Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
domingo, 30 de agosto de 2020
Amadurecimento
Saber envelhecer é aproveitar a oportunidade que o tempo nos proporciona de embelezar por dentro, independente das transformações de e por fora.
Imagem: Fundo foto criado por freepik - br.freepik.com
domingo, 6 de abril de 2014
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Geração insensível
Deixamos de fazer
história e passamos a ser telespectadores da vida. O tempo e o espaço agora são pequenos devido a nossa
inação. Importamos mais com a linha do tempo feicibuquiana,
curtindo e compartilhando fatos que por si só não faz parte da história devido
isso ser uma ação de mero telespectador do que o que diz ou faz o outro sem uma discussão
saudável do fato. Aqui e ali pipoca ódio ao deputado condenado por requerer
atendimento médico, mesmo sendo provado por uma junta médica que o mesmo necessita do atendimento, alegando que preso comum passam por situação
pior, ou então que em hospitais públicos doentes são esquecidos nos corredores sem atendimento. A partir do
momento que nivelamos por baixo, deixamos de lutar pela
igualdade de direito, ou seja, que todos os presos tenham o mesmo tratamento humanitário
independentemente da sua condição social perante a lei
estabelecida. Ao negarmos o direito ao deputado ser
atendido deixamos de ser humanos. É inegável que os presos no rodapé da pirâmide social devem ter o mesmo tratamento dos presos no cume dessa mesma
pirâmide, não o contrário. Quando deixamos de pregar isso, estamos propagando
o ódio, desumanizando a raça.
Talvez, essa condição de telespectadores nos tira a
condição primaz de ser: o pensamento, e com isso, deixamos de existir. Estamos
nos condicionando à invisibilidade, ao ódio, à solidão, seja entre
quatro paredes diante do computador, seja no meio da multidão com nosso Tablet.
Não enxergamos o outro nem a nós mesmo, posto que nossos olhos e atenção estão
direcionados à tela de nossas máquinas. Não nos abraçamos mais, não damos mais
as mãos, pois essas estão ocupadas em digitar, curtir e compartilhar
virtualmente. O que está acontecendo nesse século é a disseminação da
indiferença, da desvalorização da vida. Está se criando uma
geração invisível e insensível.
Imagem: GETTY IMAGES
sábado, 30 de novembro de 2013
Cosedura
Não sei se é a vida que costura parte de nós
para formar o todo ou se são pessoas de nosso convívio que alinhavam essas
partes para que possamos dar o acabamento. Creio na segunda afirmativa, assim, a peça toda,
com defeito ou não, será fruto de nossa costura.
Foi na opulência que o molde do meu todo foi forjado.
Nessa época, o ter só meu deu agulha e linha para a costura, mas foi a
solidariedade dos meus pais que guiaram as minhas mãos para a cosedura. Após
sair da opulência, perdendo a agulha e a linha, a costura continuou sendo feita baseada na mesma solidariedade.
Minha mãe, que nunca havia trabalhado, tendo uma
empregada doméstica e uma babá, se viu - após a falência do meu pai - obrigada
a uma dupla jornada exercendo a profissão de costureira para ajudar no orçamento familiar e cuidando dos afazeres
domésticos.
Minha mãe tem um positivismo de causar inveja, talvez
isso foi imbuído em seu ser para a nossa própria sobrevivência. E foi o que nos
salvou. Meu pai, a princípio, deixou-se abater pela falência de sua
panificadora, ela, tomando rédeas da situação, pedalou literalmente os nossos
destinos.
Quando olho o pedestal da velha Singer, comigo para
que eu não esqueça como o meu todo foi costurado, vejo minha mãe pedalando a
máquina de costura para ganhar os primeiros trocados e alimentar de pão -
outrora feito pelo meu pai - a família.
Aos poucos ela foi crescendo e eu a seguia. Quando me
dei conta, ela já tinha três máquinas industriais de bordar, outras de costurar e eu, aos
treze anos, ajudando-a ora em uma máquina de bordar, ora em uma de costura.
Bordamos e costuramos durante muito tempo vestido de noiva para as lojas da Rua São
Caetano no centro velho de São Paulo.
