domingo, 26 de maio de 2013
É disso que sinto falta
Eu troquei os cantos dos sabiás, canários e pintassilgos pelos cantos metálicos das máquinas industriais; troquei o céu enluarado e estrelado dos campos pelo acinzentado céu poluído das cidades; troquei as trilhas ensolaradas, verdes e perfumadas com sua geometria encantadora pela concretude quadrada das ruas iluminadas por luzes artificiais; troquei o espelho d'água do meu Rio Grande que refletia em suas águas a amabilidade de gente humilde pelo espelho metálico dos edifícios urbanos refletindo sobre o metal frio a frieza cotidiana da urbe.
De todas as tocas, não são os cantos dos pássaros que me fazem falta; não é o céu azul enluarado e estrelado que me faz falta; nem tampouco são as trilhas ensolaradas que me fazem falta; nem mesmo o espelho d'água do meu Rio Grande que me faz falta. Eu sinto falta é de gente...
Nos meus primeiros passos como gente, ensinaram-me que para ser gente, era necessário e essencial a gente ser amável. É disso que sinto falta.
Imagem de arquivo pessoal
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Você se foi
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Folhas
Prometi a mim mesmo nunca escrever sobre este fato, mas eu não tenho mais idade para guardar segredos, as folhas da vida estarão sempre sobrepostas para que alguém um dia as leia. Minha mãe guardou um segredo por trinta anos, e só foi descoberto devido à curiosidade do meu irmão. Remexendo o seu baú, ele descobriu uma certidão de casamento, e não era o nome do nosso pai que estava lá. Inquirida, ela rasgou a certidão e nos disse que a partir daquela data aquele assunto estava morto e enterrado. Passados trinta anos nunca mais o assunto veio à tona.
Desde que tomei o entendimento sobre a vida, sempre me lembro sentada no colo do tio Arthur*, e eu não era a única sobrinha que tinham este privilégio. A minha primeira jujuba eu mastiguei no seu colo, a minha primeira boneca foi dada por ele, lembro como se fosse hoje, ele apontando para a rua e me mostrando os primeiros pingos de chuva e o cheiro da terra molhada adentrando o meu nariz. Cresci vendo e sentindo a vida em seu colo.
Estávamos em 1973, outono, 25 de março, um dia normal como era todos os dias em uma cidade interiorana, eu estava com doze anos. Repentinamente, a cidade em peso se dirigiu para a casa do tio Arthur. Ele fora encontrado morto com as partes íntimas extirpadas e a cabeça degolada.
Um dia antes eu havia lhe visitado como sempre faço para lhe pedir a benção. Como não mais sentava em seu colo por ter crescido, eu estranhei quando ele pediu para que eu sentasse, recusei no mesmo instante, no entanto, ele partiu para cima de mim tentando rasgar o meu vestido, então eu lhe disse que era a sua sobrinha e todo o entendimento da vida foi ele que havia me passado e que o considerava como meu segundo pai. Ele caiu em prantos e me pedindo perdão ordenou que eu saísse. Fiquei sentada do outro lado da rua embaixo do pé de manga tentando entender o que se passara, quando eu vi o tio Pedro* entrar na casa do tio Arthur armado de um facão e acompanhado pelo seu cachorro. Não ouvi um grito de socorro, como se o tio Arthur aceitasse a sua morte como ela estava sendo executada. Quando o tio Arthur foi enterrado jogaram uma pá de cal sobre o ocorrido. Éramos uma família com muitos segredos.
Dez anos se passaram e como sempre fazemos nas reuniões familiares, as primas se fecharam em um quarto para dividir segredos. Paola*, em prantos, filha do tio Pedro, contou-nos o que se passara com ela e tio Arthur. Foi então que percebemos que as folhas de nossas vidas tinham a mesma história, com uma única exceção, a de Paola teve uma final diferente. Ela era três anos mais nova do que eu. Silentes, choramos sabendo que as lágrimas não apagariam o que estava escrito.
As feridas são muitas e nunca cicratizarão, porém, o que mais me doeu foi ter assistido a prima Paola murchar como uma flor no outono sem nunca ter tido a oportunidade da primavera.
Escrevo esta crônica tendo o sol na minha janela e a minha rosa amarela perdendo as suas pétalas, estamos em outono e levo sempre comigo a esperança que o sol possa nos iluminar.
*Nomes mudados.
