Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Depois - 2ª Parte


   Angélica não esperou o pai de Pedro finalizar a frase e saiu correndo, dobrando a primeira esquina em direção à sua casa. Pedro que chegara ao fim da conversa saltou o balcão e a seguiu com os olhos. Ele havia se encantado ao deparar-se com tanta beleza, novamente. Emudecido e ensurdecido pelo encantamento, fechado em um mundo só dele, pensamentos envoltos em nuvens de algodão doce, provando do mel, Pedro não ouviu seu pai chamá-lo.
   Noutro dia o pai de Pedro amanheceu ensimesmado com a previsão de Angélica, mais ainda por ela saber que ele tinha um filho chamado Pedro. Como? - Perguntou-se.
   Pedro já se encontrava na padaria, antes mesmo de seu pai descerrar as portas ao público, sentado no banco, esperando Angélica. Desde a primeira vez que a viu na escola, ele sentira algo muito forte, até aquele momento incompreensível. Quando ela entrou na padaria, o seu coração disparou. Inquieto, ele desassossegou no banco.
   - Tá com comichão, Pedro. - Seu pai lhe perguntou.
   Pedro enrubesceu sem responder a pergunta do pai. Com um sorriso envergonhado, ele respondeu ao cumprimento de bom dia da Angélica.
   - Vocês se conhecem?
   Ao mesmo tempo, os dois responderem que sim. Somos colegas de classe na escola. Uníssono, completaram a resposta.
   Aliviado, o pai de Pedro entregou a sacola com os pães, leite e o tablete de manteiga à Angélica. As previsões dela, ele deu como coisa de criança e as guardou na gaveta do esquecimento.
   Assim que Angélica pegou o rumo da rua, Pedro saltou o balcão apoiando-se no banco, este foi ao chão enervando o seu pai. Pedro olhou na direção de Angélica e sentiu que um pouco dele a acompanhava. Ela olhou para trás e o percebeu parado na esquina, e também sentiu que um pouco dela estava indo na direção dele. O que eles não sabiam era que suas almas se reconheceram. A energia do amor os estava contagiando. Agora as suas auras tinham uma só cor.

DEZ ANOS DEPOIS

   Angélica não sabia como dizer a Pedro o que ia lhe acontecer. De Antemão, ela sabia que a sua vida seria curta para que, com a perda, ele voltasse para o Senhor. Teria de fazê-lo entender que a dor não é um castigo divino, mas a oportunidade de aprender, de evoluir espiritualmente. Cabia a ele escolher o sofrimento como castigo ou como aprendizado para o perdão pelos erros do pretérito. Usaria o livre arbítrio da mesma forma que ela usou o seu e conseguiu a redenção pelos mesmos erros do pretérito.
   Ela não encontrou outra forma de dar a notícia senão com alegria, afinal, o fim em si não encerra a vida, a morte é apenas física. O tempo pedia pressa, ainda não havia amanhecido, apesar da escuridão, ela rumou para casa do pai de Pedro.  Angélica atravessou a padaria volitando. Seu Edson percebeu e sorriu. Ela havia se tornado o seu sol de todos os dias, enchendo a sua alma de felicidade, dando a sua aura mais cor, mais vivacidade.
   - Por que está aí parada na porta. Entra logo. Meus lábios anseiam pelos seus. - Disse Pedro floreando as palavras.
   - Meu Pepito, estava admirando a tua beleza física, mas ao mesmo tempo preocupado por não fazer com que essa sua beleza não seja também percebida intrinsecamente.
   - Pode deixar, meu amor, eu me virarei do avesso e todos perceberão que sou belo tanto por dentro como por fora. - Disse Pedro entre risos.
   Angélica não teve como se segurar e se desfez em gargalhadas. Cobertos de alegria, os dois se amaram ali mesmo, entre sacos de trigo. Cobertos pela farinha, misturados, não dava para perceber quem era quem. Havia uma sintonia entre as suas almas que poderia dizer que era a mesma. A completude se deu quando no ato final do amor, o prazer atingiu a plenitude nós dois.
   Angélica embebeu um pano na água e delicadamente foi retirando a massa formada no corpo de Pedro pelo suor durante o ato sexual.
   - Pepito, como gostaria de retirar a massa que cobre a tua alma para acordá-lo para a Luz, iluminá-lo para que a escuridão, as trevas, não fortaleça a sua descrença. - Angélica, em ato continuo, limpava o corpo do Pedro e mentalmente o energizava, porém não conseguia penetra em sua alma, a energia ficava na superfície do físico. Retirando suavemente as mãos de Angélica de cima do seu corpo, Pedro levantou-se, sentou-se em um saco de farinha de trigo com a cabeça entre os joelhos e as mãos na nuca. Angélica retirou as mãos dele da nuca, ergueu a sua cabeça e olhando em seus olhos lhe disse:
   - Pepito, todo ser sem fé se afasta do Pai e descaminha sem rumo, não vive a vida, mas apenas passa por ela sem dar um sentido, pois lá no íntimo se sente vazio e não percebe que o que lhe falta é crer, não em si, mas no Deus em si e assim deixar de estar e ser. Ser em Deus com Deus.
   - Deus, Deus. Quem é Deus? Deus não passa de uma invenção humana assim que buscou conhecer o mundo que o cercava no início de sua história, e por não saber, por medo ao deparar com o desconhecido, foi mais confortável inventar deuses para solucionar os seus problema, e depois um Deus único, este que você acredita, para a nossa salvação, com um porém, a salvação só vem depois da morte. Não preciso Dele para lidar com os meus medos e nem para me salvar.
   - Não precisa mesmo Pedro? Saiba que dizendo isso, você está abreviando a minha vida.
   - Por que você insiste tanto com este assunto, Angélica. Desde o início eu lhe disse que não acredito em Deus.
   - Por que, Pepito, essa é a minha principal missão, trazer você para a Luz, se não conseguir pelo amor, será pela dor. Eu não quero que você sofra para aprender.
   - Fique tranquila, eu não sofrerei.
   - Quero que você lembre que, haja o que houver, sempre há um depois.
   - Lá vem você de novo com essa de vida após a morte. Morto o físico, morto o anímico.
   - Não vou discutir contigo sobre as minhas crenças. Dou a batalha como perdida. Só lhe peço um favor, quando estiver sofrendo, lembre-se de que sempre há um depois. Nunca se esqueça disso.
   - Lembrarei, Angélica. Sempre há um depois. - Pedro repetiu com desdém.
   - Agora vou tomar um banho e em seguida irei embora. Essa nossa conversa me cansou um pouco.
   - Ok. Você nunca vai me entender.

