Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Geração insensível

   Deixamos de fazer história e passamos a ser telespectadores da vida. O tempo e o espaço agora são pequenos devido a nossa inação. Importamos mais com a linha do tempo feicibuquiana, curtindo e compartilhando fatos que por si só não faz parte da história devido isso ser uma ação de mero telespectador do que o que diz ou faz o outro sem uma discussão saudável do fato. Aqui e ali pipoca ódio ao deputado condenado por requerer atendimento médico, mesmo sendo provado por uma junta médica que o mesmo necessita do atendimento,  alegando que preso comum passam por situação pior, ou então que em hospitais públicos doentes são esquecidos nos corredores sem atendimento. A partir do momento que nivelamos por baixo,  deixamos de lutar pela igualdade de direito, ou seja, que todos os presos tenham o mesmo tratamento humanitário independentemente da sua condição social perante a lei estabelecida.  Ao negarmos o direito ao deputado  ser atendido  deixamos de ser humanos. É inegável que os presos no rodapé da pirâmide social devem ter o mesmo tratamento dos presos no cume dessa mesma pirâmide,  não o contrário. Quando deixamos de pregar isso, estamos propagando o ódio,  desumanizando a raça. 
   Talvez, essa condição de telespectadores nos tira a condição primaz de ser: o pensamento, e com isso, deixamos de existir. Estamos nos condicionando à invisibilidade, ao ódio,  à solidão, seja entre quatro paredes diante do computador, seja no meio da multidão com nosso Tablet. Não enxergamos o outro nem a nós mesmo, posto que nossos olhos e atenção estão direcionados à tela de nossas máquinas. Não nos abraçamos mais, não damos mais as mãos, pois essas estão ocupadas em digitar, curtir e compartilhar virtualmente. O que está acontecendo nesse século é a disseminação da indiferença, da desvalorização da vida. Está se criando uma geração invisível e insensível. 

  


sábado, 30 de novembro de 2013

Cosedura



   Não sei se é  a vida que costura parte de nós para formar o todo ou se são pessoas de nosso convívio que alinhavam essas partes para que possamos  dar o acabamento. Creio na segunda afirmativa,  assim, a peça toda, com defeito ou não,  será fruto de nossa costura. 
   Foi na opulência que o molde do meu todo foi forjado. Nessa época, o ter só meu deu agulha e linha para a costura, mas foi a solidariedade dos meus pais que guiaram as minhas mãos para a cosedura. Após sair da opulência, perdendo a agulha e a linha, a costura continuou sendo feita baseada na mesma solidariedade. 
   Minha mãe, que nunca havia trabalhado, tendo uma empregada doméstica e uma babá, se viu - após a falência do meu pai - obrigada a uma dupla jornada exercendo a profissão de costureira para ajudar no orçamento familiar e cuidando dos afazeres domésticos. 
   Minha mãe tem um positivismo de causar inveja, talvez isso foi imbuído em seu ser para a nossa própria sobrevivência. E foi o que nos salvou. Meu pai, a princípio, deixou-se abater pela falência de sua panificadora,  ela, tomando rédeas da situação, pedalou literalmente os nossos destinos. 
   Quando olho o pedestal da velha Singer, comigo para que eu não esqueça como o meu todo foi costurado, vejo minha mãe pedalando a máquina de costura para ganhar os primeiros trocados e alimentar de pão - outrora feito pelo meu pai - a família. 
   Aos poucos ela foi crescendo e eu a seguia. Quando me dei conta, ela já tinha três máquinas industriais  de bordar, outras de costurar e eu,   aos treze anos, ajudando-a ora em uma máquina de bordar, ora em uma de costura. Bordamos e costuramos durante muito tempo vestido de noiva para as lojas da Rua São Caetano no centro velho de São Paulo. 
   Foi nessa época que ela me deu uma lição de vida inesquecível. Um dia lhe cobrei explicação por que ela, além de ensinar outras pessoas a bordar e costurar,   passava clientes e emprestava uma das máquinas sem nada cobrar. Essa foi a sua resposta: “Por que é da minha natureza ajudar os outros, e se chegamos até aqui foi por que fomos ajudados, aprenda isso”. 
   Eu tenho uma imagem da minha mãe que é símbolo de toda a sua maternidade. Meu irmão mamou até os seis anos de idade, e ela, impossibilitada de largar a máquina, pois haviam muitos pedidos, amamentava-o enquanto bordava. 
   Hoje, aos setenta e seis anos continua ativa, em uma cooperativa de artesanato vendendo suas peças e ajudando os outros. 
   Sinto como se fôssemos o mesmo espírito dividido em corpos diferentes, ela em grau evolutivo muito acima de meu. Sem ela não teria costurado o meu todo, pois alem de dar agulha e linha, foi mão principal para o alinhavo. 

