Angélica não esperou o pai de Pedro finalizar a frase e saiu correndo, dobrando a primeira esquina em direção à sua casa. Pedro que chegara ao fim da conversa saltou o balcão e a seguiu com os olhos. Ele havia se encantado ao deparar-se com tanta beleza, novamente. Emudecido e ensurdecido pelo encantamento, fechado em um mundo só dele, pensamentos envoltos em nuvens de algodão doce, provando do mel, Pedro não ouviu seu pai chamá-lo.
Noutro dia o pai de Pedro amanheceu ensimesmado com a previsão de Angélica, mais ainda por ela saber que ele tinha um filho chamado Pedro. Como? - Perguntou-se.
Pedro já se encontrava na padaria, antes mesmo de seu pai descerrar as portas ao público, sentado no banco, esperando Angélica. Desde a primeira vez que a viu na escola, ele sentira algo muito forte, até aquele momento incompreensível. Quando ela entrou na padaria, o seu coração disparou. Inquieto, ele desassossegou no banco.
- Tá com comichão, Pedro. - Seu pai lhe perguntou.
Pedro enrubesceu sem responder a pergunta do pai. Com um sorriso envergonhado, ele respondeu ao cumprimento de bom dia da Angélica.
- Vocês se conhecem?
Ao mesmo tempo, os dois responderem que sim. Somos colegas de classe na escola. Uníssono, completaram a resposta.
Aliviado, o pai de Pedro entregou a sacola com os pães, leite e o tablete de manteiga à Angélica. As previsões dela, ele deu como coisa de criança e as guardou na gaveta do esquecimento.
Assim que Angélica pegou o rumo da rua, Pedro saltou o balcão apoiando-se no banco, este foi ao chão enervando o seu pai. Pedro olhou na direção de Angélica e sentiu que um pouco dele a acompanhava. Ela olhou para trás e o percebeu parado na esquina, e também sentiu que um pouco dela estava indo na direção dele. O que eles não sabiam era que suas almas se reconheceram. A energia do amor os estava contagiando. Agora as suas auras tinham uma só cor.
DEZ ANOS DEPOIS
Angélica não sabia como dizer a Pedro o que ia lhe acontecer. De Antemão, ela sabia que a sua vida seria curta para que, com a perda, ele voltasse para o Senhor. Teria de fazê-lo entender que a dor não é um castigo divino, mas a oportunidade de aprender, de evoluir espiritualmente. Cabia a ele escolher o sofrimento como castigo ou como aprendizado para o perdão pelos erros do pretérito. Usaria o livre arbítrio da mesma forma que ela usou o seu e conseguiu a redenção pelos mesmos erros do pretérito.
Ela não encontrou outra forma de dar a notícia senão com alegria, afinal, o fim em si não encerra a vida, a morte é apenas física. O tempo pedia pressa, ainda não havia amanhecido, apesar da escuridão, ela rumou para casa do pai de Pedro. Angélica atravessou a padaria volitando. Seu Edson percebeu e sorriu. Ela havia se tornado o seu sol de todos os dias, enchendo a sua alma de felicidade, dando a sua aura mais cor, mais vivacidade.
- Por que está aí parada na porta. Entra logo. Meus lábios anseiam pelos seus. - Disse Pedro floreando as palavras.
- Meu Pepito, estava admirando a tua beleza física, mas ao mesmo tempo preocupado por não fazer com que essa sua beleza não seja também percebida intrinsecamente.
- Pode deixar, meu amor, eu me virarei do avesso e todos perceberão que sou belo tanto por dentro como por fora. - Disse Pedro entre risos.
Angélica não teve como se segurar e se desfez em gargalhadas. Cobertos de alegria, os dois se amaram ali mesmo, entre sacos de trigo. Cobertos pela farinha, misturados, não dava para perceber quem era quem. Havia uma sintonia entre as suas almas que poderia dizer que era a mesma. A completude se deu quando no ato final do amor, o prazer atingiu a plenitude nós dois.
Angélica embebeu um pano na água e delicadamente foi retirando a massa formada no corpo de Pedro pelo suor durante o ato sexual.
- Pepito, como gostaria de retirar a massa que cobre a tua alma para acordá-lo para a Luz, iluminá-lo para que a escuridão, as trevas, não fortaleça a sua descrença. - Angélica, em ato continuo, limpava o corpo do Pedro e mentalmente o energizava, porém não conseguia penetra em sua alma, a energia ficava na superfície do físico. Retirando suavemente as mãos de Angélica de cima do seu corpo, Pedro levantou-se, sentou-se em um saco de farinha de trigo com a cabeça entre os joelhos e as mãos na nuca. Angélica retirou as mãos dele da nuca, ergueu a sua cabeça e olhando em seus olhos lhe disse:
- Pepito, todo ser sem fé se afasta do Pai e descaminha sem rumo, não vive a vida, mas apenas passa por ela sem dar um sentido, pois lá no íntimo se sente vazio e não percebe que o que lhe falta é crer, não em si, mas no Deus em si e assim deixar de estar e ser. Ser em Deus com Deus.
- Deus, Deus. Quem é Deus? Deus não passa de uma invenção humana assim que buscou conhecer o mundo que o cercava no início de sua história, e por não saber, por medo ao deparar com o desconhecido, foi mais confortável inventar deuses para solucionar os seus problema, e depois um Deus único, este que você acredita, para a nossa salvação, com um porém, a salvação só vem depois da morte. Não preciso Dele para lidar com os meus medos e nem para me salvar.
- Não precisa mesmo Pedro? Saiba que dizendo isso, você está abreviando a minha vida.
- Por que você insiste tanto com este assunto, Angélica. Desde o início eu lhe disse que não acredito em Deus.
- Por que, Pepito, essa é a minha principal missão, trazer você para a Luz, se não conseguir pelo amor, será pela dor. Eu não quero que você sofra para aprender.
- Fique tranquila, eu não sofrerei.
- Quero que você lembre que, haja o que houver, sempre há um depois.
- Lá vem você de novo com essa de vida após a morte. Morto o físico, morto o anímico.
- Não vou discutir contigo sobre as minhas crenças. Dou a batalha como perdida. Só lhe peço um favor, quando estiver sofrendo, lembre-se de que sempre há um depois. Nunca se esqueça disso.
- Lembrarei, Angélica. Sempre há um depois. - Pedro repetiu com desdém.
- Agora vou tomar um banho e em seguida irei embora. Essa nossa conversa me cansou um pouco.
- Ok. Você nunca vai me entender.
CONTINUA EM 05/12/11
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