Foi nessa época que ela me deu uma lição de vida
inesquecível. Um dia lhe cobrei explicação por que ela, além de ensinar outras
pessoas a bordar e costurar, passava clientes e emprestava uma das
máquinas sem nada cobrar. Essa foi a sua resposta: “Por que é da minha natureza
ajudar os outros, e se chegamos até aqui foi por que fomos ajudados, aprenda
isso”.
Eu tenho uma imagem da minha mãe que é símbolo de toda
a sua maternidade. Meu irmão mamou até os seis anos de idade, e ela,
impossibilitada de largar a máquina, pois haviam muitos pedidos, amamentava-o
enquanto bordava.
Hoje, aos setenta e seis anos continua ativa, em uma
cooperativa de artesanato vendendo suas peças e ajudando os outros.
Sinto como se fôssemos o mesmo espírito dividido em
corpos diferentes, ela em grau evolutivo muito acima de meu. Sem ela não
teria costurado o meu todo, pois alem de dar agulha e linha, foi mão principal
para o alinhavo.
Imagem de arquivo
domingo, 24 de novembro de 2013
Herói sem livro
Fui introduzido na leitura pelo
padeiro da panificadora do meu pai ainda na infância. Contumaz leitor de livros
de bolso de bang e bang, ele me mostrou um mundo onde não
se confundia os vilões com os mocinhos e vice-versa, tão diferente do
mundo real por ser da natureza do
homem a vilania e a hombridade no mesmo ser.
Costumo dizer que o meu pé não é
de laranja lima, mas de amêndoas. Antes mesmo de conhecer as letras e o
fascínio que elas exerceriam sobre mim, foi através da audição que um mundo
fantástico foi me apresentando pelo meu avô. Nas
tardes quentes do verão baiano, ele trazia o seu tamborete de jacarandá com
assento de couro de vaca, colocava-o sobre a sombra do pé de amêndoas em frente
da panificadora do meu pai, chamava-me e pegando-me pelos braços, colocava-me
em seu colo para em seguida me apresentar personagem cuja
bondade incutiu em mim a crença no ser humano, pois, mais do que ninguém, ele
fazia de seus heróis pessoas comuns. Meu avô desencarnou em 2001 aos
94 anos, deixou como herança o seu tamborete, mas riqueza maior ele deixou
incutida em minha alma, e é tão forte que o sinto vivo, passando com seu jeito
simples os seus ensinamentos, até os dias de hoje.
Nas
visitas que faço na casa dos meus pais no interior de São Paulo,
sinto como voltando ao passado, pois a minha família sempre será o meu ninho, o
meu refrigério. Quando meu pai pegou o tamborete e colocou ao lado da
rede que eu estava deitado com o meu filho e me disse que se arrependia de ter
saído da Bahia, mas o que lhe confortava era que nós, os seus filhos, não
seríamos o que somos hoje se na Bahia permanecêssemos. Percebi em
sua voz uma tristeza incontida e nos seus olhos perdidos no horizonte
uma tentativa de encontrar-me criança tendo-o como herói. Da mesma forma
que veio, ele se foi, levando o tamborete e entrando na casa. Vi
naquele gesto um pedido de desculpa por ter destruído os sonhos dos seus
filhos.
Eu estava construindo os meus
sonhos e não usava apenas areia e água, mas também tijolo, cimento e cal. Quando
a panificadora do meu pai, em Brasília, faliu, não apenas implodiu os meus
sonhos, desestruturou a família de seis filhos, pois ela foi dividida ao meio,
metade voltando para a Bahia, a outra metade, meus pais, eu e duas irmãs mais
velhas, indo se aventurar em São Paulo. Foi nesse momento que o meu herói
passou a ser vilão, e humano.
O meu vilão, semianalfabeto, foi
trabalhar de servente de pedreiro na construção civil, estudou, fez curso de
mestre de obra e exerceu essa profissão até se aposentar. Estruturou a família,
construiu a
casa da maioria dos filhos. Homem de mão forte, meu pai, nunca deixou de enfiar
as mãos na massa para dar alimento para o corpo com o pão, para a alma com os
livros comprados, e, aos quarenta e cinco anos, enfiou as mãos na areia, cal e
cimento para dá guarida.