Imagem de arquivo



domingo, 24 de novembro de 2013

Herói sem livro



   Fui introduzido na leitura pelo padeiro da panificadora do meu pai ainda na infância. Contumaz leitor de livros de bolso de bang e bang, ele me mostrou um mundo onde não se confundia os vilões com os mocinhos e vice-versa, tão diferente do mundo real por ser da natureza do homem a vilania e a hombridade no mesmo ser. 

   Costumo dizer que o meu pé não é de laranja lima, mas de amêndoas. Antes mesmo de conhecer as letras e o fascínio que elas exerceriam sobre mim, foi através da audição que um mundo fantástico foi me apresentando pelo meu avô. Nas tardes quentes do verão baiano, ele trazia o seu tamborete de jacarandá com assento de couro de vaca, colocava-o sobre a sombra do pé de amêndoas em frente da panificadora do meu pai, chamava-me e pegando-me pelos braços, colocava-me em seu colo para em seguida me apresentar personagem cuja bondade incutiu em mim a crença no ser humano, pois, mais do que ninguém, ele fazia de seus heróis pessoas comuns.  Meu avô desencarnou em 2001 aos 94 anos, deixou como herança o seu tamborete, mas riqueza maior ele deixou incutida em minha alma, e é tão forte que o sinto vivo, passando com seu jeito simples os seus ensinamentos, até os dias de hoje. 

   Nas visitas que faço na casa dos meus pais no interior de São Paulo, sinto como voltando ao passado, pois a minha família sempre será o meu ninho, o meu refrigério. Quando meu pai pegou o tamborete e colocou ao lado da rede que eu estava deitado com o meu filho e me disse que se arrependia de ter saído da Bahia, mas o que lhe confortava era que nós, os seus filhos, não seríamos o que somos hoje se na Bahia permanecêssemos. Percebi em sua voz uma tristeza incontida e nos seus olhos perdidos no horizonte uma tentativa de encontrar-me criança tendo-o como herói.  Da mesma forma que veio, ele se foi,  levando o tamborete e entrando na casa. Vi naquele gesto um pedido de desculpa por ter destruído os sonhos dos seus filhos. 

   Eu estava construindo os meus sonhos e não usava apenas areia e água, mas também tijolo, cimento e cal. Quando a panificadora do meu pai, em Brasília, faliu, não apenas implodiu os meus sonhos, desestruturou a família de seis filhos, pois ela foi dividida ao meio, metade voltando para a Bahia, a outra metade, meus pais, eu e duas irmãs mais velhas, indo se aventurar em São Paulo. Foi nesse momento que o meu herói passou a ser vilão, e humano. 

   O meu vilão, semianalfabeto, foi trabalhar de servente de pedreiro na construção civil, estudou, fez curso de mestre de obra e exerceu essa profissão até se aposentar. Estruturou a família,  construiu a casa da maioria dos filhos. Homem de mão forte, meu pai, nunca deixou de enfiar as mãos na massa para dar alimento para o corpo com o pão, para a alma com os livros comprados, e, aos quarenta e cinco anos, enfiou as mãos na areia, cal e cimento para dá guarida. 
   O meu pai é um herói que não está nos livros. 





sábado, 9 de novembro de 2013

Aquele quarto

   
  Ninguém havia me falado qual era a linha que separava o sonho da realidade, porém, quando atravessei essa linha não estava preparado para sair de uma e entrar na outra. 

   Meu pai foi um grande fabricador de sonhos, aprendera com o meu avô a arte de fabricar barcos e navegá-los pelos rios Grande, São Francisco e Preto transportando mercadorias, contudo, foi quando aprendeu a arte da panificação que os sonhos se realizaram.

   Vivíamos na casa dos sonhos, enorme, ia de uma rua a outra. Na Rua Desembargador Montenegro ficava a entrada da casa e na Rua paralela, Sete de Setembro,  ficava a entrada da fábrica de sonhos, a panificadora do meu pai. E existia um corredor enorme que ligava a casa a fabrica, aquele corredor, cujos rastros, meu e de meu pai, passados quarenta anos, ainda devem permanecer nele se ele ainda existir. São passos indo, primeiro do meu pai, na madrugada,  para a fábrica e depois os meus seguindo-o para em seguida só os dele, pois ele me pegava no colo e me colocava na rede, armada com esse intuito, no salão da fábrica. Tentando driblar o sono, eu via uma névoa branca provocada pelo trigo cobri-lo na feitura da massa do pão e, antes de homem-aranha, super-homem e batman, ele se transformou em meu super-herói. Os passos de volta eram somente dele, pois eu ia dormindo em seu colo. Enquanto a massa do pão descansava para a fermentação, seu corpo descansava também para se preparar para a segunda etapa de sua lida. Amanhecia, e dessa vez, íamos de mãos dadas para fábrica. As suas mãos amassavam a massa, cortavam-na e enrolavam-na para o ultimo descanso e, enfim, ir ao forno à lenha, enquanto as minhas esperava a assadura da massa para prover do bom alimento. 