CONTINUA EM 05/12/11

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domingo, 27 de novembro de 2011

Depois - 1ª Parte


   - Você realmente voltou, veio me buscar como havia prometido.
   - Sim, Pepito. Eu lhe disse que sempre há um depois. Vem meu amor, me acompanha.

SESSENTA ANOS ANTES.

   O pai de Pedro, devido a sua profissão, conhecia todos na cidade, peculiarmente. Por isso se algum estranho aparecesse na cidade, ele logo percebia e se interava sobre o mesmo.
   - Bom dia seu Edson! Quero dois reais de pão.
   Aquela voz melíflua, os seus ouvidos acusaram como estranha, aguçando a sua curiosidade e o fazendo debruçar rapidamente sobre o balcão para saber de quem se tratava. Quando viu que era uma criança, ele estranhou o seu discernimento e a capacidade de comunicação sem atropelos de palavras e uma dicção de causar inveja a qualquer adulto.
   - Meu anjo, como sabe que me chamo Edson?
   - Está escrito no letreiro, Padaria do seu Edson. Como ninguém colocaria o nome de padaria em uma pessoa, você só pode se chamar de Seu Edson.
   Aos risos, o pai de Pedro se encantou com a criança.
   - Mas você sabe ler? Quantos anos têm?
   - Sim, desde os dois anos de idade. Eu tenho quatro anos.
   - Eu não acredito no que estou ouvindo. Por acaso sua mãe é professora?
   - Meus pais são professores, assim como meus avôs. Somos uma geração de educadores. Uma dádiva de Deus sobre a nossa família.
   - Hum, interessante. Bem, deixe-me adivinhar o seu nome. Peraí, me deixa pensar. Hum, o nome tá vindo, peraí que eu vou pegá-lo. - Levando as mãos para cima, como se fosse pegar algo suspenso no ar e o tivesse deixado cair, o pai de Pedro abaixa e pega um papel no chão, abra-o e mostra para menina ler.
   - Angélica. - Disse a criança com cara de surpresa e espanto. - Você é um bruxo. - Completou a frase levando o pai do Pedro as gargalhadas.
   - Não meu bem, não sou não.
   - Mas como adivinhou?
   - Está escrito no bolso do seu vestido. Porém, com esses cachos dourados brotando da sua cabeça; um sorriso simpático nos lábios e, também, em cada olho; uma pele aveludada e um rosto carregado de céu, você só poderia ser um anjo.
   - Obrigado, seu Edson. - Disse Angélica e juntando as palmas das mãos fez uma reverência para reforçar o agradecimento.
   - Pronto aqui está o seu pão. Foi um prazer te conhecer.
   Angélica saiu abraçada ao saco de pão, assim que pôs os pés na calçada, voltou para dentro da padaria.
   - Algo errado Angélica?
   - Eu percebi uma coisa e não poderia guardar para mim.
   - Então fale meu anjo.
   - Sua aura é colorida, deve ser uma pessoa muito alegre, Seu Edson. O Pedro precisará do seu apoio, pois ele sofrerá muito. Não deixa a tristeza dele acinzentar a sua aura o levando a tristeza também.
   - Como sabe que eu tenho um filho e que seu nome é Pedro? Hei mocinha, espere, por acaso você...