O meu pai é um herói que não está nos
livros.
Imagem GETTY IMAGES
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
Sobre pratos e sob lençóis
Eles formavam um casal que no século passado era chamado de par perfeito. Anelados há meio século, amam diferentes dos casais do século atual, com pudores e amores.
Ele engabelava-se tanto com o cozido de sua esposa, carne suculenta servida em pratos da mais pura porcelana chinesa, mexida e remexida em talheres de prata, satisfazendo o seu paladar; quanto com outras partes de carne untadas em cremes importados, mexidas e remexidas sob lençóis lavados com fragrâncias florais, satisfazendo as suas concupiscências.
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''Uma característica marcante do autor Eder Ribeiro, velho conhecido por suas crônicas, é levar o leitor consigo em suas tramas sempre criativas. Pois eis que seu primeiro ebook vem corroborar isso! Gostei muito, e avalio com o incentivo máximo. - Por Célia Lima''.
sábado, 9 de novembro de 2013
Aquele quarto
Ninguém havia me falado qual era a linha
que separava o sonho da realidade, porém, quando atravessei essa linha não
estava preparado para sair de uma e entrar na outra.
Meu
pai foi um grande fabricador de sonhos, aprendera com o meu avô a arte de
fabricar barcos e navegá-los pelos rios Grande, São Francisco e Preto transportando
mercadorias, contudo, foi quando aprendeu a arte da panificação que os sonhos
se realizaram.
Vivíamos na casa dos sonhos, enorme, ia de uma rua a outra. Na Rua Desembargador Montenegro ficava a
entrada da casa e na Rua paralela, Sete de Setembro, ficava a entrada da
fábrica de sonhos, a panificadora do meu pai. E existia um corredor enorme que
ligava a casa a fabrica, aquele corredor, cujos rastros, meu e de meu pai,
passados quarenta anos, ainda devem permanecer nele se ele ainda existir. São passos indo,
primeiro do meu pai, na madrugada, para a fábrica e
depois os meus seguindo-o para em seguida só os dele, pois ele me pegava no
colo e me colocava na rede, armada com esse intuito, no salão da fábrica.
Tentando driblar o sono, eu via uma névoa branca provocada pelo trigo cobri-lo na feitura da massa
do pão e, antes de homem-aranha, super-homem e batman, ele se transformou em
meu super-herói. Os passos de volta eram somente dele, pois eu ia dormindo em seu
colo. Enquanto a massa do pão descansava para a fermentação, seu corpo
descansava também para se preparar para a segunda etapa de sua lida. Amanhecia,
e dessa vez, íamos de mãos dadas para fábrica. As suas mãos amassavam a massa,
cortavam-na e enrolavam-na para o ultimo descanso e, enfim, ir ao forno à
lenha, enquanto as minhas esperava a assadura da massa para prover do bom
alimento.
As
mãos, aquelas mãos, que tão bem sabiam fazer o pão, abriram as portas de nossa
casa para a parentela estudar na melhor escola de nossa cidade. Aquelas mãos,
que tão bem deram o pão ao corpo, deram os livros para deleite da alma, sem nem mesmo conhecerem bem as letras.
Aquelas mãos, benditas mãos, com o suor de sua lida construíram um quarto acima
do telhado de nossa casa e o encheram de livros e revistas. Era lá que meu pai
descansava após a lida na madrugada enquanto eu atendia os freguês na padaria durante a manhã.
Foram doze anos que ele tentou me ensinar a fabricar sonhos, porém, um sonho
maior fez com que ele saísse do interior da Bahia e fosse tentar a sorte em
Brasília com toda a família, mas isso é uma outra história.
Aquele
quarto era o meu esconderijo quando voltava da escola, e, ali,
folheando as revistas, se não me engano, sétimo céu e contigo, deixei de ser
menino e passei a ser rapaz e deixei de ser rapaz e passei a ser homem com as mesmas mãos que folheavam as revistas.
Saí daquele pequeno mundo aos doze anos para conhecer a cidade grande e não
aprendi a fabricar sonhos.
