, deseducativa, a mão do estado que ele mais sofreu. Por dois anos o peso desta mão exerceu influências negativas sobre ele o acompanhado até o fim dos seus dias. Aos seis anos, após fugir da FEBEM, o garoto buscou proteção na mão divina, mas o padre o aconselhou a procurar um abrigo governamental. Não se pode esperar muito da mão divina quando para se chegar a ela precisa da mão humana. Sem ter a quem pedir ajuda, o garoto enveredou por um caminho sem volta, o do tráfico. Mais do que mão, o tráfico foi braços, pernas, corpo, e, principalmente, mente. Com seis anos, o sofrimento lhe tirou qualquer capacidade de discernir o certo do errado. Ele foi alimentado pelo desejo de vingança, e pela mão que comia, a vingança era um prato cheio.
     Trêmulo, o garoto não conseguia mirar em um dos policiais que se encaminhava para a igreja, os seus pensamentos presos ao passado não permitiam. Seus pais mortos pela polícia, os maus tratos na FEBEM, a rejeição do padre eram dores incuráveis, mas que precisavam de alívio. Ele se refez e se encaminhou para a igreja.

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Aonde o sol se esconde - 4ª Parte

     Qual de nós nunca brincou de mocinho e bandido e sempre quis ser o mocinho por saber que no final o mocinho sempre vence? Qual de nós nunca quis ser o mocinho sabendo que no fim da história a heroína sempre fica com o mocinho?
     A igreja toda enfeitada de rosas brancas estava lotada; ansioso, o noivo aguardava no altar o início da celebração; seu casamento era a última cerimônia a ser realizada. Oscilando a cabeça, ele autorizou o desligamento da energia; assim que as luzes começaram a apagar, as duas mil velas postas em candelabros e distribuídas por toda a igreja foram acessas. Inquieto, ele andou de um lado para o outro, ora limpando o suor do rosto, ora batendo a ponta do sapato no assoalho de madeira chamando a atenção de todos.
     A força policial se preparava para mais uma incursão ao morro determinada a eliminar qualquer suspeito. A operação era de risco, como sempre era toda subida policial ao morro, mormente se fosse feita à noite. O Caveirão já estava ligado, pronto para partir. Com todo o aparato que aquela operação exigia, a polícia dava a entender que iria para a guerra. E ia.
     Marcha soldado, cabeça de papelão, quem não marcha direito, cai na ponta do facão. O garoto, tamborilando na mesa, cantava uma das cantigas que sua mãe lhe ensinou no pouco tempo que estiveram juntos. O dia estava sendo inusual para ele, o mais esperado de todos os dias de sua vida, o momento que ele esperava para vingar a morte de seus pais. O traficante lhe deu o AR-15, não lhe disse nada, apenas olhou dentro de seus olhos com a certeza de estar vendo um homem, passou a mão na sua cabeça, como sempre faz, e o deixou sozinho. A arma dava a entender que ele iria para a guerra. E ele era apenas uma criança.
     Havia um silêncio incômodo no morro, uma quietude imposta, sabendo-se de antemão que logo a balbúrdia imperaria, para depois um silêncio pior permanecer, o silêncio de quem vela os seus mortos. Fogos de artifícios estouraram no céu avisando que a polícia ia subir o morro, pipas povoavam o céu alertando os moradores que deveriam ficar em suas casas. Sabendo da batida policial, antecipadamente, os traficantes alertavam aos moradores o que estava por vir. O palco estava armado para a guerra.
     O padre pedia silêncio, pois a cerimônia seria iniciada.
     A tropa preparada começava a invadir o morro.
     Silente, o garoto fazia suas preces com as duas mãos postas sobre o cano do AR-15, e a cabeça sobre as mãos. Um tiro ecoou na rua, foi o sinal que ele precisava para sair.
     Todos olharam para trás, sem exceção, quando o organista tocou “Forever in Love de Kenny G”. A noiva, de vestido branco bordado com linha de seda, coroa de rosas naturais branca prendendo os cachos do cabelo, entrou na igreja iluminada pelas velas que bruxuleavam no candelabro da entrada da igreja até o altar. Atraída bela beleza da noiva a luz da vela ganhou mais vida e derramou sobre ela o seu lume a nobilitando; o noivo entre risos nervosos a aguardava, silente, com as mãos no bolso da calça e gotas de suor permeando sua face.
     Anjos infernais saiam dos canos das armas, tanto da polícia como dos bandidos, a procura dos filhos de Deus; os corpos no chão mortos, nenhum fardado, era a prova de que não havia bala perdida. A polícia aproximava da igreja deixando para trás rastros de destruição. O morro as escuras necessitava de luz, e o único lume que bruxuleava era o do interior da igreja, chamando a atenção da tropa policial.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Aonde o sol se esconde - 3ª Parte

