Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
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domingo, 26 de maio de 2013

É disso que sinto falta

 
   Eu troquei os cantos dos sabiás, canários  e pintassilgos pelos cantos metálicos das máquinas industriais; troquei o céu enluarado e estrelado dos campos pelo acinzentado céu poluído das cidades; troquei as trilhas ensolaradas, verdes e perfumadas com sua geometria encantadora pela concretude quadrada das ruas iluminadas por luzes artificiais; troquei o espelho d'água do meu Rio Grande que refletia em suas águas a amabilidade de gente humilde pelo espelho metálico dos edifícios urbanos refletindo sobre o metal frio a frieza cotidiana da urbe.
   De todas as tocas, não são os cantos dos pássaros que me fazem falta; não é o céu azul enluarado e estrelado que me faz falta; nem tampouco são as trilhas ensolaradas que me fazem falta; nem mesmo o espelho d'água do meu Rio Grande que me faz falta. Eu sinto falta é de gente...
   Nos meus primeiros passos como gente, ensinaram-me que para ser gente, era necessário e essencial a gente ser amável. É disso que sinto falta.


Imagem de arquivo pessoal

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Você se foi


   “Meu encontro com a escrita se deu quando eu pus as histórias do meu avô no papel, de lá para cá o tempo passou. Estou no blog há três anos, e neste tempo o que me deu mais prazer foi conhecer novos escritores, e mais prazer ainda escrever histórias a quatro mãos. Dentre estes escritores está a Paula Barros, juntos escrevemos o texto abaixo. Obrigado Paula pelas suas duas belas mãos que por entre os dedos destilam poesias”.

   Meu tosco coração não bate, gesticula-se em movimentos lentos, pulsando uma dor infindável. Você foi embora, porém permanece em toda parte, nas cores da parede do quarto, no desenho da capa do sofá, nas dobraduras dos lençóis da cama. Você se foi e deixou os seus livros românticos com finais felizes, histórias que não nos pertenceram. A tua poesia escorre pelo chuveiro toda vez que eu vou tomar banho. Por que você não foi por inteira.
   Você se foi, eu não preciso do inverno para me sentir frio, a sua falta dura mais que uma estação. Estaciono na porta de entrada, gélido, com o olhar petrificado na esperança que o vento lhe traga, olho para o céu e não é estrela que vejo, a desesperança brilha no negro céu, nenhuma brisa de alento sinto. O peitoral da janela é encosto para o meu desespero e eu não consigo derramar nenhuma lágrima, acho que desaprendi a sentir assim que você se foi.
   Você não volta, essa demora me deixa atordoado. Acho algo que lhe pertencia nas gavetas dos móveis, cópias dos seus escritos estão por toda a casa, nos livros que pego para reler. Sua presença está em mim. Em todas as lembranças, nas noites inquietas, no amanhecer ao som dos pássaros, no que há de mais belo da natureza.
   Ontem, na porta de entrada encontrei uma chave caída no chão. De quem será? Qual a porta que abre? Que importa isso agora. Que diferença faz. Você soube abrir muitas portas, a principal, a do meu coração. Você se foi, agora, mais nenhuma chave abre a porta do meu coração. Nem sei se meu coração tem porta, ou é algo mais fechado, compacto, uma caixa lacrada com formato de coração presa em um cubo de gelo.  Uma vez senti meu coração saltitando dentro desta caixa por causa da melodia de algumas palavras bonitas. Suas? Não sei, precisaria muito mais do que palavras para o degelo.  Mas palavras não têm dono, pertence ao mundo, e meu coração se fechou de novo. Outra vez senti meu coração suspirando, eram uns olhos que me olharam de uma forma especial. Uns olhos que penetravam os meus. Uns  olhos que pareciam espelhos de cristal e me vi refletido. Mas os olhos ficaram e eu tive que partir. Meu coração continua fechado, deve ter uma trave que o trancou por dentro. Para abrir não sei como se processa. Nem sei se precisará de um picador de gelo. Coração só se abre por descuido. Mas se fecha também por descuido. E a sua partida foi um dos maiores descuidos que meu coração sofreu em todos esses anos. Nada, nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum carinho é suficiente para derreter este inverno em mim.
   Olho para o mar tentando perder meus olhos em alguma imagem para ver se me acho, vejo as ondas se arrebentarem nas pedras deixando de existir e mesmo assim continuando mar. O que eu preciso não é da sua volta, mas de um recife para me arrebentar, deixarei de ser para ser mar.

Autores: Paula Barros e Eder Ribeiro.