CONTINUA EM 30/11/11

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

PS: Urgência médica


Sempre ouvira do meu pai que a fé remove montanhas, como até hoje as montanhas que tive que ultrapassar não passava da altura de minhas pernas, não tive que ter fé para ultrapassá-la, bastou-me pulá-las. Não sou uma pessoa dada à oração, pois não rezo para nenhum santo por achar que humano algum é bom o suficiente para ser santificado, nem tão pouco acredito em Deus, pois se o deus da medicina é a ciência, da economia é o mercado, da computação é o Bill Gates e o da política é a prostituição, porque justo eu tenho que rezar para um Deus único, então rezo para a ciência, afinal como médico é ela, a ciência, que faz com que curo e salvo vidas.
Meu dia seria um dia de cão, pois minha secretária havia faltado por recomendação do seu pai de santo que a proibia de sair de casa numa sexta-feira treze. E hoje além de ser sexta-feira treze, era uma sexta-feira do mês de Agosto. Quanto a isto já havia acostumado e aceitava, afinal ela é muita prestativa. O que eu não aceitava era ela ter levado minha agenda. Passo na sala de espera perguntando a cada paciente o seu nome assim: “Qual o nome do senhor?”.  “Qual o nome da senhora?”. Quando chego ao último paciente, um velho na faixa de sessenta anos, com uma bíblia em mãos, chapéus sobre os joelhos e um crucifixo no pescoço, pergunto-lhe:
- Qual o nome do senhor?
- Jesus Cristo – respondeu o velhinho.
Volto para minha sala chamando um por um todos os pacientes, por último o velhinho: Jesus Cristo. Chamo uma, duas, três, quatro vezes. Nada do velhinho sair do banco. Vou até ele e lhe digo que o chamei e qual era a razão dele não entrar na sala. Aí ele me responde que eu não o chamei. Digo-lhe que chamei quatro vezes seu nome: Jesus Cristo. Ele me responde:
- Mas este não é o meu nome.
- Como? Você me disse que o nome do senhor é Jesus Cristo.
- Sim, o nome do Senhor é Jesus Cristo, o meu é José de Souza.
Não precisa dizer que deu vontade de mandar o José para Brasília, afinal a maioria dos filhos de messalinas trabalha lá.
Só os gregos sabem em que dado momento da história o homem inventou Deus, por isso, apesar do terceiro sexo, da trindade, da tridimensionalidade, dos tribalistas etc, vivemos em um mundo dual, houve a necessidade de inventar o Diabo. Portanto, a partir daí todo ato deixou de ser humano, nos acertos, obra divina, nos erros, para se eximir das culpas, obra diabólica, ou dos outros, afinal o inferno são os outros.
Neste dia Deus deveria estar de férias, e se o diabo tinha alguma feição humana era daquele rosto que estava se encaminhando para minha sala. O dia estava esquentando, parecia que ia ferver. E ferveu. Estava preenchendo o prontuário quando entra na sala o dito cujo, no caso o homem relatado acima, ou seja, o diabo em pessoa, ferido a bala com um casaco que ia até os calcanhares, achei estranho devido o calor que estava fazendo, afinal o inferno é quente o suficiente. Como ele já estava dentro da sala tive que atendê-lo. Quando toco no ferimento percebo que ele carrega uma arma na cintura, tento tirá-la e ele me dá uma gravata. Percebendo que ele não me soltaria e nem me daria a arma, explico que a única pessoa que poderia cuidar dos seus ferimentos seria eu, e que tiraria uma gaveta da minha mesa e ele colocaria a arma lá dentro e ficaria com a gaveta. Ele concordou. Para meu total espanto ele tira o 38 que estava me ameaçando, uma automática, um AR15 e tantas armas que eu fiquei imaginando qual dos filmes de Bruce Willis ele saiu. Não me espantaria se eu abrisse a porta achasse na sala de espera o Clint Weastwood, Silvester Stallone, Arnold Schwaznegger e Chuck Norris. Após medicá-lo o bandido saiu. Na pressa ele esqueceu o 38. Abri a porta e vi que a sala de espera estava lotada. Com as fichas com os nomes dos pacientes na mão esquerda, eu, com a mão direita, comecei a chamá-los: Luis Silva. Luis Silva. Gritei e gesticulando com a mão direita exaustivamente chamei de novo: LUIS SILVA. E nada do desgraçado aparecer. Próximo: José Genuíno. José Genuíno. Novamente gesticulando com a mão direita gritei: JOSÉ GENUÍNO. Nada de aparecer. Tentei o próximo: Marcos Valerio. Marcos Valerio. Nada. Gesticulei com a mão direita e berrei: MARCOS VALERIO. Quando olho para me certificar se realmente a sala de espera estava lotada de pacientes, o que vejo, senão o tucano empalhado em cima da mesinha de centro. Nenhuma alma viva ali estava. Desesperado, vejo o guarda vindo da portaria em minha direção dizendo;
- Doutor na tua mão.
- Sim, as fichas com o nome dos pacientes, mas sumiram todos.
- Não nessa mão doutor, na outra.
Quando olho na mão direita vejo o 38 que o bandido havia esquecido.   