   Qual de nós, em perigo eminente, o medo perscrutando, não ajoelhou e pediu ajuda aos céus; qual de nós, conseguindo a ajuda, não se prostrou diante do Altíssimo e agradeceu não a nossa existência, mas a Dele.
   Mesmo com o sangue, da carnificina, coagulando sob os seus pés, desnorteando o seu raciocínio, ele, apesar do embaçamento da visão causado pelo ferimento, ainda conseguiu ver o padre beijar o crucifixo que trazia consigo e ajoelhar-se em agradecimento por ter sido salvo; em seguida, ele viu o padre curvar-se e beijar o assoalho do altar, abençoando o único local que não foi maculado pelo sangue, até então. Uma nuvem vermelha e líquida, vindo de onde estava o padre, lhe atingiu o rosto, embaçando a sua visão, mais ainda. O padre caiu de bruços sobre o crucifixo. A permanência da maldade retirava a chance do milagre em terra de homens.
     O padre tentou localizar o seu matador, mas a visão lhe fugia, conseguiu discernir a figura de um garoto na porta do fundo da igreja com um fuzil na mão, porém o tiro veio da entrada da igreja. Mesmo com a morte eminente, ele não perdeu a esperança do milagre, pois sabia, por sua fé que a salvação não se dava pelo físico. Duas mãos em chagas lhe são estendidas, ele as agarra fervorosamente. Sua fé dava a certeza que em poucas horas estaria dormindo no colo do Pai.
     O garoto postado na porta do fundo da igreja, com um AR-15, caminhou até o padre, nervoso, olhou em todas as direções, perscrutou todos os cantos em busca de algum alvo móvel.
     A arma na mão direita do policial ainda fumegava após os disparos dados em direção ao fundo da igreja, com a mão esquerda ele ligou a lanterna e a apontou em todas as direções.
     O garoto se escondeu atrás do altar ao ver movimentos de feixes de luz e apontou seu AR-15 na direção do foco de luz.
     A luz em forma de uma pequena auréola surgindo na frente do noivo fez com que ele imaginasse que sua noiva voltou para buscá-lo e levá-lo lá aonde o sol se esconde. Ele foi em direção à luz estancando o sangramento na barriga com um das mãos.

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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Aonde o sol se esconde - 2ª Parte