Imagem: clique no nome: DÉIA


sexta-feira, 29 de abril de 2011

Folhas

Prometi a mim mesmo nunca escrever sobre este fato, mas eu não tenho mais idade para guardar segredos, as folhas da vida estarão sempre sobrepostas para que alguém um dia as leia. Minha mãe guardou um segredo por trinta anos, e só foi descoberto devido à curiosidade do meu irmão. Remexendo o seu baú, ele descobriu uma certidão de casamento, e não era o nome do nosso pai que estava lá. Inquirida, ela rasgou a certidão e nos disse que a partir daquela data aquele assunto estava morto e enterrado. Passados trinta anos nunca mais o assunto veio à tona.

Desde que tomei o entendimento sobre a vida, sempre me lembro sentada no colo do tio Arthur*, e eu não era a única sobrinha que tinham este privilégio. A minha primeira jujuba eu mastiguei no seu colo, a minha primeira boneca foi dada por ele, lembro como se fosse hoje, ele apontando para a rua e me mostrando os primeiros pingos de chuva e o cheiro da terra molhada adentrando o meu nariz. Cresci vendo e sentindo a vida em seu colo.

Estávamos em 1973, outono, 25 de março, um dia normal como era todos os dias em uma cidade interiorana, eu estava com doze anos. Repentinamente, a cidade em peso se dirigiu para a casa do tio Arthur. Ele fora encontrado morto com as partes íntimas extirpadas e a cabeça degolada.

Um dia antes eu havia lhe visitado como sempre faço para lhe pedir a benção. Como não mais sentava em seu colo por ter crescido, eu estranhei quando ele pediu para que eu sentasse, recusei no mesmo instante, no entanto, ele partiu para cima de mim tentando rasgar o meu vestido, então eu lhe disse que era a sua sobrinha e todo o entendimento da vida foi ele que havia me passado e que o considerava como meu segundo pai. Ele caiu em prantos e me pedindo perdão ordenou que eu saísse. Fiquei sentada do outro lado da rua embaixo do pé de manga tentando entender o que se passara, quando eu vi o tio Pedro* entrar na casa do tio Arthur armado de um facão e acompanhado pelo seu cachorro. Não ouvi um grito de socorro, como se o tio Arthur aceitasse a sua morte como ela estava sendo executada. Quando o tio Arthur foi enterrado jogaram uma pá de cal sobre o ocorrido. Éramos uma família com muitos segredos.

Dez anos se passaram e como sempre fazemos nas reuniões familiares, as primas se fecharam em um quarto para dividir segredos. Paola*, em prantos, filha do tio Pedro, contou-nos o que se passara com ela e tio Arthur. Foi então que percebemos que as folhas de nossas vidas tinham a mesma história, com uma única exceção, a de Paola teve uma final diferente. Ela era três anos mais nova do que eu. Silentes, choramos sabendo que as lágrimas não apagariam o que estava escrito.

As feridas são muitas e nunca cicratizarão, porém, o que mais me doeu foi ter assistido a prima Paola murchar como uma flor no outono sem nunca ter tido a oportunidade da primavera.

Escrevo esta crônica tendo o sol na minha janela e a minha rosa amarela perdendo as suas pétalas, estamos em outono e levo sempre comigo a esperança que o sol possa nos iluminar.

*Nomes mudados.

+ em memória de Paola.


Imagem: clique aqui

domingo, 17 de maio de 2009

Estou de partida


Tenho saudades de minha infância, saudades de jogar bola de gude na rua embaixo da amendoeira; dos brinquedos feitos com o tronco do buriti; de brincar de pique e esconde a noite; de tomar banho na chuva; de esquentar no inverno agachado em cima do fogão de lenha esperando minha avó fazer cuscuz de arroz; do cheiro da terra molhada pela chuva, aroma de felicidade; do entoar dos pássaros todas as manhãs; do banho no rio à tarde; da inocência perdida tardiamente. Saudades dessa infância rica e cheia de cores e aromas que aguçavam todos os sentidos. Saudades desse tempo tirado que só retorna na memória.
Vou embora em busca deste tempo esquecido em uma cidade do interior do meu país. Vou mostrar para minha filha o cheiro da terra; ensiná-la como subir num pé de manga para alcançar a fruta madura; como cavalgar um bode, e se cair como se levantar; como fazer uma boneca de pano; ensiná-la a diferenciar pelo aroma, se é manhã, tarde ou noite.
Estou partindo para uma cidade qualquer do interior do meu país antes que a inocência de minha filha parta de uma vez tirando-lhe a infância.

