O seu olhar trazia um medo desmedido, o nervosismo
lhe tirava um pouco da inocência, a arma em mãos lhe ocultava qualquer traços
de ternura. O passo que ia dar lhe tiraria a puerilidade, não haveria volta,
ele pisaria em terra de homens. Era uma criança.
Cansado dos maus tratos verbais e das surras
que seu pai lhe aplicava após voltar da rua embriagado, ele procurava outro
refúgio, um válvula de escape, uma abertura para a fuga. O seu mundo imaginário
não mais aliviava as dores, o seu herói não mais jogava as suas teias para
içá-lo e salvá-lo das garras do vilão, o terror habitava a sua casa. Era uma criança.
O passo dado para lhe tirar do terror
familiar foi retido pelo peso do silêncio antes que o levasse para um terror
maior. Porém, o peso estava aquém para dobrar a sua consciência.
PARE, NÃO FAÇA ISSO. quem é você? NÃO ME
RECONHECE MAIS, PRECISO COLOCAR A MASCARA PARA ME FAZER RECONHECÍVEL? agora eu
percebo que todos nós colocamos mascaras de acordo com a conveniência para ser
reconhecido, você não precisa, você é autêntico, homem-aranha. ENTÃO, POR QUE
VOCÊ VAI COLOCAR ESSA MASCARA? a natureza já colocou uma mascara em mim, já
estou marcado. QUAL MASCARA? está na minha pele, não percebe, a cor, sou negro.
A NATUREZA NÃO, A SOCIEDADE, E ELA SÓ ADERE SE VOCÊ ACEITAR, NÃO A COR, MAS O
PRECONCEITO. tudo é fácil quando se é
super-herói. NÃO SE FAÇA DE VÍTIMA E SEJA UM. como? olha para o meu pai, negro;
olha para a minha mãe, negra. E DAÍ, CARA, VOCÊ ESTÁ SE REFLETINDO NO ESPELHO
QUE A SOCIEDADE LHE IMPUTOU, MUDA DE ESPELHO. é fácil quebra um espelho, um
preconceito, não. DEUS NOS FEZ DIFERENTE PARA QUE PUDÉSSEMOS CONVIVER COM AS
NOSSAS DIFERENÇAS E PARA ISSO NOS DEU A LUZ, A LUZ DA HARMONIA; NO ESCURO SOMOS
TODOS IGUAIS PORQUE NÃO NOS REFLETIMOS NO OLHAR DO OUTRO, SE AO ACENDERMOS A
LUZ, NÃO NOS ENXERGAMOS IGUAIS É PORQUE A OUTRA LUZ, A DIVINA, ESTÁ APAGADA,
NÃO PERMITA QUE A SUA SE APAGUE. a palavra é o refúgio dos covardes quando se é
maioria, a minoria só tem uma arma, a ação. UNE A PALAVRA À AÇÃO, JESUS DISSE:
"AMAI-VOS UM AOS OUTROS COMO VOS AMEI", ISSO É PALAVRA EM AÇÃO, ASSIM
ELE PREGOU, ASSIM AGIU. porém, ele teve mais sorte, sofreu preconceito e foi
morto na cruz; eu sofro preconceito, levo a cruz imputada pela sociedade sem
levar os cravos como salvação. MAIS UMA VEZ EU VOU LHE SALVAR, MINHA CRIANÇA,
NÃO PERMITIREI QUE VOCÊ SUCUMBA POR ESTAR OLHANDO NO ESPELHO ERRADO.
homem-aranha, você é uma ilusão, seu mundo lúdico não passa de um refúgio para
minha falta de coragem; quando olho no espelho eu me vejo como eu sou, a
sociedade que olha o espelho errado; ela se olha e se ver como gostaria de ser,
impõe um padrão ético e moral de acordo com a conveniência, porém não percebe
que somos plurais. SE VOCÊ AGIR COMO PRETENDE, ESTARÁ SE TORNANDO SINGULAR,
ESTARÁ INDO DE ENCONTRO AOS ENSINAMENTOS CRISTÃOS. o cristianismo que a
sociedade prega não é o mesmo que ela pratica quando houver um irmão passando
fome. ISSO NÃO LHE DAR O DIREITO DE FAZER JUSTIÇA COM AS PRÓPRIAS MÃOS.
justiça? qual justiça, a que prega as cotas para negro como solução, a que dá
bolsa-família; não homem-aranha, eu quero é oportunidades, a sociedade não sabe
prouver isso; preciso quebrar esse espelho. MAS... não insista, a época do heroísmo
passou, você não existe, nossa sociedade não permite a ilusão, endurecemos
muito cedo...
O silêncio foi quebrado aliviando o seu peso
quando o líder do bando ordenou a invasão à agência bancária.
Ao anunciar o assalto, ele não quebrou nenhum
espelho, ao disparar a sua arma no caixa que acionou o alarme, ele se
assemelhou a imagem que a sociedade lhe imputou.
"Vamos à imagem. A cena é chocante. Negro,
morador de favela... A notícia é quente... Bandido, quinze anos, uma criança...
Aconteceu agora a pouco... Traficante, morto pela polícia... Nossa polícia que
tira das ruas esses bandidos... A zona sul de São Paulo está assistindo... Põe
a imagem, pessoal... O criminoso deu um tiro na cabeça do caixa... Olha o
momento que a cabeça do caixa tomba...” - O locutor, negro, narrava a cena do
assalto dramaticamente. A sua locução estava de acordo com que a sociedade
queria ouvir, cega, ela não via a imagem.
"A noticia na hora que acontece. O
nosso repórter está ao vivo, vamos a ele pessoal".
"Comandante,
poderia ter evitado as mortes? - Perguntou o repórter constrangendo comandante
e locutor.
"Mortes? A polícia fez um bom trabalho.
Não morreu nenhum dos nossos, não morreu nenhum cidadão de bem, as mortes que
houve foram de bandidos. - Disse o comandante, branco".
"Não podemos deixar esses bandidos
tirar da gente o que conseguimos com o suor do corpo. Quantos morreram? - Disse
uma transeunte, branca".
"A função da polícia é extirpar da
sociedade essa escória. - Disse o policial, negro".
A câmera foi se afastando, o repórter foi
saindo de cena, o ângulo aberto mostrava uma mãe, negra, desesperada, chorando,
gritando a inocência do seu filho. Ela não tinha voz.
Em casa, todos, o locutor, o repórter, o
policial, a transeunte se olhou no espelho e viram a imagem que a sociedade
queria que eles vissem, não perceberam que pouco importava a cor de sua pele,
negra ou branca, era por dentro que se escondia a cor do conceito, preceito e
preconceito, e essa imagem ninguém via em si.
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