        Texto escrito em 2007

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sábado, 19 de novembro de 2011

Violência urbana

   Maria fazia, como todos os dias, antes de sair de casa, sua oração ajoelhada em frente do oratório. Tendo Santa Rita de Cássia como protetora, ela perdera a esperança no ser humano, mas não na vida, mesmo sabendo ser difícil desassociar uma coisa da outra. Muito cedo perdera o marido atacado por cirrose hepática. Sozinha, ela criara os três filhos e por deixá-los a sós, para trabalhar, os perdera para o crime. Bola era o único filho vivo, mas havia dez anos que não o via, desde que ele fugira de casa.
   Ao sair de casa, Maria se benze fazendo o sinal da cruz e beijando a medalha de Santa Rita que traz sempre consigo. Ela se dirige ao ponto para tomar o ônibus que a levará a Rua Cascalho.
              
   Rua Cascalho cedo da manhã. O silêncio imperava. De vez em quando se ouvia o vento que trazia um pouco de umidade. Amanhecia seco. Do nada surge um carro em alta velocidade. O barulho da frenagem dos pneus no asfalto interrompe o silêncio.
   - Porra Neto estacione o carro próximo da saída. Que merda cara, você quer nos ferrar?
   - Calma Paco! Você não está falando com qualquer um não.
   - Bola passa as máscaras. Apressa-se porra. Vamos cacete, isso aqui vai ser um assalto, não um piquenique de fim de semana com a família. Atenção, quando entrarmos quero todos com as máscaras. Neto deixa o motor ligado. Bola, você fica com o caixa... Não, você é muito gordo para isso. Neto, você fica com o caixa, e revolver apontado para cabeça dele, qualquer movimento, você estoura os miolos dele. Bola, você fica na porta vigiando. Vamos!
   Os três entraram surpreendendo o caixa e o atendente. Neto já havia pulado o balcão e estava com o revolver apontado para cabeça do caixa. Bola estava na porta da loja desempenhando a sua função. Paco estava com o atendente que lutava desesperadamente para se desvencilhar.
   - Que merda! O que este prego tem, fumou bosta de gado? – Paco dá uma rasteira no atendente levando-o ao chão. Com o joelho sobre o seu peito e o revolver enterrado na sua boca, ele grita:
   - Quieto. – Repetiu a frase só que pausadamente.

