Figurante
Os cabelos lisos moldando o rosto oval e pequeno, as sobrancelhas grossas, o nariz afilado, os lábios finos, as orelhas rente a cabeça, o pescoço longo, os olhos negros estavam todos refletidos no espelho, mas ele não se via. Aquele rascunho borrado tentando ganhar forma, por mais nítido que parecesse, não era ele. Preso as personagens que representava, sua vida foi um ato de erros contínuos, não que agora não fosse mais, pois por mais que errasse, pior não ficaria. Descaracterizado, ele não convencia nem a si, sem platéia e consequentemente sem ganhar pela sua atuação, sozinho, tornava-se invisível. A invisibilidade não o protegia, ao contrário, o deixava vulnerável aos seus fantasmas que de tão reais estavam sempre em cena contracenando com ele. Em estado permanente de demência, no palco da vida, era um péssimo ator. A linha que separava a lucidez da loucura era curta, e ele sempre a ultrapassava. Somente é normal aquele que reconhece a sua loucura, ele não reconhecia a sua. Percebe...