Bem,
vou deixar as reminiscências de lado, pois Marina me chama. Quem é Marina? A
personagem do meu livro, Insondáveis pecados. Ela pede ajuda para ser salva das
garras do seu pai que a assedia. E ela esta no quarto, não naquele quarto, mas
em outro. Ela está me ajudando a construir um sonho.
Obrigado grande fabricador de sonhos, de ti herdei o valor à família.
Imagem Getty Images
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domingo, 3 de novembro de 2013
Novos dias
Era um dia como os últimos dias, dia frio que perduraria até o dia se encontrar com a noite e permaneceria por toda a noite até o encontro do outro dia. Contudo, um dia nunca é igual a outro dia.
Extasiei-me quando o vi surgir diante de mim. Confesso, a sua ausência havia me esfriado, entristecido até. Logo que ele surgiu, fui tirando a roupa, aos poucos, primeiro a blusa, depois abri os botões da camisa e o deixei entrar em mim. Ajoelhei e agradeci, Obrigado amigo SOL.
Imagem de arquivo pessoal
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Natan tinha os olhos na realidade que o amargava, mas a mente na estranheza impactante das lâminas que atravessam os dias sem que ninguém perceba. Acalentava o sonho de publicar um livro, mesmo sem o apoio da esposa. Transbordavam em seu corpo e mente sensações que flutuavam entre o deleite do imaginário e o desgosto da verdade. Lutava contra o desejo de executar cada linha escrita, mas a sensação estonteante de fazer parte da trama, comumente lhe sobrevinha rompendo o fio que o conectava ao que não era fictício. O pulso narrativo do Autor transcende as expectativas de Natan que, por sua vez, leva com ele os demais personagens e o leitor à desfechos inusitados. O conto retrata, na sagacidade evidente do Eder, a vilania advinda das mesquinharias que frutificam nas crises existenciais do ser humano. Uma curta narrativa de agradabilíssima leitura.
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domingo, 27 de outubro de 2013
Aos meus amigos
Aos meus amigos:
Tenho-os como flores,
peço-lhes apenas uma pétala para que eu possa colocar entre as folhas do livro
da minha vida, e se por algum motivo, a distância nos afastar, eu possa, ao
folhear o meu livro, com as lágrimas das saudades, revivê-los para nunca
esquecer o significado que cada um tem.
Imagem Getty Images
Meus amigos, um novo conto infantil seria postado nesse domingo, contudo, outros afazeres me impossibilitaram de programá-lo. Estou finalizando um livro e ele está tomando o meu tempo, também, estou editando alguns contos inéditos para ser transformado em ebooks e serem vendidos pela Amazon.com. A quem interessar é necessário cadastrar na Amazon.com clicando AQUI e baixar o aplicativo ( PC, Tablet, Celular ) para ler o livro AQUI, tudo gratuito. Na Amazon, você encontra livros gratuitos e com preços acessíveis. Aproveito a oportunidade para indicar dois ebooks da minha amiga Camila Monteiro, clique Aqui e os compra, saindo cada um por 1,99. Fala sério, preço de produto de loja de variedade, mas com qualidade superior a produtos importados, e não é produtos da China, tá... rssss.
Bem, vai preparando o dindin para gastar com os meus ebooks e quem sabe presentear os seus amigos, afinal, o Natal está chegando.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
A família encantada - Última página
-
Sabia que você iria entender, Fauser. Sabe, você tem os olhos de seu pai.
- O
senhor conhece o meu pai?
-
Sim, sim, ele era um rapaz, mais velho do que você, e fizemos esse mesmo
passeio juntos. Eu sou o Senhor do Tempo, e vim lhe mostrar que sempre há tempo
para consertarmos aquilo que não está funcionando tão bem quanto deveria estar.
Agora,
segue de volta para sua casa, filho, mas não se esqueça de levar contigo os
três objetos que encontrou na garagem. Ainda se lembra deles?
Apertando
a bola de gude com toda força em sua mão, o menino respondeu: Sim, me lembro
bem de cada um deles. Posso levar a formiga também?