     Qual de nós nunca buscou a felicidade, qual de nós não a encontrou em uma barra de chocolate; em um perfume adocicado; no cheiro de terra molhada após a chuva, em uma tarde de verão; em um bom livro; ou então, nos olhos de quem se enamora?  
     Os cabelos cacheados lhe caíam sobre os ombros, emoldurando o rosto arredondado; seus olhos amendoados, cor de mel, abrilhantavam mais ainda o seu sorriso brejeiro. Fosse inverno, fosse verão, sempre de vestido, destoando das outras mulheres que preferiam a praticidade do jeans e camisetas, as masculinizando, ela, elegantemente, subindo o morro, passou com costas e colo à mostra, e se fez percebida pelo seu vasto sorriso marfim; a pele ébano e sedosa exalava o aroma de lavanda. Enfeitiçado por sua beleza, ele não lha disse uma única palavra com receio de parecer vulgar, contudo, era a timidez que colocava freios em sua língua. Daquele dia em diante ele viu que a beleza era negra e perfumada.
     Livro em mãos, aberto, fingindo ler, sentado no primeiro degrau da escadaria que conduzia do morro ao asfalto, ele percebeu ela vindo em sua direção, quase roçando os joelhos um no outro como se estivesse na passarela, desfilando. Ela, assim que colocou o pé esquerdo no segundo degrau, resolveu voltar; dobrando os joelhos em sentindo contrário de onde ele estava, ela de cócoras, abaixou um pouco a cabeça para ler o título do livro, e lho disse, poesias? Siiiii...im, gaguejou. Jogando os cabelos para trás, ela mostrou toda a exuberância exótica do seu rosto, e, rindo, voltou a descer a escadaria. Desprendendo dos freios que prendiam a sua língua, ou seja, a sua timidez, ele, quando ela estava com o pé direito no quarto degrau, a chamou. Sem titubeios ou gaguejos, ele lha perguntou aonde ela encontra a felicidade para estar sempre rindo. Ela lho disse que ele poderia achá-la em uma barra de chocolate, e fingindo ter uma em mãos, o ofereceu. Ou em um perfume adocicado, e com uma das mãos, ela jogou os cachos para o lado esquerdo, agachou e encostou o pescoço próximo ao seu rosto e pediu-lhe para senti-lo. Quem sabe no cheiro de terra molhado após a chuva das tardes de verão, e abriu os braços, jogou a sua cabeça para trás, fitou o céu, girou o corpo em volta de si como se estivesse sentindo gotas de chuva inundando o seu rosto. Quiçá em um bom livro, e tomando-lhe o livro recitou um poema de amor. Mas, provavelmente, nos olhos de quem se enamora, e, docemente, ela deixou os seus se perderem nos dele. Ele os encontrou, e, abraçando-a, lhe fez uma última pergunta. E se a perdemos, aonde poderemos encontrá-la, novamente? Ela riu risos soltos, estridentes, escutáveis por todo o morro, e lho disse. Lá aonde o sol se esconde. E onde fica? Aonde residem os mortos, disse seriamente, e depois se soltou em risos.
     Não houve a necessidade de eles dizerem uma única palavra para se entenderem. Silentes, os dois se olharam mutuamente, e seus olhos se encontraram; não houve, também, mais a necessidade da visão para se enxergarem, o amor faria isso. De olhos fechados, os seus lábios se encontraram. Cristo no alto do morro, de braços abertos, os abençoava.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Aonde o sol se esconde - 1ª Parte


        A maldade é fruto da incapacidade humana de aceitar o outro. Qual de nós, em busca da felicidade, a alcançou fazendo o outro feliz? Qual de nós plantou a semente da alegria em um coração que não fosse o nosso?
     Ele não teve a oportunidade de fazê-la feliz, o suficiente. Agora, a felicidade residia aonde o sol se esconde; por mais que a procurasse, ele nunca a encontraria. A bala alojada em seu intestino não era impedimento para tanto, era preciso muito mais do que força física para se chegar lá. Tendo a morte como passaporte certo, ele estava tão próximo disso.
     Seus pais, sogro e sogra; tios, tias, cunhados e cunhadas; irmãs, irmãos, sobrinhos e sobrinhas; padrinhos, madrinhas, alguns amigos e amigas; o padre e alguns desconhecidos que estavam na igreja para assistir a celebração do seu casamento; e, finalmente, a sua noiva; todos mortos. Algumas pessoas se arrastavam sobre os corpos mortos caídos no chão; assustadas, sem conseguir desviar das poças de sangue, preocupavam-se em se desviar das balas que zuniam sobre os seus corpos. Fora da igreja, o cenário era de guerra; o Caveirão estava sendo crivado de balas; o morro, campo de batalha aonde inocentes ou não tinham um único destino, a morte, vivia mais um começo de noite, onde polícia e bandido não escolhia a quem abater. Houve um tempo que o morro sabia quem era o mocinho e quem era o bandido.
     Naquele momento não importava qual mão havia os matado, pois a sociedade não sabe mais dos seus heróis. Qual de nós, por menor que seja a atitude, por desprezo a dor do outro, ou por júbilo a esta mesma dor, também, não tem as mãos manchadas pelo sangue que são derramados, tanto no morro como no asfalto?
     A raiva não lhe permitiu as lágrimas. Seus olhos se moviam, intermitentes, em meio ao fumaceiro provocado pelo tiroteio, buscando alguma resposta plausível.
     Albert Pine dizia que o que fazemos para nós morre conosco, o que fazemos por outros e pelo mundo continua e é imortal. O que o homem faz, quando faz, só faz movido pela maldade, e é aí que ele mais se sobressai; a bondade é uma pequena sombra sobre a vasta luz que ilumina o seu caminho, e não importa se este caminho o leva ao morro ou ao asfalto, ao centro urbano ou a periferia, posto que a estrada em si não é boa ou ruim, mas sim quem sobre ela caminha.
     Seus olhos fixam na imagem de Cristo colocada atrás do altar da igreja, e, por alguns segundos, esperam, não a resposta para o que estava ocorrendo, mas o milagre da ressurreição, não de quem já estava morto, mas da bondade de quem vivo estava. Enfim, ele chora, Cristo estava morto, também.
     Platão um dia disse que perdoamos uma criança com medo do escuro, mas a grande tragédia da vida é o homem ter medo da luz. Um pequeno halo de luz se encaminhava em sua direção, vindo da entrada da igreja; ele não teve medo, dentro dele havia uma certeza de que era ela.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Traição