   As mãos, aquelas mãos, que tão bem sabiam fazer o pão, abriram as portas de nossa casa para a parentela estudar na melhor escola de nossa cidade. Aquelas mãos, que tão bem deram o pão ao corpo,  deram os livros para deleite da alma, sem nem mesmo conhecerem bem as letras. 

   Aquelas mãos, benditas mãos, com o suor de sua lida construíram um quarto acima do telhado de nossa casa e o encheram de livros e revistas. Era lá que meu pai descansava após a lida na madrugada enquanto eu atendia os freguês na padaria durante a manhã. Foram doze anos que ele tentou me ensinar a fabricar sonhos, porém, um sonho maior fez com que ele saísse do interior da Bahia e fosse tentar a sorte em Brasília com toda a família, mas isso é uma outra história.

   Aquele quarto era o meu esconderijo quando voltava da escola, e, ali, folheando as revistas, se não me engano, sétimo céu e contigo, deixei de ser menino e passei a ser rapaz e deixei de ser rapaz e passei a ser homem com as mesmas mãos que folheavam as revistas. Saí daquele pequeno mundo aos doze anos para conhecer a cidade grande e não aprendi a fabricar sonhos. 

   Bem, vou deixar as reminiscências de lado, pois Marina me chama. Quem é Marina? A personagem do meu livro, Insondáveis pecados. Ela pede ajuda para ser salva das garras do seu pai que a assedia. E ela esta no quarto, não naquele quarto, mas em outro. Ela está me ajudando a construir um sonho.

   Obrigado grande fabricador de sonhos, de ti herdei o valor à família. 


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domingo, 3 de novembro de 2013

Novos dias

Era um dia como os últimos dias, dia frio que perduraria até o dia se encontrar com a noite e permaneceria por toda a noite até o encontro do outro dia. Contudo, um dia nunca é igual a outro dia.
Extasiei-me quando o vi surgir diante de mim. Confesso, a sua ausência havia me esfriado, entristecido até. Logo que ele surgiu, fui tirando a roupa, aos poucos, primeiro a blusa, depois abri os botões da camisa e o deixei entrar em mim. Ajoelhei e agradeci, Obrigado amigo SOL.

Imagem de arquivo pessoal





MEU PRIMEIRO E-BOOK NA AMAZONKINDLE.COM


Agora leia o opinião da poetisa Valéria Cristina Costa Campos


Natan tinha os olhos na realidade que o amargava, mas a mente na estranheza impactante das lâminas que atravessam os dias sem que ninguém perceba. Acalentava o sonho de publicar um livro, mesmo sem o apoio da esposa. Transbordavam em seu corpo e mente sensações que flutuavam entre o deleite do imaginário e o desgosto da verdade. Lutava contra o desejo de executar cada linha escrita, mas a sensação estonteante de fazer parte da trama, comumente lhe sobrevinha rompendo o fio que o conectava ao que não era fictício. O pulso narrativo do Autor transcende as expectativas de Natan que, por sua vez, leva com ele os demais personagens e o leitor à desfechos inusitados. O conto retrata, na sagacidade evidente do Eder, a vilania advinda das mesquinharias que frutificam nas crises existenciais do ser humano. Uma curta narrativa de agradabilíssima leitura.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A vida me ensina IV

Reflitam sobre essa cena: Uma grávida entra no transporte público e os assentos para especiais estavam ocupados por uma idosa e uma adolescente com deficiência auditiva. A acompanhante da deficiente auditiva se dirige para a grávida e fala que a mesma é especial.
Uma pergunta tola: O assento melhorará a acuidade auditiva da especial adolescente?
A ignorância encontra solo fértil onde prevalece a falta de bom senso e germina com a falta de amor ao próximo.
Em tempo, uma pessoa amável que estava num assento que não é reservado para especiais cedeu o seu lugar. A acompanhante e a especial adolescente seguiram a viagem conversando pela língua dos sinais.

Lição:um gesto de amor vale por qualquer palavra, não importa a língua que se fala.