   Maria já estava no ônibus, um ponto antes de descer ela tem a impressão de que uma voz sussurrava aos seus ouvidos: “não desça!”. A voz era doce e tinha hálito de rosas. Ela não dá ouvido. O cheiro de rosas aumenta, tem a impressão de estar num roseiral. Ela desce.
   Em um momento de descuido, Paco só teve tempo para sentir o chute na região genital. A dor era intensa, mas mesmo assim ele engatilhou a arma, mirou no atendente e, no momento do disparo, sentiu um impacto no ombro.
   - Você tá louco Paco. Estamos aqui para roubar não assassinar. - Neto esbraveja após se chocar com Paco.
   Não ouve tempo de evitar o disparo. A bala seguiu seu destino. Passou de raspão pelo atendente, atravessou a porta de vidro assustando Bola, e acertou em cheio, no outro lado da rua, Maria que a pouco havia descido do ônibus. Ela levou as mãos ao peito e, mergulhada em sangue, desmaiou. Em poucos segundos estava morta. Rodeada por rosas brancas, ela acordou no colo de Santa Rita de Cássia. Alcançou, enfim, para sempre, a paz.
   - O que está acontecendo aí, cara? Porra, tem um presunto do outro lado da rua. Melou, melou. Que merda! – Bola assustado começa a andar em círculos, e só se deu conta que havia outro corpo no chão quando tropeçou nele, desabando de uma vez.
   Após o choque que levou de Neto, Paco disparou de novo. A bala alcançou o atendente antes dele atravessar a porta de vidro, estilhaçada pelo primeiro tiro, e cair na calçada da loja. A última imagem, antes de morrer, que viu, foi um corpo imenso que desabava sobre ele. Era Bola que acabara de tropeçar.
   - Que está acontecendo aí, isso aqui é um assalto ou uma carnificina? – Interroga Bola, aturdido, aos seus amigos.
   O imprevisto havia acontecido e a vida de cada um deles estava em suas mãos, cabia a cada um tomar a decisão. Paco havia tomado a sua e, com a sua decisão, mudou o destino de todos. Após Paco amarrar o caixa, Neto pegou sua arma que havia caído no choque. Com aquele movimento, Neto selou seu destino. Paco não hesitou quando viu Neto com a arma na mão. Apontou-lhe seu revolver sem esboçar nenhum sentimento, a não ser raiva. Instantaneamente, Neto também lhe apontou a sua. Os dois frente a frente, de arma em punho, duelavam.
   - Seu merda, por que atravessou o meu caminho? – Paco esbravejou.
   - Não havia necessidade de matá-lo. – Neto demonstrava serenidade.
   - Agora o bostinha vai dar um de bom samaritano. O merdinha escolheu o crime como opção de vida e agora se acha defensor dos fracos e oprimidos. Há, há, há, me poupe bosta ambulante.
   - Ele é um ser humano...
   - Chega de bobagens, seu riquinho de merda. Por que então você está aqui?
   - Você sabe muito bem, Paco. A culpa é sua.
   - Não me culpa pela tua escolha, seu merdinha filho de papai. O seu erro é fruto somente da sua escolha. Você que subiu o morro atrás de drogas, não fui eu que desci.
   - Meu fascínio pelo crime foi devido à ilusão que você me passou...
   - Chega desse papo. Você já me atrapalhou muito.
   - Se atrapalhei é porque não havia necessidade de você tirar a vida do cara.
   - Não havia, não havia. – Paco imita a voz de Neto. – Chega de bobagens. Para você que nasceu bem, afinal seus pais são ricos, é fácil ter dó dos outros. E eu que vi só pobreza, pergunta-me se alguém teve dó de mim, se teve dó dos meus pais. Meu pai, aos trinta e cinco anos, foi mandado embora do emprego, não conseguiu outro porque estava velho e, além disso, era discriminado por ser negro e favelado...
   - Isso não lhe dá o direito de matar alguém.
   - Cala a tua boca que eu ainda não terminei. Envergonhado, meu pai abandonou a família, entregou-se a bebida e morreu. Alguém teve dó dele? Não. Vivemos num mundo egoísta, onde ninguém dá a mínima para sua dor. Minha mãe foi obrigada a trabalhar de empregada doméstica. Um mês, exato um mês de trabalho, o sacana do seu patrão tentou estuprá-la. Ela o denunciou, o delegado disse que não podia fazer nada, pois ela não tinha testemunha. Na segunda tentativa de estupro, ela o matou. De desgosto, minha mãe, morreu na prisão. Aos dez anos, sozinho no mundo, não tive assistência do estado, só quem olhou para mim foi o traficante da favela que eu morava. E estou aqui vivenciando minha dor todos os dias e você vem me falar de dó. Só há um sentimento em mim: “Ódio”. Agora abaixa sua arma.
   Foi o erro de Neto. Ao abaixar a arma, Paco com um tiro estourou seus miolos. Caído no chão, como último espasmo, riu. Ao se virar, Paco percebeu que ao cair, Neto soltou-se de sua arma, e esta já estava na mão do caixa que havia se soltado das cordas. Paco só sentiu o impacto das balas no seu corpo para perceber que chegara seu fim. Disse suas últimas palavras:
   - Seu merda.
   Bola, desesperado, entrou na loja quando foi surpreendido pelo caixa que disparou sua arma, mas não tinha mais balas. Riso sarcástico, Bola abaixou-se, encostou seus lábios próximos da orelha do caixa e sussurrou:
   - Seu terror vai começar agora. Sabe por que eu estava lá fora? Porque eles tinham medo de eu estragar tudo, pois dos três eu sou o mais malvado.
   O caixa tentou falar alguma coisa. O medo o impediu e ele engasgou com sua própria saliva.
   - Eu quero a chave do cofre. – Agora Bola gritava.
   - Não está comigo. – O caixa conseguiu atinar as palavras.
   A orelha esquerda do caixa foi arrancada, com um tiro a queima roupa, dado por Bola.
   - Eu quero a chave do cofre.- Disse Bola aos berros.
   - Não...
   Bola não deixou ele completar a frase e deu-lhe um tiro na perna esquerda. Quando Bola lhe apontou a arma na direção da sua cabeça, o caixa apontou à esquerda do balcão. Era o local onde estava a chave.
   - Imbecil, não havia necessidade de lhe arrancar a orelha e nem quebrar sua perna. Vou lhe aliviar a dor. Vá para o inferno!
   O estampido do descarrego da arma é ouvido em toda a loja. Bola abre o cofre, põe tudo que tem valor numa sacola e sai em disparada com o carro. Após meia hora dirigindo, ele liga o rádio do carro:
   “Aqui é Amari Terra falando da periferia de São Paulo. Mais um assalto seguido de morte. Por que São Paulo está violenta? A resposta talvez esteja na impunidade que os infratores gozam. Em um país onde os mandatários, que são responsáveis em manter a ordem e a lei, são os primeiros a deixar roubar ou, eles próprios, a roubarem. Em um país onde deputados são pego em ato de corrupção, absolvidos pelos seus pares, só pode passar a sociedade que o crime compensa. Daí advém toda violência que nasce e cresce assustadoramente em São Paulo. Amari Terra falou para o programa Violência Urbana direto da periferia de São Paulo. Bom Dia”.
   - Seus trouxas. – Bola desligou o rádio. 