   Eu não lhe tinha nenhuma comiseração, apesar de ela não estar sofrendo, a sua dramatização para uma dor que não lhe pertencia, provava que todos os seus sentimentos eram fingidos.
   Eu não lhe tinha nenhum amor, pois a sua amabilidade era para proveito próprio, interesseira, seus sentimentos eram frívolos, fútil, ela não fixava em ninguém.
   "Mas menino, quah! O amor é um sonho platônico, é para vocês escritores intuir nos leitores o que nem vocês mesmos acreditam. Diante da beleza do corpo físico, o amor é uma formiga assustada com a grandeza do elefante. Casa-se com uma bela mulher e deixa o tempo acumular sobre ela o seu peso, então, - ela tal qual uma aliá - vocês chegarão à conclusão que o amor é um delírio platônico".
   Assim diria o meu primo com a sua filosofia de botequim e com tanto acumulo de tempo que seria cansativo quantificar o seu peso, o mesmo poderia dizer de quem estava ouvindo-o.
   Eu não sei se foi um matemático ou físico que projetou a Itiê, pois as suas curvas eram milimetricamente perfeitas, no entanto, o acabamento foi poético, pois as partes de seu corpo eram um lindo soneto com rimas ricas e não era à toa que seu nome também fosse poético.
   Quando levei Itiê ao quarto, não percebi que estava entrando numa caverna. Quando a levei à cama, mesmo com minha prosa rimando com a sua poesia, eu não enriquecia o meu texto.
   Ao dizer-lhe que foi a primeira e última vez que íamos nos encontrarmos na horizontal, o seu choro era um drama fora do contexto. Aquela dor não lhe pertencia, nem a mim. Ao falar-me de amor, a caverna ecoou a minha risada ensurdecendo-nos. Tanto a dor quanto o amor pertencia ao meu primo. Por que eu não pensei nisso antes? Saí da caverna, mas a caverna não saiu de mim, ela me incutia a minha traição, o meu erro.
   A culpa não passa de uma bala que não matou, incrustada em nós sem poder ser retirada, ela nos lembra, ad infinitum, o nosso erro.
   Não tive coragem de esconder do meu primo a traição. Ao contá-lo, ele, simplesmente, colocou duas pedras de gelo em seu copo, não sei por que ele não pôs no meu, virou a garrafa de Red Label até derramar pelas bordas dos dois copos. Ele bebeu o seu uísque pausadamente e perdeu o seu olhar buscando um ponto para se apoiar, o meu uísque, eu virei de uma vez e senti a caverna sair de mim para eu me enfurnar nela.
   "Sabe primo, você não traiu a mim, mas aos seus princípios, a sua família. O amor, para nós, homens, é um sentimento aprisionado numa caverna sem luminosidade, dificilmente o enxergamos, porém, se uma luz refletir na caverna, veremos na sua parede a imagem perfeita do sentimento, assim, ao sairmos da caverna, cegamo-nos devido à luminosidade e nos perdemos tateando o superficial no outro para moldá-lo ao sentimento, contudo, a mesma luz iluminada na caverna se encontra no interior, na profundeza do outro, e, simplesmente, bastaria ligar o interruptor para voltarmos a enxergar o mesmo sentimento refletido na parede da caverna".
   Ele encheu novamente o seu copo, sem colocar as pedras de gelo, bebeu-o de uma só vez, suspirou, olhou nos meus olhos procurando comiseração, ou quem sabe amabilidade e, cego pelo uísque, não os achou, porém, eu os tinha. Então me disse com a calma dos monges, soletrando a frase:
   - Sai daqui!
   Encheu novamente o copo, mas não o bebeu. Apoiou as mãos fechadas na mesa, fechou os olhos, abaixou e suspendeu a cabeça e ao mesmo tempo inspirou e expirou o ar irrespirável do ambiente, silenciou por um segundo, e, enfim, vociferou:
   - Antes que eu lhe mate e me arrependo pelo resto da minha vida, pois eu lhe admirava, principalmente a sua retidão. - E repetiu por cinco vezes a palavra retidão. Abaixou a cabeça, lágrimas compulsivas inundaram o copo de uísque.
   A sua dor era tão santa, aliás, o seu amor por mim e pela Itiê era tão puro que eu duvidava quando ele dizia que o amor era um sonho platônico.
   Saí. Por mais luminosidade que houvesse na caverna, a imagem refletida na parede não era a minha. Eu me desconhecia.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O lado escuro