Por falar em amor, o nascedouro desse sentimento é na família, portanto, olha o que vem por aí:

"Toda bola de gude sonha em permanecer na mão de um menino, pois sabe que ao ser jogada no chão deixará rastros a serem perseguidos por ele. Assim, a história de ambos será escrita pelos rastros percorridos. Contudo, nem todas as certezas são compartilhadas por todos, menos ainda quando se tratam das certezas de uma bola de gude".

Aguarde o próximo conto de Água e Óleo misturados, A família encantada.

Imagem Getty Images

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O dinheiro é o ó




   Quando nos resta apenas as lágrimas para dar conta dos nossos problemas, demonstra o quanto somos incompetentes para resolvê-los; quando nos resta apenas as orações para o mesmo propósito, demonstra toda a nossa impotência. Tudo isso devido essa cultura estadunidense de que o capital resolve tudo havido. Não sou eu que vou resolver o meu problema, não é Deus que vai me socorrer, aliás, nessa sociedade capitalista que vivemos só cabe um deus, o dinheiro. In God we trust. Deus seja louvado; não é à toa que as duas moedas mais fortes da América têm essas duas frases em suas moedas.
   Quando o PSDB assumiu o governo federal, e o PT embarcou nessa onda, privatizando tudo por não ter competência para gerir as riquezas produzidas pelo povo, eu já sabia que a saúde e a educação seriam menos. Sei que a pergunta que vou fazer é desatualizada, porém, não custa perguntar. Por que privatizar a saúde, por que privatizar a educação? Por que na sociedade capitalista deixamos de ser indivíduo e passamos a ser produto, e, dependendo do valor monetário do produto, o mesmo terá mais saúde e mais educação. O que me frustra é que não importa o partido que governa, todos, sem exceção, compactua do mesmo pensamento. O ó, meu amigo, é o dinheiro, por isso, não adianta rezar, esforça-se para tê-lo. Os meios para tê-lo? Que importa os meios, na sociedade capitalista, ética é um produto que dá prejuízo. Então, vamos ao lucro e que Deus salve a América. Ouviram o grito?
   - Quem quer dinheiro?
Essa é a independência, senão, a morte. 

Imagem GOOGLE

sábado, 8 de junho de 2013

Linha do tempo



  
Quando os nossos relacionamentos se resumem aos amigos das redes sociais, ou a falta de contato com o mundo real se torna constante, é-nos tirado a oportunidade de conhecer o outro com seus defeitos e qualidades. A vida passa a ser uma ilusão criada e nós meros atores interpretando um papel que agrade a "A" ou a "B".
   Metade do ano se foi sem nos dar a certeza de que a metade quem vem o faça por inteiro. Não será a linha do tempo do Facebook que significará a nossa vida, mas o que fizermos do tempo na nossa própria linha da vida. A vida virtual substitui nossas ilusões de uma forma que nem sabemos o que é realmente ser, passamos a ser um perfil estrategicamente construído para agradar uma grande quantidade de pessoas. A rua clama que as pessoas saem dessa caixa ilusória que é o mundo virtual e se apresenta como realmente é, com defeitos e qualidades, para que possa na diversidade aprenderem a ser.  
   Perdi-me em folha de rosto de alguns livros, espreitando-os, tentando encontrar nas histórias alguma que desse sentido a minha. Contudo, só vi ilusão. Recusei, foi devido as ilusões que me perdi. Quero uma história anos cinquenta, onde homens e mulheres sejam dignos, e, essencialmente, os finais sejam felizes, açucarados até, com as manhãs regadas a carinho e café. O meu café desce amargo, entre um gole e outro, sinto que a vida está se tornando demasiadamente virtual. Como encarar esses novos dias, senão com um bom livro. Por isso sigo lendo, entre o virtual e o ilusório, prefiro o segundo, é mais seguro.

Imagem GOOGLE

domingo, 26 de maio de 2013

É disso que sinto falta

 
   Eu troquei os cantos dos sabiás, canários  e pintassilgos pelos cantos metálicos das máquinas industriais; troquei o céu enluarado e estrelado dos campos pelo acinzentado céu poluído das cidades; troquei as trilhas ensolaradas, verdes e perfumadas com sua geometria encantadora pela concretude quadrada das ruas iluminadas por luzes artificiais; troquei o espelho d'água do meu Rio Grande que refletia em suas águas a amabilidade de gente humilde pelo espelho metálico dos edifícios urbanos refletindo sobre o metal frio a frieza cotidiana da urbe.
   De todas as tocas, não são os cantos dos pássaros que me fazem falta; não é o céu azul enluarado e estrelado que me faz falta; nem tampouco são as trilhas ensolaradas que me fazem falta; nem mesmo o espelho d'água do meu Rio Grande que me faz falta. Eu sinto falta é de gente...
   Nos meus primeiros passos como gente, ensinaram-me que para ser gente, era necessário e essencial a gente ser amável. É disso que sinto falta.