+ em memória de Paola.
domingo, 17 de maio de 2009
Estou de partida
Tenho saudades de minha infância, saudades de jogar bola de gude na rua embaixo da amendoeira; dos brinquedos feitos com o tronco do buriti; de brincar de pique e esconde a noite; de tomar banho na chuva; de esquentar no inverno agachado em cima do fogão de lenha esperando minha avó fazer cuscuz de arroz; do cheiro da terra molhada pela chuva, aroma de felicidade; do entoar dos pássaros todas as manhãs; do banho no rio à tarde; da inocência perdida tardiamente. Saudades dessa infância rica e cheia de cores e aromas que aguçavam todos os sentidos. Saudades desse tempo tirado que só retorna na memória.
Vou embora em busca deste tempo esquecido em uma cidade do interior do meu país. Vou mostrar para minha filha o cheiro da terra; ensiná-la como subir num pé de manga para alcançar a fruta madura; como cavalgar um bode, e se cair como se levantar; como fazer uma boneca de pano; ensiná-la a diferenciar pelo aroma, se é manhã, tarde ou noite.
Estou partindo para uma cidade qualquer do interior do meu país antes que a inocência de minha filha parta de uma vez tirando-lhe a infância.
sábado, 10 de janeiro de 2009
separação
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a separação, mesmo temporária
tira-nos qualquer oportunidade de esperança
de estando a sós, sozinho, só a nós
nós mesmos não nos bastamos
por ser a dois, amando, dois se tornam um
certo que se separarmos cada um será nulo
se as saudades dos ausentes nos tiram o encanto
o que conta depois é a felicidade do reencontro
são as lágrimas que beijam o meu rosto
pelo filho ausente
são as lágrimas que me dá o amargo gosto
pela filha não presente
são as lágrimas que na cama cobrem o meu corpo
pela esposa distante
se as saudades dos ausentes nos levam aos prantos
o que conta depois são as lágrimas do reencontro
agora as horas demoram
mas eu tenho olhos de enxergar distante
a vida vale pelo seu dia a dia
a vida vale pela espera da poesia
a vida vale pelo que temos de alegria
em fazermos a quem amamos uma pessoa feliz
se as saudades dos ausentes nos levam a solidão constante
o que conta depois é a presença de agora em diante
quem me faz falta a faz à poesia também
todo poeta só o é quando uma musa tem
e eu não o sendo sentido em ser não tenho
mas eu tenho olhos de enxergar adiante
e olha só quem vem vindo
o muso e as minhas musas sorrindo
o que conta são as lágrimas do reencontro
não são todas as lágrimas águas de prantos
a separação, mesmo temporária
tira-me qualquer oportunidade de esperança
de estando a sós, sozinho, só a mim
eu mesmo não me basto
por ser a dois, amando, dois se torna um
certo que se separarmos sou eu que serei nulo
Leme - SP
sábado, 2 de agosto de 2008
CoNtRaStE

O QUE ME DEU A BAHIA, RIMA E POESIA
o que me dá são paulo, cisma e alergia
O QUE ME DEU A BAHIA, PROSA SEM TÍTULO
o que me dá são paulo, necrose no coração arrítmico
O QUE ME DEU A BAHIA, ALEGRIA E RÍTMO
o que me dá são paulo, bursite e renite
O QUE ME DEU A BAHIA, A AFRICA COM SUA BELEZA E GRAÇA
o que me dá são paulo, a feiúra da fábrica com sua fumaça
O QUE ME DEU A BAHIA, O VELHO CHICO DE SABOROSOS PEIXES
O que me dá são paulo, o rio tietê com lixo adornando seu leito
O QUE ME DEU A BAHIA, RÉGUA, COMPASSO E GEOMETRIA
o que me dá são paulo, a matemática lógica e fria
O QUE ME DEU A BAHIA, CHÃO DE TERRA E CHUVA DA BOA
O que me dá são paulo, o asfalto frio coberto pela sua garoa
O QUE ME DEU A BAHIA, ÁGUA DE COCO, REDE E PREGUIÇA
o que me dá são paulo, o trabalho árduo do dia-a-dia
O QUE ME DEU A BAHIA, SAMBA, CERVEJA E AMIGOS PRESENTES
o que me dá são paulo, suor, lágrimas e de sua gente a indiferença
O QUE ME DEU A BAHIA, SEMPRE SERÁ ALIMENTO PARA O ESPÍRITO
o que me dá são paulo, sempre será alimento para o físico