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Cuidado com o que pede a Deus, senão adeus

     Diz o dito popular que a curiosidade matou o gato, mas cá pra nós, se não fosse a curiosidade, não a do gato é lógico, mas sim a do homem, hoje estaríamos a cozinhar em forno a lenha, a escrever em pedras e a ler e comer com o lume da candeia, e indo mais longe, repito, se não fosse a curiosidade humana em saber de onde viemos e para onde vamos, a saber, não teríamos descoberto Deus, pois de nós ele há muito tempo sabia, afinal tudo que é havido e tido é por obra dele.
     Nós escritores temos a curiosidade no sangue, pois de onde tiraríamos as personagens senão curiando os outros, afinal escrever é cochichar por palavras a vida dos outros. Outro dito popular diz que quem cochicha o rabo espicha. Como a curiosidade é sempiterna em relação aos outros, quer entre escritores ou não, nunca reparei o quanto espichado se encontra o meu rabo, se ele em mim houver.
     Por isso, nobre leitor, o convido a espichar o pescoço para dar uma curiada em José e Maria que neste exato momento travam um diálogo existencial. Adentramos a casa deles, mais precisamente o seu quarto. Veja caro leitor, Maria está nua, quase em prantos; José está nu, totalmente em prantos, cabisbaixo, a olhar por entre suas pernas, Ele, esmorecido, mole, motivo de suas lágrimas e a das quase de Maria.
     “De que me vale tuas lágrimas José, diz Maria”. As lágrimas não são para tu, mulher, mas sim por Ele, por Ele estar morto, inútil. “Morto estás tu, homem”. Ele pode estar morto, mas eu não, mulher. “Estando Ele morto de nada me vale você vivo”. Como diz, mulher. “Se tu não podes matar minha fome, morta estarei eu, homem”. Então é para isso que te sirvo. “Serve-me também para fazer e guardar as compras, abrir uma garrafa, uma lata; mas de que me vale a comida que me entra pela boca se do outro alimento que aviva a alma, tu não me tens serventia”. Agora minhas lágrimas são pelas tuas palavras, mulher. “Lágrimas, lágrimas...”. Não grite, mulher. Alguém pode ouvir-nos. “Deixe ouvir-nos, quem sabe não estejam passando o que estamos passando”. Se estiverem não ouço gritos. “E eu lágrimas”. O que tu queres que eu faça. “Toma catuaba, coma amendoim...”. Eu já fiz isso. “Então, homem, reza por um milagre”. Que Deus te ouça, que Deus te ouça.
     Nós humanos, incluso o escritor destas linhas, achamos que Deus esteja a resolver os problemas da carne, como se os da alma não o desse tanto trabalho. Se assim ele agisse, cegos enxergariam, aleijados andariam, apesar de que a igreja católica vende o milagre para salvação tanto anímico quanto corpóreo, e hoje, como tudo evolui, são os evangélicos que fazem, por si próprio, o próprio milagre.
     Deixando de lado o adendo que em nada esclarece a história, seguimos curiando e cochichando, posto que não morremos por não sermos gato, e nem o rabo espichará por rabo não termos, ainda que em nossa terra, mulher para ser gata tem que ter um belo rabo, mas isso é outra história.
     Fosse como fosse, lá estava Maria de joelhos a rezar, enquanto José, no banheiro, folheava uma daquelas revistas em que gatas, ou seja, mulheres mostravam os atributos que tão bem é a cara do Brasil, e a Ele elevava quando Ele vivo era. Caro leitor importa mais para nossa história saber se as preces rogadas aos céus por Maria serão atendidas do que a mão-de-obra que José está tendo no banheiro, portanto curíamos Maria.