Imagem de arquivo pessoal

domingo, 7 de abril de 2013

Encantamento


Apesar de criar um mundo imaginário e nele desarvorar da razão para me deixar guiar pelas emoções, foi difícil acreditar que era ele que estava diante de mim. Seus movimentos traziam uma mansuetude apaixonante, observá-lo era vivenciar a poesia em ação, como se as palavras não fossem necessárias para significá-la. Ao puxar a cadeira, segundo ele, da solidão e pedir para eu me sentar, serviu-se do café fumegante na chaleira e, delicadamente, empurrou a mesma na minha direção e me falou por sorrisos para eu me servir. Bebemos o café trocando olhares, o dele de ternura, o meu de encantamento. Ainda sentindo o gosto da bebida na boca, ele me disse, Lindo! Abestado ainda com a sua presença, perguntei o quê. O texto da minha borboletinha preferida. São textos assim que sublima a alma, pois sua essência é poética, e de poesia, você a de convir comigo, eu sei. Queria dar a minha opinião, porém, percebi que Quintana havia sido fisgado a tal ponto que o deslumbramento o fizera transcender. E então, ele continuou a falar, Esse texto, é bom dizer, para o bem da verdade, nos faz agradecer o conhecimento da língua, e digo mais, já teria valido apenas o conhecimento só por tê-lo lido. Sabe, disse isso dando um tapinha nos meus joelhos, ela não sabe, eu virei flor só para sentir a poesia intrínseca que ela carrega consigo, pois a poesia me faz falta, é ela que nos tira dessa concretude fria dos dias atuais. E quando ela pousa em minhas pétalas, sinto a vida pulsar novamente. Há nela o que me é essencial, simples, humano com recheio divino, a palavra. Ela não sabe, a tenho como filha. As lágrimas encheram o rosto do poeta e os seus olhos foram preenchidos de uma felicidade inaudita. Finalizando, ele pôs uma das mãos em meu ombro, confesso, senti orgulho de tê-lo tão próximo, e disse-me, Vem, vira flor e sinta a beleza.
   Quintana se foi, levado pelos ventos, florido de poesia. Nem deu tempo de dizer-lhe o quanto, em espírito, acompanho a sua borboleta, pois sei do seu valor e que sempre estarei, em preces, querendo o seu bem.
   - Tentarei, poeta, ser flor. - Gritei. Se me ouviu, não sei.

Para saber o texto que causou encantamento ao poeta clique AQUI

Imagem Google

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Freud explica



   O envelhecimento me permitiu uma reflexão mais precisa sobre a passagem do tempo. Hoje, percebo que a separação entre o ontem e o amanhã se mede pela distância dos meus passos. Lembro-me de, quando criança, ficar admirando o cuco do relógio da cozinha da minha casa sair nas horas cheias do seu receptáculo sem arredar o pé da posição que me encontrava, e mal percebia a passagem do tempo. Talvez, devido a isso, eu demorei a amadurecer. Bicho papão, saci, mula sem cabeça e Papai Noel, até os onze anos, eram personagens reais. Porém, a minha sexualidade aflorou muito cedo, pois, tendo um amigo adulto, ele me introduziu na vida sexual entre as criações de patas de meu pai. Espera, não condenam aquela pobre criança, Freud explica.
   Freud um dia disse que toda criança tem uma queda pela mãe, certifiquei-me disso quando do nascimento do meu filho, e vou dizer, é uma concorrência desleal. Como meu pai, na sua rigidez educacional, metia muito medo, eu preferi não tê-lo como concorrente, então vidrei nas partes visíveis das amigas da minha mãe. Bastou perceber um dos calcanhares de uma de suas amigas - naquela época era o máximo que se via, precisaria de muitas badaladas do cuco para a mulher deixar à mostra as batatas das pernas e muito mais ainda para mostrar as coxas. - para eu trocar a cozinha pelo banheiro. E foi aí que percebi que os prazeres dados com os passos não eram tão sublimes quantos os prazeres que as mãos poderiam oferecer. E assim, esse tarado infanto-juvenil chegou aos dias de hoje e escreve esses desvios sem demonstrar nenhum rubor.
   Ontem, estava eu e o meu filho de cinco anos- o meu Cravo, como gosto de chamá-lo - assistindo TV e a gostosona da vez apareceu em uma propaganda de marca famosa de chinelo e ele disse: "Mata o papai". Olhei assustado e ele abriu um sorriso tal qual da imagem do cabeçalho do blog. Mais tarde a globeleza deu o ar de sua graça e ele me perguntou se ela estava nua. Disse-o: "Quase". Então, ele esfregou as mãos, passou a língua entre os lábios e pôs uma cara de faminto que eu tive que desligar a TV receoso que ele desse uma cabeçada na tela de cristal liquido e esfolasse a mesma. O meu Cravo, antes de ser reconhecido pelo perfume de suas pétalas, se mostra reconhecível pelo seu talo. Por favor, não condenam essa criança, Freud explica.
   Mais um BBB está no ar com as suas mulheres que parecem mais aquelas bexigas moldáveis devido tantos mls de silicone. Os homens, então, cones invertidos fixados em dois palitos de fósforo. Aí, vocês perguntam, e a cabeça? Digo, a única que eles usam está mais embaixo, a de cima é um acessório inutilizável. É muito show para pouco reality. Talvez Freud explique isso.
   Bem, desligarei a TV, pegarei o meu binóculo e vou para a janela da lavanderia espiar a vizinha gostosona de meia-idade lavar as suas roupas. Ela ainda tem o hábito de lavar no tanque, e faz isso de minissaia. Tudo bem, podem me condenar, prefiro voyeurismo à francesa, in loco. Ah, em tempo, o meu filho estará assistindo o Cartoon Network. Além de tarado infantil é um fuxiqueiro de primeira linha. Freud explica?

