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Mostrando postagens de setembro, 2013

A família encantada - Primeira página

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Toda bola de gude sonha em permanecer na mão de um menino, pois sabe que ao ser jogada no chão deixará rastros a serem perseguidos por ele. Assim, a história de ambos será escrita pelos rastros percorridos. Contudo, nem todas as certezas são compartilhadas por todos, menos ainda quando se tratam das certezas de uma bola de gude. Quando ouviu o Senhor do tempo dizer-lhe: “Segue o seu destino Cacau...”, a bola de gude sabia que havia chegado a hora em que ele se transformaria em um rapaz. No entanto, assegurava-se que, enquanto nas mãos do rapaz estivesse, sentiria nas suas linhas a essência do menino. Foi com um sobressalto que a bola de gude notou que escapava da mão esquerda de Cacau, e, naquele instante, teve a certeza de que nunca mais percorreria as linhas de suas mãos. A bola de gude rolou até a bicicleta e disse-lhe: - Seremos esquecidas. Você enferrujará e eu trincarei, não pelas dobras do tempo, mas pelo esquecimento. Incrédula, a bicicleta olhou para a bola ...

A vida me ensina IV

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Reflitam sobre essa cena: Uma grávida entra no transporte público e os assentos para especiais estavam ocupados por uma idosa e uma adolescente com deficiência auditiva. A acompanhante da deficiente auditiva se dirige para a grávida e fala que a mesma é especial. Uma pergunta tola: O assento melhorará a acuidade auditiva da especial adolescente? A ignorância encontra solo fértil onde prevalece a falta de bom senso e germina com a falta de amor ao próximo. Em tempo, uma pessoa amável que estava num assento que não é reservado para especiais cedeu o seu lugar. A acompanhante e a especial adolescente seguiram a viagem conversando pela língua dos sinais. Lição:um gesto de amor vale por qualquer palavra, não importa a língua que se fala. Por falar em amor, o nascedouro desse sentimento é na família, portanto, olha o que vem por aí: "Toda bola de gude sonha em permanecer na mão de um menino, pois sabe que ao ser jogada no chão deixará rastros a serem perseguidos por el...

O menino encantado - Última página

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Ouvindo essas palavras, sua visão ficou turva, o chão começou a girar e perdeu a estabilidade. Perdeu a noção do tempo e, quando deu por si, estava deitado, melhor dizendo, caído, no chão. Abrindo os olhos, pode ver o halo do sol, quase lhe cegando, e cachos acobreados pendendo de um rosto de anjo. Será que estou no céu? - Cacau? Cacau! Acho que ele está acordando! A menina riu, puxou seu corpo para deitar sua cabeça em seu colo, e lhe disse assim: - Você é o Cacau, não é? Minha mãe é muito amiga da sua, e me pediu para vir aqui na sua casa lhe mostrar minha bicicleta nova. Você queria ganhar uma dessas, não é? Vim lhe emprestar a minha, mas, quando vinha passando vi sua bola de capotão cair bem no meio de sua cabeça e você, desabando no chão. Ai, menino, que susto! - Menino não, corrigiu ele. Rapaz. O meu nome você já sabe. E o seu, posso saber? Ainda tonto, não acreditou quando ouviu o que ele próprio havia dito. Enrubesceu-se a menina, e respondeu assim: - M...

O menino encantado - Quarta página

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Olhando com mais atenção, pode ver novamente o halo do Sol, brilhante, e, como se saísse dele, um senhor, encurvado, mas inspirando muito respeito, que se encaminhou em sua direção. Disse-lhe: - Ficamos todos muito orgulhosos do seu gesto ainda há pouco, rapaz. Encabulado, o menino respondeu: - Meu eu não sou rapaz, sou menino... O senhor riu, deixando entrever dentes tão branquinhos que pareciam uma fileira de pérolas, e continuou, como se nada tivesse sido dito. - Sabe, meu rapaz, há muito tempo que lhe observo. Vi seu nascimento, acompanhei quando começou a engatinhar. Estive ao seu lado quando tentava firmar suas pernas, e vibrei quando o vi pela primeira vez com sua bola de gude nas mãos. Você se lembra de quem a ganhou? - Do meu avô... Engraçado, agora que o senhor falou nisso, sinto mesmo que já o conheço. Como se sempre, por perto, tivesse estado. Somos parentes? Por acaso vizinhos? - Eu sou o Tempo, meu jovem, e decidi trazê-lo aqui para que ...