sábado, 10 de janeiro de 2009

separação


                                          imagem clique aqui



a separação, mesmo temporária

tira-nos qualquer oportunidade de esperança
de estando a sós, sozinho, só a nós
nós mesmos não nos bastamos
por ser a dois, amando, dois se tornam um
certo que se separarmos cada um será nulo

se as saudades dos ausentes nos tiram o encanto
o que conta depois é a felicidade do reencontro

são as lágrimas que beijam o meu rosto
pelo filho ausente
são as lágrimas que me dá o amargo gosto
pela filha não presente
são as lágrimas que na cama cobrem o meu corpo
pela esposa distante

se as saudades dos ausentes nos levam aos prantos
o que conta depois são as lágrimas do reencontro

agora as horas demoram
mas eu tenho olhos de enxergar distante
a vida vale pelo seu dia a dia
a vida vale pela espera da poesia
a vida vale pelo que temos de alegria
em fazermos a quem amamos uma pessoa feliz

se as saudades dos ausentes nos levam a solidão constante
o que conta depois é a presença de agora em diante

quem me faz falta a faz à poesia também
todo poeta só o é quando uma musa tem
e eu não o sendo sentido em ser não tenho
mas eu tenho olhos de enxergar adiante
e olha só quem vem vindo
o muso e as minhas musas sorrindo

o que conta são as lágrimas do reencontro
não são todas as lágrimas águas de prantos

a separação, mesmo temporária
tira-me qualquer oportunidade de esperança
de estando a sós, sozinho, só a mim
eu mesmo não me basto
por ser a dois, amando, dois se torna um
certo que se separarmos sou eu que serei nulo


Leme - SP

sábado, 2 de agosto de 2008

CoNtRaStE


O QUE ME DEU A BAHIA, RIMA E POESIA
o que me dá são paulo, cisma e alergia
O QUE ME DEU A BAHIA, PROSA SEM TÍTULO
o que me dá são paulo, necrose no coração arrítmico
O QUE ME DEU A BAHIA, ALEGRIA E RÍTMO
o que me dá são paulo, bursite e renite
O QUE ME DEU A BAHIA, A AFRICA COM SUA BELEZA E GRAÇA
o que me dá são paulo, a feiúra da fábrica com sua fumaça
O QUE ME DEU A BAHIA, O VELHO CHICO DE SABOROSOS PEIXES
O que me dá são paulo, o rio tietê com lixo adornando seu leito
O QUE ME DEU A BAHIA, RÉGUA, COMPASSO E GEOMETRIA
o que me dá são paulo, a matemática lógica e fria
O QUE ME DEU A BAHIA, CHÃO DE TERRA E CHUVA DA BOA
O que me dá são paulo, o asfalto frio coberto pela sua garoa
O QUE ME DEU A BAHIA, ÁGUA DE COCO, REDE E PREGUIÇA
o que me dá são paulo, o trabalho árduo do dia-a-dia
O QUE ME DEU A BAHIA, SAMBA, CERVEJA E AMIGOS PRESENTES
o que me dá são paulo, suor, lágrimas e de sua gente a indiferença
O QUE ME DEU A BAHIA, SEMPRE SERÁ ALIMENTO PARA O ESPÍRITO
o que me dá são paulo, sempre será alimento para o físico