Imagem: Goggle

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Cinema mudo

   Tentei juntar nossas histórias de onde elas acabaram, como se estivesse construindo um mosaico, porém, as peças não se encaixavam. Era como se pequenos cacos de nossos relacionamentos anteriores permanecessem presos com nossos respectivos parceiros.
   Você querendo destilhar mágoas sobre copos de cerveja em mesa de bares  enquanto saboreia linguiça assada coberta com maionese, ouvindo um grupo de pagode cantar alguma canção que se enquadra na história de sua vida. Eu querendo o escurinho do cinema para tentar decifrar a história que seus olhos tentam contar, comendo churros recheados com doce de leite. Você fazendo cara de nojo entre risos e aceitando o convite desde que fosse acompanhado de pipoca e refrigerante cola. Eu digo sim com os olhos, com as mãos e com os risos de alegria estampado no rosto devido a sua aceitação.
   No cinema, eu fazendo dos seus olhos tela e vendo um filme cujo sentimentos evolavam no ar uma sensualidade incontida. Enquanto você dançava com a pipoca sobre a língua tentando prolongar o sabor da mesma, eu saboreava o doce do churros, mas querendo saber do sabor que você experimentava, sentindo-o através dos seus lábios.
   Disputamos guardanapos que não tiraria o sal da sua boca e nem o doce da minha. Então, imprevisível, como só as mulheres dona de seus sentimentos são, você ousou e deitou os seus lábios sobre os meus. Não rolou a química que poderia temperar o sabor das nossas bocas, talvez porque faltasse a substância necessária para a alquimia, aquela que permaneceu entre os cacos de nossos relacionamentos anteriores. Como num cinema mudo, cujo gestos indicam a intenção do que se quer dizer, você prometeu amizade.
   Não sei qual o sabor da mistura do sal com o doce, só sei do gosto amargo que ficou por não tê-la.

Imagem clique AQUI 


Próximo conto: "Inimigo meu", onde menos você espera, o inimigo aparece. Um thriller policial onde o inimigo pode ser qualquer um.

A profecia enfim aconteceu, não deixa de ler o conto: "Apokálypsis - 2012", após o fim do mundo os deuses e o senhor das trevas travam uma batalha pela Nova Geração. Que destino estava reservado ao mundo que surgirá dos escombros do mundo antigo, as trevas ou uma nova era de iluminação.


domingo, 30 de setembro de 2012

Em tons de cinzas


Esse texto teve como fonte inspiradora a troca de comentários no blog A Parte e o Todo de mim da minha amiga Cris Campos. Recomendo a leitura.

 

 

   O vazio é um espaço infindo quando se instala dentro de nós, cuja forma é um túnel em tons de cinza sem uma perspectiva definida. Deixo o som no último volume para não ter o trabalho de ter que mexer com os dedos a pedra de gelo no meu uísque. O vazio tem esse poder de nos tirar qualquer reação, de tornar cada ato pesaroso. Queria acreditar que nem tudo que se escreve é verdadeiro, assim como não deveria ser os sentimentos de quem é abandonada, posto que a dor seja sentimento que nos aprisiona.