     “Pai elevadíssimo que estás no céu como na terra, criador de tudo que há, fizeste, por bem, ao criar o macho ter criado a fêmea, posto que tudo é dual. Pai, por isso lhe peço ajuda, faça com que meu marido volta a ser o que era antes, ou seja, fazei com que Ele renasça, porque se assim não for, morta sempre estarei, ou então, Pai, leva-me para a morada eterna”.
     Como não podemos curiar o que Deus faz por ele estar em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum, por mais paradoxal que seja, ou seja, se ele está, como ao mesmo tempo pode não estar. Para que fique entendido, ele deixa de estar, mesmo estando, quando nós nele não acreditamos. Posto isto, é dito que ele escreve certo por linhas tortas, então curíamos José para ver se as linhas tortas têm a certeza da escrita.
     “Mulher, milagre, Ele está vivo de novo. Graças a Juliana Paes”. Não blasfema, homem. O milagre é de Deus. “Sim, e que barro maravilhoso ele deve ter usado para fazê-la”. Foi minhas preces, tolo homem. Joga a revista fora. Deus pôs as mãos sobre tu, quero dizer, sobre Ele. “Não importa se foi Deus ou a deusa, o que importa é regalarmos”.
     Caros leitores cabem a nós, agora, deitarmos as pálpebras, pois se assim não fizermos, não estaremos mais matando nossa curiosidade, mas sim praticando voyeurismo. Deixamos José fazer uso do ressuscitado e Maria tirar proveito do mesmo, mas se há algum voyeurista entre os meus leitores, que fique à vontade e se apeteça, quanto a mim, eu darei aos olhos o desejo do sonolento, o descanso. Por isso não haverá nenhum relato do regalo dos dois, deixo a cargo da imaginação de cada um.
     Como foi dito que Deus escreve por linhas tortas, e que ele está mais a cuidar dos problemas da alma do que os da carne, o que o levou a ressuscitar o quê morto em José estava. Dito isso, cabe a nós investigarmos. Como já passaram mais de dez horas que José e Maria estão trancados, houve tempo suficiente para que eles regalassem, e como não ouvimos mais gemidos, nem ais e nem uis, abrimos os olhos e voltamos a curiar.
     Lá está Jose, feliz, com Ele ainda hirto após tantas horas de regalo; isso só é humanamente possível devido aos milagres de Deus. No seu rosto permanecia um sorriso brando, tal qual no de Lázaro ao ver o mundo novamente após Jesus tê-lo ressuscitado. No rosto de Maria havia uma serenidade, um contentamento desenfreado, um esticar de lábios de uma orelha a outra, tal qual criança sobre bolas de sorvete, com a boca lambuzada pela massa, a escorrer gelada pelo queixo.
     A história poderia terminar aqui com um final feliz, mas como sabemos que a vida está mais para um drama shakespeariano do que um romance açucarado, vide a história de Jesus, temos de desentortar as linhas para ver o quanto Deus escreve certo.
     Maria, mesmo com a fome saciada, queria mais e mais. A fome como a sede tem de ser controlada, pois o sedento de tanto ir ao cântaro acaba quebrando-o, e o esfomeado empanzinado.
     Ouvem-se, novamente, os gemidos de Maria. Mas os uis e ais agora eram de dor. Uma dor forte no coração. O regalo em demasia, a sede em excesso, a fome desenfreada fez com que Maria fosse ao cântaro, ao prato e a cama sem rédeas, a levando à morte. José chorava, não a morte de Maria, pois com os atributos que ele tinha, muitas Marias haveria de ter. Mas não, o seu choro era por os atributos não mais ter, por Ele morto, novamente, estar. Não houve outra solução para José do que pegar a revista e esperar que Juliana Paes fizesse, novamente, o milagre. Ele fez uso das mãos, para folhear a revista e para tentar dar vida a Ele.