   Ele buscava dentro de si um local para o refúgio, tentava se esconder do que se passava na sua mente. O medo não estava lá fora, mas em si mesmo, nos seus atos, se ele se deixasse levar pelo que estava aflorando no lado escuro de sua mente. Sentado na calçada, encolhido e recolhido em seus pensamentos, com as mãos apontadas para o céu, tambolirando os dedos, ora uns contra os outros, ora contra a própria cabeça, ele conversava consigo mesmo sem saber quem sairia vencedor nessa luta infrene de si contra si mesmo. Na própria calçada, rolou de um lado para o outro, esmurrando o ar tentando atingir o ser imaginário do lado escuro de sua mente que o insuflava a agir. Tateou o chão, perscrutando-o, em volta de si, olhou para cima e como se estivesse cercado de abelhas, espalmou o ar na tentativa de expulsar os insetos, porém, ele não sabia que eram os seus pensamentos que o estava aterrorizando. Em pé, não percebera as pessoas que passavam, seus olhos fixados em um ponto, como se estivessem olhando num espelho, enxergavam somente a si, e não tendo medo, rindo para si, disse, é isso mesmo. Andou alguns passos, aproximou-se da árvore no meio da praça, girou os olhos em volta e encontrou o que estava procurando. Retirou o saco da lixeira, revolveu o lixo e, enfim, encontrou um pedaço de sanduíche comido. Limpou-o na própria roupa encardida que usava e abocanhou-o com tanta voracidade que mordeu uns dos dedos da mão. Saciado com o mísero pão, virou-se para o lado e disse para o ser imaginário do lado escuro da sua mente:
   - Dessa vez eu te venci.
   Rindo, o outro lhe abraçou e lhe respondeu convicto:
   - Hoje, sim. Porém, amanhã, quando não achar o alimento, você o roubara. É da nossa natureza o crime.

   Ele adormeceu, sentiu uma luz aproximando, viu um anjo pegá-lo pelo braço e levá-lo. Freou ao percebe que o ser imaginário do lado escuro da sua mente não os acompanhava. O anjo explicou que para aonde estavam indo só entrava pessoas dotadas de luz, a escuridão ficava do lado de fora, por isso seria inútil levá-lo.

   A noite estava escura, as nuvens vestiam a lua de trevas, a rua pincelada de cinza enegrecia o ambiente, as lâmpadas no postes eram um ponto perdido no ar, destoavam no cenário plúmbeo, pois não iluminavam. No meio da praça, deitado próximo da árvore, ele, com um sorriso iluminado no rosto devido ao sonho, não percebeu quando a moto aproximou jogando sobre si a luz do farol. Duas pessoas vestidas de preto com um capacete na mesma tonalidade retiraram de suas mochilas pretas um frasco, jogou o conteúdo líquido sobre ele, acendeu um cigarro, tragou-o esbaforindo a fumaça no ar e com os dedos arremessou-o sobre ele. Aceleraram a moto, fez um cavalo de pau, empinou-a e saiu em disparada dando gargalhadas.  Escuros, sumiram no meio da escuridão noturna.
   Por alguns instantes a praça se iluminou, mas assim que as labaredas cessaram, voltou à escuridão de antes. Ventos revoltos levaram as cinzas do corpo carbonizado, indelével, no chão, a marca escura do que ali ocorrerá.

   O sol rompia no horizonte iluminando o dia, algumas pessoas saíam de suas casas deixando para trás o amor ao próximo, iam escuras...

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