   Muito mais do que mexer a pedra de gelo, a música mexe é comigo. Ainda que o uísque possa me provocar embriaguez, é a música que me embriaga de recordações. Tentando demonstrar firmeza, eu me apoio nas recordações para não cair, mesmo impossibilitada de me manter em pé devido ao estado que estou. Seguro as lágrimas para não cair junto com elas e ser levada pela sua água.

   Houve uma época que pensei que as aberturas de pernas o prenderiam. Lembro bem que imitava os cruzamentos de pernas da Sharon Stones, ainda mais os seus olhos penetrantes a lhe dizerem: "me entenda antes de querer saber o significado da sombra entre as minhas coxas". Vulgar? Bullshit! A sós, ou no escuro acompanhada, entre quatro paredes ninguém se sabe, pois tanto a falta de luz como a de companhia nos possibilita toda forma de ser. Contudo, o máximo que consegui foi a pureza erótica da Marilyn Monroe, e não lhe convenci, pois ignorou o meu happy birthday to you.

   Fui tola ao acreditar que se prende um homem com aberturas e fechadas de coxa. Tampouco o prende aliançando o seu dedo anelar. Coração de homem é terra infértil, um péssimo investimento, pois torná-lo fértil é correr o risco de uma sem-terra-novinha-gostosona invadi-lo e tomá-lo para si.

   Fiz do meu lençol chão para você plantar a sua raiz, nua como uma lua em noite de verão, ansiei para ver estrelas pipocando no céu da minha boca. Quantas vezes eu vi constelações em volta da orbita dos meus olhos quando você pousou suavemente sobre mim e sussurrou Pitty em meus ouvidos:

¨ Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora
Que me acha foda¨

    Mas foi pouca adoração para muita foda, ou então a adoração foi ao físico, que dá no mesmo, é tudo uma questão de semântica.   

   Desligo o som, o meu sofrimento não merece uma trilha sonora. Ligo a televisão, mesmo sabendo que ela é a pior companheira para a solidão.

   Eu sou foda - não no sentido figurado, mas no literal.  - Melhor dizendo, eu fui fodida, por você. E qualquer aplicação que se faça do verbo é plausível, tanto para significar minha situação agora como antes.

   Pensei que teríamos um final feliz, piegas até, com festa, bolo e brigadeiro, anel sendo colocado no dedo esquerdo anelar tendo um padre a testemunhar as nossas juras de amor até que a morte nos separa sem a necessidade de um matar o outro após décadas de convivências.

   O bolo de aniversário de um ano de namoro bolourou em cima da mesa. Que o tempo se encarrega de esfacelá-lo, quem sabe ele sirva para contar uma história que não era para ser vivida, mas inventada.  
 

A primeira leitura que fiz de um texto da Cris, eu fiquei estupefato com a sua capacidade de discernir fazendo bom uso da nossa língua. Na segunda leitura, eu me tornei admirador para depois virar fã de carteirinha. Os seus poemas são como flechas certeiras atingindo nossa mente e nos fazendo refletir. Para você que gosta de textos inteligentes e com conteúdo, eu recomendo acompanhar o seu blog A Parte e o Todo de Mim. Boa leitura e um bom domingo a todos.
Primeira Imagem Getty Images

domingo, 2 de setembro de 2012

Silêncio e luz



      Esse texto, em nenhum momento é uma crítica a igreja, ou ao padre, atenta simplesmente ao ser humano, independente de sua religião. O texto surgiu depois de uma leitura da Paula Barros ao meu status no Facebook, quando um padre negou um cumprimento a uma senhora e depois com desdém, gesticulou a mão quando ela lhe pediu uma benção. Obrigado minha querida e estimada amiga, Paula Barros.