sábado, 26 de abril de 2008

Lá onde o mar se acaba

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Quando Cláudio, enfim, sentou na areia da praia, estava exausto. O pranto havia secado, mas por dentro as lágrimas eram intermináveis. Em qualquer direção que olhasse suas pegadas, pelo vento, foram apagadas. Olhar pra trás, para quê? Se todo o seu passado carregava na cor cinza a matiz da tristeza advinda das perdas, e seu futuro era senão um mar de chumbo que o levaria de encontro àqueles que ele perdeu. Sentado no banco do bar, um copo com pinga em suas mãos, ele via o reflexo distorcido da sua imagem disforme, e não diferia da imagem que os outros viam em seu rosto. À vida ele não passava de um estorvo. Era o que ele era. Bebeu de uma só vez o copo com pinga, tentou puxar dos olhos um filete de lágrimas, estava seco, todos os seus sentimentos eram áridos. Não tinha pena de si, não culpava Deus por seu infortúnio. Acreditava que tudo que lhe acontecia, para o bem ou para o mal, era fruto dos seus acertos ou erros, e em menor parte daqueles que ele convivia. Estava só.
Lá longe onde o mar se acaba estavam todos que ele perdeu. Todos de braços estendidos como quem o chamando, menos a esposa e a filha recém-nascida. Em pé com o olhar firme, pela primeira vez ele via o horizonte, era denso e cheirava a flores ciprestes. Os seus olhos fixam onde o mar de chumbo se acaba, não se via lá. Só, ele estava sozinho. Deixa seu corpo desabar na areia, não sentiu que a mesma estava quente, e se desfez em lágrimas. Sempre em estado de luto, mas nunca choroso, ele, ao ver os seus do outro lado da vida, chorou.
Chorou pelo infortúnio de seu avô tentando salvar a cadela de estimação que ele havia lhe dado de presente de natal aos quatros anos. O temporal que desabou, levou seu avô e sua cadela. Muitos culparam Deus, mas ele sabia que cabia ao homem a dor que ele próprio planta. Estavam lá onde o mar de chumbo se acaba, o latido da cadela e o sorriso do seu avô.
Cabelos desalinhados, cheirando a perfume vencido misturado com a gordura de suas frituras, a barraqueira encheu o copo com pinga, não por bondade, mas pelo fato de Cláudio ter pagado o suficiente para tomar duas garrafas com pinga, e ele estava na metade de uma.
O horizonte desfigurava em tons alaranjados, era o quadro perfeito para uma tarde de esplendor, mas o vazio que havia em Cláudio, por mais colorido que estivesse à tarde, para ele só tinha tons de cinzas. E foi neste cenário que ele viu a imagem de sua irmãzinha que fora cedo demais. Sofrendo de inanição tanto ela como ele e seus pais, e ela, por ser mais fraca, aos doze anos se esvaiu. Quantos naquele momento não culparam Deus por não mandar chuvas e florescer o sertão. Mas agora ele sabia que somente o homem come o fruto da dor que outrora plantou.
O copo com pinga estava pela metade, em um só gole ele o sorveu. Novamente desabou no chão. Suas vistas escureceram. Uma fresta de luz entrou pelos seus olhos, ele vislumbrou seus pais, lá no horizonte onde o mar de chumbo se acaba. O tanto de lágrimas que ele não chorou quando eles estavam vivos, chorou agora. O sertão que os matara ainda mata quem nele vive, e hoje Cláudio chora também por isso. Muitos ainda culpam Deus, mas o machado que desmata o pouco de verde que há, abre a clareira onde a enxada cavará a cova no chão seco. E Cláudio chorou por este ter sido a sina dos seus pais.
Cambaleando pela areia, o oco dentro dele já havia consumido sua alma. Ele senta no banco do bar, a barraqueira já esperava por isso. Ela sabia que todos, após uma bebedeira, vêm deitar seus problemas em seus ouvidos, e com aquele sujeito estranho não seria diferente. Cláudio contou-lhe o que o torturava.
Com a língua lesa, amortecida pelo álcool, ele contou a barraqueira que após perder os seus no sertão piauiense ele veio ter em São Paulo com a sorte, mas só encontrou miséria. Quantas vezes passando fome ele revolveu sacos de lixo em busca de comida, e o que achava, mesmo estragado, comia. À noite com o estômago bombardeado por dores, ele entornava meio litro com pinga para desmaiar antes que a dor o consumisse. Catou lata, vidro, qualquer material reciclável para sustentar a mulher e a filha recém-nascida, quando ontem voltando para o lar em mais um dia fatigante, depois de um temporal que abateu sobre São Paulo, sua casa havia descido o morro e junto com ela havia levado sua esposa e sua filha.
A barraqueira acostumara a ouvir história de bêbedo, e pouco valor dava ao que ouvia, a rudez da vida já aniquilara todos os seus sentimentos. Entrega a última garrafa com pinga para Cláudio, para ela era o remédio para aliviar as dores. Nem deu atenção quando Cláudio lhe disse que não as viram lá no horizonte onde o mar de chumbo se acaba. Os ouvidos da barraqueira já eram de outro bêbedo. Só, sozinho estava Cláudio, sem futuro. Perguntava para si mesmo, o girassol ainda se vira para o sol?
Garrafa em mãos, trôpego, Cláudio se dirige, ziguezagueando, em direção ao mar. Forças exauridas, ele cai há alguns metros da água. A maré já ia levando a garrafa quando ele a agarra de uma vez. Leva-a a boca, e no mesmo instante a virgem Maria com o menino Jesus no colo surge na sua frente. Assustado, ele joga a garrafa longe e ajoelhado começa a chorar. Quando volta a si, estavam lá, todos, seu avô e a cadela a lamber suas botas, seus pais com corpos mirrados (será que no outro lado da vida a miséria também lateja? – perguntava-se.), sua irmãzinha, apenas um traço de gente, tanto de lado como de frente, parecia uma folha de compensando (será que o homem governa o outro lado da vida? – meditava.), e enfim sua esposa com sua filhinha tal qual virgem Maria com menino Jesus no colo. Lá no horizonte onde o mar de chumbo se acaba.
Cláudio se deixou levar pelos braços do mar...