Essa,
já subindo no manto do Senhor do Tempo, deu uma risada e respondeu-lhe assim:
-
Meu anjo, mas não percebeu que eu já estou lá dentro de sua casa, junto de
você, desde que você era um bebê?
E,
brilhando em uma bola de luz, abandonou sua forma pequena e franzina de
formiga, e transformou-se em Baba.
O
dia já ia alto, e, quando Fauser entrou em casa de mãos dadas com Baba, seus
pais pareciam ter sido atropelados por um caminhão.
-
Onde você estava? Disse-lhe a mãe, correndo em busca de seu abraço.
-
Procuramos em toda a vizinhança por você, Fauser! Chamamos até a polícia! E,
caindo a seus pés, seu pai, não segurando a emoção, rompeu em lágrimas.
-
Está tudo bem agora, disse-lhes Baba, acalmando aos três. Encontrei-o na
garagem, dormindo ao lado desses objetos. Vocês os reconhecem? E, dando um
passo ao lado, deixou-os ver a bicicleta grafitada e a bola de capotão.
Cacau
e Mel entreolharam-se, e um arrepio subiu-lhes por toda a espinha.
-
Meu filho, você estava lá com esses brinquedos? Docemente perguntou-lhe Cacau.
-
Foi estranho, meu pai. Eles ganharam vida, falavam entre si. E, depois veio um
homem que disse ter lhe conhecido há muito tempo, quando você era criança. E
Baba, ela era uma formiga, mas se transformou em gente BEM NA FRENTE DOS MEUS
OLHOS.
Nada
mais faltava ser dito. Ali, debaixo dos olhos de Cacau e Mel, sua história
recontada, através das mãos, sedenta de carinho, de seu filho. Beijaram-lhe a
fronte. Disseram-lhe, descanse, meu filho, e foram com ele até o quarto.
Baba
a tudo observou, com o sorriso de canto e os olhos rasos de água que lhe eram
tão familiares. Cacau deteve-se no corredor em direção aos quartos. Deu meia
volta, dirigiu-se à Baba assim:
-
Minha amiga formiga, e eu nem por um segundo desconfiei que era você quem o
sono e a vida de nosso filho velava! Obrigado, muito obrigado! Diga ao Senhor
do tempo que entendemos a mensagem. Não tornará a se repetir, isso eu prometo.
Palavra de menino. Dizendo isso, piscou seu olho direito, o mesmo olhar de jabuticaba
gigante que Fauser havia herdado de seu pai.
-
Meu trabalho se encerra aqui então, rapaz. Voltando à sua forma de formiga,
despediu-se do amigo, mas, antes de partir, ainda teve tempo de acrescentar:
-
Lembra-se que eram três, e não somente dois, os objetos de sua infância? Seu
filho carrega consigo algo de muito precioso, algo que você, ao longo do tempo,
esqueceu-se de amar...
Encontrou
Fauser adormecido em sua cama. Podia ver o sorriso em seus lábios, ainda tão
pequeninos. Ao ajoelhar-se ao lado do filho amado para beijar-lhe a face, como
nunca havia tido tempo para fazer, percebeu algo esverdeado na mão esquerda do
menino. Esticou sua mão para alcançá-lo, e, seu coração sobressaltou-se quando
viu que era sua bola de gude, aquela que havia dado a Mel em honra de seu
amor...
O
Senhor do tempo, satisfeito com o que viu, esticou seu manto do tempo e
provocou a sua passagem. Nem muito rápido, nem muito devagar. No ritmo certo
para que muitos aniversários fossem celebrados, muitas conquistas fossem
alcançadas, alguns fracassos fossem superados. A tudo o Senhor do tempo tratou
com igual cuidado.
Mas
agora já não era Fauser a levantar-se da cama, acordado por um barulho
diferente vindo do lado de fora da casa. Era Vitor, o neto de Mel e Cacau, que
dormira na casa dos avós para que seus pais pudessem sair. Vitor sentia-se o
menino mais amado do mundo, pois seus pais e seus avós desdobravam-se em
cuidados com ele. Tinha apenas 7 anos, mas a certeza de que era o menino mais
amado do mundo.
TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS
AUTORES:
Água: Déia Tolda
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Duo,
Família,
Fantasia
domingo, 20 de outubro de 2013
A família encantada - Sétima página
Fauser
olhou ao seu redor. Não reconheceu a casa. Era a mesma em que morava, mas
estava... vazia. De repente, a porta abre e entram seus pais. O menino quase
sai correndo para abraçá-los, mas percebe que não está em cena. Estranhamente
assiste a algo que está guardado no passado, mas que, de alguma maneira, ele
parecia lembrar.
Seus
pais brigavam. Era evidente a angústia que sentiam. A mãe balançava papéis em
suas mãos, o pai levava as mãos a cabeça, em sinal de desespero. A barriga da
mãe grande, quase no final da gestação.
O
pai bate a porta. A mãe cai sentada, aos prantos, alisando a barriga... Nesse
ponto, Fauser sente seu próprio coração acelerar:
-
Ela me ama!!
Num
apagar e acender de luzes, o menino agora vê seu pai no trabalho. Que horas
são, não vejo mais ninguém! Não há luz fora da janela. O relógio roda,
descontrolado, as horas não param, o calendário não para, tudo gira em um
caleidoscópio acelerado, mas uma imagem, de repente, congela-se: sobre a mesa
de trabalho, Cacau tem uma fotografia de Mel e o pequeno bebê nos braços.
-
Ele também me ama!!
Um
sol, no meio da noite, brilha. E, de seu halo, surge a imagem de um senhor,
muito velho, mas de uma presença imponente.
-
Rapaz, como você cresceu!
- Eu
sou menino, não sou rapaz... E, nos conhecemos de algum lugar?
Rindo,
como se não tivesse ouvido aquela resposta, o Senhor continua a falar:
-
Rapaz, você sabe por que está aqui?
Pensando
o mais rápido que pode, Fauser começa a responder assim:
- A
princípio, achei que iria me esconder, fugir quem sabe. Mas, ao ver todas essas
imagens, entendo que não me faltou amor - faltou TEMPO para que meus pais o
dessem a mim. Ai, Senhor, peço-lhe ajuda! Como faço para que meus pais entendam
que todo o sacrifício, todo o esforço que fazem por mim, não é nada se não
tiver também o seu amor?
Continua quarta-feira às18hs00min
TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS
AUTORES:
Água: Déia Tolda
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Família,
Fantasia
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
A família encantada - Sexta página
Na
ânsia de tudo prover ao menino Fauser, deixaram de, em primeiro lugar,
oferecer-lhe, sem limite ou racionamento, o presente que todos mais anseiam: o
AMOR.
E,
prezados amigos, posso lhes garantir. Amor há - cabe a nós ajudá-los a
encontrar.
- E
o que vocês estão ainda fazendo aí? Um Fauser, de pijamas e descabelado, com os
olhos arregalados, ouve o final do, muito bem elaborado, discurso da bola de
capotão.
Vamos,
precisamos encontrar o AMOR. Por mim...
A
formiga, prosa que só, embaixadora do Senhor do tempo, olha o menino e diz:
-
Mas você cresceu! Já é um rapaz!
- Eu
não sou rapaz. Eu sou menino...
Sorrindo,
todos os quatro percebem que a ajuda certa fora providenciada...
-
Está bem, não vamos perder tempo. Agora, atenção: no três nós pulamos.
- No
quê?
- Na
bola, ora!
-
Aquela que está parada ali?
-
Isso mesmo, vamos, não há tempo, daqui a pouco o portal fecha.
-
Peraí, vou levar a bola de gude.
Pendurando-se
na barra da calça de pijama de Fauser, a formiga chuta a bola de gude para o
alto, a tempo de ser alcançada pela mão esquerda do menino. E uma descarga elétrica
boa passou por dentro da bola, que, mesmo sem lábios, sorriu...
-
Chegamos.
-
Mas estamos no mesmo lugar!
-
Não foi o lugar que mudou, foi o tempo!