   Oh! Meu Deus, fico triste com a imensidão do silêncio, não se tem respostas. Quando não se tem um espelho, em que mirar? Meu Pai, não tem observação, nem sequer um curtir se tem. É, Deus, hoje em dia, nem precisamos falar para ouvirmos a sua voz, é tudo enigmático, assim como o Senhor é, precisamos decifrá-Lo, é preciso tirar conclusões. "Bom dia, padre". Santo Cristo, nem o padre responde mais a um cumprimento. "Padre, sua benção". Pai do céu, ele nem se deu ao trabalho de olhar para trás, simplesmente gesticulou a mão. Será que fez isso por obrigação, para não manchar a sua imagem perante os outros? Por mais revestido de crenças que estejamos, Pai, nos perdemos quando deixamos vicejar o que nos é humano. Sabe, dizem por aqui, que o Senhor fala com as pessoas, mas que elas não escutam, não entendem. Como escutá-Lo se nossos erros nos ensurdecem, como entendê-Lo, Senhor, se ao não reconhecermos esses mesmo erros nos cegamos. Outros dizem que o Senhor fala por sinais. Como, meu Pai, entender esses sinais se não conseguimos entender a nós mesmo. Mas e o padre, Senhor, por que ele não falou comigo? Por que ele não disse nada? Não entendeu os sinais que lhe envie? Eu fico triste, às vezes indignada, e até revoltada. Mas eu trato o padre igual trato o Senhor. Não deveria, Pai? Responda-me, por favor. Eu sei, Senhor, ele não é Deus, apenas mais um ser humano. Sim, eu sei, o Senhor não gostou do que eu disse, não foi? Fala-me, Pai. Será que os meus erros foram tantos que me ensurdeceu? Reconheço que eles são muitos, perdoa-me. Dentre esses erros estar o de comparar um padre com o Senhor, é demais, não é? Eu sei que sou exagerada. Porém, acredito que o Senhor está dentro de nós, não está? Por que a mudez? Dizem que o senhor se comunica no silêncio, mas não te ouço. Eu não compreendendo esse Teu silêncio, definitivamente. Queria te ver, Pai, saber se seus olhos ficam marejados devidos aos nossos erros. Ficam, Senhor? Responda-me, pois o que mais faço é chorar pelos meus. O teu silêncio não me é compreensível, porque o silêncio se assemelha ao desprezo. Mas às vezes eu penso assim: se o padre é humano, portanto, fadado ao erro como eu, então é melhor que ele fique longe de mim, pois, ele é tão surdo como eu. Que ele continue a andar apressado, sem olhar para trás, sem ouvir o meu chamado, gesticulando a mão como sinal de benção. O seu desprezo demonstra a sua surdez, a falta da resposta ao cumprimento a sua escuridão. Deixa-o ir, seguir o seu caminho, e eu de cá fico a observar.

     




   O outro nos serve de espelho para não sermos tentados a cometer o mesmo erro. Com o seu desprezo, o padre silenciou, Pai.  Eu tenho, Senhor, de tirar lições do silêncio que é silêncio para poder escutá-Lo. Por que as luzes se apagaram, Pai? Eu e a minha mania de querer respostas para tudo. Tudo bem, eu não preciso vê-Lo para escutá-Lo. Sabe, Pai, eu vim parar nesse banco da estação por que não conseguia senti- Lo nas igrejas, ali a balburdia era em demasia, a música muito alta, o nome dele, do outro, sabe, do seu adversário era dito repetidas vezes que provavelmente o Senhor ali não seria bem vindo. Pois bem, vim parar aqui tentando Lhe encontrar nas pessoas. Nós que somos a sua igreja, nós somos pedras que desgastará com o tempo, cujo pó espalhará o que Seu filho aqui nos deixou: amai-vos uns aos outros. A energia voltou, Pai, que bom, agora posso enxergar as pessoas. Não voltou? Senhor, estou Lhe ouvindo. Sim, a Luz é vinda do senhor. Às pressas, as pessoas vão à cega, não Lhe enxerga, não percebe que tudo que há é pela força de sua Luz, não Lhe ouve devido andar as escuras, para lhe escutar é necessário enxergar a tua Luz, recebê-La para então, no silêncio escutá-Lo. Sim, Pai, eu compreendo. Quanto ao Padre, sim, entendo, ele se vestiu com suas crenças e na sua arrogância, acha que toda ovelha fora da sua igreja é desgarrada. Quanto às pessoas, sim, Pai, eu sinto a sua Luz e entendo tudo, elas estão vestidas de escuridão, a ignorância as afasta da Luz. Sim, Pai, é compreensível, sofremos porque nos afastamos de Ti, afastados cometemos erros, os erros nos ensurdecem e nos cega. Sim, sinto-me iluminada. Porém, Senhor, o homem também é um animal e a sua insensatez o impele a ser fera, entre feras é o instinto que o move, não sei se estou preparada para isso. Sim, senhor, entendo, o padre também não está, o meu vizinho também não, ninguém está. Eu sei, Pai, por mais espinhoso que seja o caminho, há a necessidade da caminhada para se alcançar a Luz através do aprendizado. Sim, Senhor, nenhum ser despreza o perfume das rosas devido aos espinhos. Obrigado, Pai, agora eu enxergo, serei como a vela que necessita do desgaste da parafina para permanecer iluminada. Agora entendo, Pai, o melhor instrumento de transformação é o amor. Eu sei, parece utópico achar que amando vamos transformar o outro, mas só de sentir esse amor em mim, sinto-me transformada, melhor e feliz. Sim, Pai, eu vou, iluminada.   
     - Padre, me espere. Padre eu preciso de sua benção...


Autores: Paula Barros e Eder Ribeiro

Imagem fotopoética de Paula Barros