
A solidão é transitória e não estacional, dura apenas um inverno. A minha flor amarela não precisou esperar a primavera, era ainda inverno quando floriu, assim também o meu coração não precisou esperar pela estação para o degelo. Todos os meus sentidos estavam prontos para as cores, odores e sabores, para os ardores prima-se pela a estação das flores. Botão a espera da primavera para se abrir em flor, assim eu estava.
Não havia mais cardigans me cobrindo, o meu pesoço desnudo não carregava mais o cachecol, descida dos meus saltos altos, eu não pisava mais calçada em botas. O meu colo emoldurava o meu estado de espírito, eu enfrentava a vida de peito aberto e aberta as todas emoções sem a preocupação das decepções. Coberta por perfumes e descalça, eu pisava o meu chão forrado por tapetes floridos. A alegria era vestido e eu primavera, não estava mais nua.
A paixão aos cinquenta tem o gosto de vinho envelhecido, prima-se saboreá-lo aos poucos para dar tempo à língua sentir o seu sabor sem amortecer os lábios. Apesar de ser primavera e o tempo estar ameno, dentro de mim havia um verão, eu ardia e quem vinha lá adiante trazido pelo vento, puberbe, senão semente. Senhora de mim, eu esperei o vento trazer o meu menino. A estação tinha seus sabores, odores e cores e o meu estado era de ardores. O meu menino estava de vermelho e ele se vestia de bombeiro. Banhei-me com as águas do prazer e ele ainda não tinha vinte.
Não tinha tempo de esperar a semente brotar em tronco, do tronco surgir os galhos, dos galhos nascerem folhas e flores, e finalmente das flores, frutos. Passarei a estação todas sob lençois e me fiz terra, a semeadura se daria pelos ardores.
Enquanto houver primavera, você será o meu menino, quando não houver, você permanecerá, semente... E eu já tenho ciquenta.
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