Continua domingo às 8hs00min
TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS
AUTORES:
Água: Déia Tolda
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Fantasia
domingo, 13 de outubro de 2013
A família encantada - Quinta página
Fauser
levantou-se da cama, abriu a porta e espreitou pela fresta. O corpo da babá
fulgia e de sua mão pendia uma varinha de condão. Minha fada madrinha! Fauser
pensou alto. Voltou para a cama e adormeceu.
Mas
essa noite não era como as outras. Após poucos minutos de sono, um barulho
diferente fez com que Fauser acordasse. Ainda esfregando seus pequenos olhinhos
com sono, foi à janela, e, arregalando os seus olhos de jabuticaba além da
grade de proteção, não acreditou no que estava vendo.
Uma
formiga levantava a porta da garagem!
A
formiga, amiga de infância de Cacau, estava atarefada. O Senhor do tempo havia
a encarregado de buscar uma solução para vida sem amor que Cacau e Mel
estavam levando. Mas, para isso, era preciso que forças fossem unidas. A
formiga precisava encontrar os três objetos inanimados que mais amavam àqueles
dois cabeças-duras! E, na garagem da casa, achou a bola de capotão
descosturada numa caixa de sapato, a bola de gude como olhos de uma das bonecas
de Mel e a bicicleta entre os ferros velhos.
-
Que desperdício! Mas, não há tempo para lamentações! O portal não abre muitas
vezes e ainda há muito que fazer! O que vocês estão precisando é de água para
encantarem. E, conforme ia dizendo essas palavras, as três receberam os
esguichos de água vindos da mangueira do jardim.
O
encanto começava a fazer efeito. Sacudindo-se tal qual cachorro, a bicicleta
reviveu; a bola de capotão, apesar de descosturada, espirrou dando sinal de
vida; e a bola de gude saltou do olho da boneca e saiu rolando pela grama
molhada, deixando um rastro de alegria.
As
três disseram em uníssono:
-
Você voltou!!!
-
Sim, sim, mas não temos tempo, aliás, temos o tempo que o Senhor do tempo nos
concedeu. E é pouco, muito pouco, mas pode operar milagres na vida dessa
família. E pensar que Cacau e Mel eram tão atenciosos com vocês! Tsc, tsc,
tsc... Tínhamos certeza de que seriam bons pais. Agora vocês me respondam, onde
foi que eles erraram e entraram nesse caminho sem vida, sem alma?
A
bola de gude, desde sempre a mais falante, e de longe a mais pessimista, fez um
relato breve, sempre é claro, do seu ponto de vista:
-
Mas ora essa, dona formiga, eu disse que os dois iriam nos esquecer. Essas
coisas de homem e mulher atrapalham muito o discernimento das pessoas. Pois se
acreditam, com toda a força, que para ser grande é preciso esquecer-se de
quando era pequeno! E eu agora é que lhes pergunto: como eles podem criar uma
criança se perderam sua essência?
A
bicicleta, sempre suave e gentil, tão magoada que estava, resolveu participar
também da conferência:
-
Veja só, dona formiga, se é possível tal estapafúrdio: Eu aqui, linda, girassóis
grafitados e azul da cor do céu, e eles comprando coisas que precisam ficar
presas na parede! Fauser NUNCA nos viu! Acho mesmo que (agora ela está sussurrando,
pois detesta fazer fofoca) jamais andou num selim de bicicleta!
A
indignação foi geral. Um festival de "assim não dá", "isso
precisa acabar", foi ouvido, até que, numa surpresa danada, a bola de
capotão pede a palavra:
- Eu
fui presenteado a Cacau no mesmo dia em que ele conheceu a Mel. Pude ver em
seus olhos o amor brotando. E o amor é o gesto sublime que eleva os seres
humanos. A vida, no entanto, os engoliu. Na máquina que, hoje, gira o mundo,
não há mais tempo para ser feliz - a menos que esse artigo esteja à venda em
uma prateleira, perto dos aparelhos eletrônicos.
E,
esses subterfúgios escondem a triste realidade desse casal que, outrora, era
criança: eles desaprenderam a amar. Esqueceram-se que é o sentimento mais
completo, e, no entanto o mais simples de se dividir.
Continua quarta-feira às18hs00min
TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS
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Água: Déia Tolda
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