O menino encantado - Terceira página

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Quando o menino olhou para baixo, uma formiga sorridente com as antenas vibrando de emoção lhe disse: Oi!  Ainda que assustado, não se impressionou como da outra vez. Usando as costas da mão para enxugar as lágrimas, o menino logo lhe contou o motivo de tanta tristeza. - Foi isso? Simples de resolver! Vá lá dentro, peça perdão aos seus pais e, principalmente, ao seu irmão. Quando voltar não se esqueça de trazer a bola de capotão do seu avô. - Como você sabe que é dele? - Essa é outra história que não me cabe contar. - Posso trazer, também, a bola de gude? - Sim. Depressa! O portal vai fechar a meia-noite. Portal? Não entendendo muito o quê estava acontecendo, mas temendo estragar a situação mágica em que se encontrava, não titubeou. Girou em seus calcanhares e correu para dentro de casa. Quando voltou era outro menino, saltitando, feliz, nada tinha de rapaz. - Agora, chuta a bola para mim...

O menino encantado - Segunda página

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A formiga lá já não estava, mas, para seu azar, o seu irmão, que havia saído detrás da moita, estava. Rindo desmedidamente, seu irmão repetiu a frase que tanto o apavorara: rapaz bobo, não está me vendo? E, continuando o escárnio, emendou: Você achou que fora a formiga a falar contigo? O deboche crescia, até a gargalhada tomar conta de todos os sentidos do menino. O menino não pensou duas vezes. A bola de gude foi jogada no chão e substituída por um pedregulho, habilmente lançado em direção ao irmão, que, a essa altura, já havia trocado o riso pelos pés, e saído desembestado, rumo ao horizonte.  Mesmo longe, foi claro o barulho do pedregulho batendo no calcanhar do irmão. Podia sentir o sangue escorrer e viu o seu corpo desabar no chão. Pronto. Naquele instante o menino percebeu que havia acabado com qualquer chance de ganhar a tão desejada bicicleta de Natal. Aquela que ele havia pedido em sua cartinha ao papai Noel, dois meses antes. De nada...

O menino encantado - Primeira página

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Era uma vez, um menino que tamborilava com o dedo indicador sua bola de gude antes de jogá-la no chão, e se inquietava por ela não retornar à sua mão. A vida seguia o seu curso normal, a Terra girava em torno do Sol e a Lua em torno da Terra. Somente ao menino essa normalidade não era perceptível. Também pudera, ele tinha apenas três anos.  O menino continuou no seu mundo silente, às vezes perturbado por um canário pousado em uma árvore, observando-o ali parado, sem entender por que ele esperava a bola de gude subir por sua própria vontade. O canário de plumagem amarela entoou uma canção, lhe dizendo, menino bobo, a bola não subirá.  Outras vezes era perturbado pelo vento, que lhe dizia, suavemente por entre as moitas, não percebeu, menino bobo, a voz do canário que eu lhe trouxe? O liame do mundo real ao mundo encantado dos pássaros e vento, o menino só perceberia muitos anos depois. O Senhor do tempo acionou a engrenagem, girando a roda do tempo, e o menino,...

Era uma vez...

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Era uma vez um escritor de contos tristes. Ele tinha o dom de conhecer a morada final de cada um dos seus textos - e elas sempre provocavam lágrimas emocionadas nos olhos de quem as lesse. O começo, esse ele ia procurando. Às vezes, olhava embaixo dos bancos do ônibus que, diariamente, tomava. Encontrava uma tampinha de garrafa, duas moedas de vinte e cinco centavos e, surpresa, um bom começo para o final que já estava fadado. Apesar de ser o final o seu começo, o escritor de contos tristes buscava outro fim, afinal o fim da vida, no fim das contas, por si só, já é triste. Ele ia tropeçando em “ T ”, “ R ”, “ I ” e “ S ”, e, por mais que tentasse desviar-se, não conseguia, pois os garranchos sobre a linha o levavam ao encontro, novamente, do “ T ”. Esse o impulsionava em um chute, como se as letras tivessem pernas, nos braços do “ E ”, “ Z ” e “ A ”. Seu ponto final era a desalegria.  Do outro lado da mesma cidade, amanhecia a escritora dos contos de fadas. A ela cab...

Pensamento - sobre ser diferente

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                                                Imagem: Getty Images   O frustrante em não conseguir montar um quebra-cabeça é saber de nossa incapacidade em encontrar o encaixe perfeito para cada peça e não o fato de alguma faltar. Assim é a vida quando convivendo com diferentes pessoas você não se encaixa em nenhum relacionamento. O pior de tudo é saber-se diferente e só, como uma peça que não se encaixa.                                               Imagem: Getty Images Enfim o grande dia está ch...