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Vindo à luz - Final


    Pesadelos? Visões? Delírios alcoólicos? Quanto mais pergunta fazia a si, mais acelerado girava a sala, mormente se era sobre o ocorrido ali; contudo ao aquiescer os seus pensamentos, a sala parou de girar, e ele tomou o seu caminho.

    Desolado pelas vidas perdidas, o médico junta as palmas das mãos, encosta as pontas dos dedos indicadores nos lábios, descerra os olhos, pede o desfibrilador e o usa mais uma vez. A descarga elétrica no tórax da quarta vítima faz com que o seu corpo erga-se alguns milímetros e desaba em seguida na maca.
    Com o olhar consternado, no aparelho que mede os batimentos cardíacos, o médico vê no monitor a linha que seguia reta dar um salto, subindo e descendo ininterruptamente. A vida havia tomado o caminho de volta àquele corpo.

    A inquietude não o atacava quando estava nervoso, nem lhe tirava o discernimento para o julgamento, mesmo que fosse somente a tristeza que ele carregava nos olhos por ter provocado a morte dos seus três amigos. Havia marcas que ele levava consigo, invisíveis à primeira vista, inapagáveis, aprisionando-o, fazendo se perguntar o porquê de ter sobrevivido.
    Havia, também, uma mansidão oculta nos seu olhar; uma quietude lânguida perscrutando a sua alma; uma paz de espírito desejando aflorar, porém, um sopro duvidoso silabava na sua mente, mais do que o julgando, o acusando e o condenando. Sem quem o defendesse e lhe desse respostas, ou seja, absolvição, ele vivia em estado de nervosismo constante.
    Ele entrou em uma cafeteria e, sorrindo para si, pensou que as dúvidas tidas antes o levariam a um bar. Ao entrar, ele olhou de soslaio, reparou que o ambiente era lúgubre; diversas velas bruxuleavam em candelabros de bronze, o ar era impregnado com aroma de incenso de sândalo e um balsâmico desconhecido de seu olfato. Ele sentou em uma cadeira rústica - cuja madeira exalava o seu perfume como se tivesse sido cortada agora -, do lado esquerdo, contrário a porta de entrada. Na penumbra, ele não conseguiu divisar a fisionomia do atendente que lhe trouxe o chá pedido, mormente o mesmo estava encapuzado. Ele fechou os olhos, levou a xícara ao nariz para sentir o aroma do chá, era perfumado; provou-o degustando o seu sabor floral e adocicado. Teve a impressão de estar tomando a bebida dos deuses. O chá lhe trouxe uma tranquilidade nunca antes experimentada, como se lhe tirasse todas as dúvidas, absolvesse-o. Foi uma sensação estranha, de leveza, como se seu corpo tivesse perdido toda a massa e somente lhe restasse a alma. Ele levantou para perguntar ao atendente o nome do chá. Repentinamente, ele não conseguiu enxergar mais nada, uma luz rara e intensa irradiava do corpo do atendente.
    Os seus olhos não havia se acostumado ainda com a mudança de luminosidade, da penumbra angustiante à claridade ofuscante; porém, ao acostumar-se, seu cérebro foi delineando a imagem diante de si. Ele tentou correr, mas suas pernas não obedeciam ao seu desejo. Prostrou na cadeira com os cotovelos sobre os joelhos, as palmas das mãos sob o queixo e fitou os seis velhinhos diante de si, sentados a sua volta, a meia altura. Neste momento ele percebeu que andava em círculos e caía sempre no mesmo lugar. Um filete aquoso e morno lhe descia por entre as coxas como se uma veia houvesse estourado e expelisse em gotas o sangue. Ele abaixou a cabeça para localizar o sangramento, pois não sentia nenhuma dor. Fruto do seu medo, a urina lhe escorria pelas pernas sem ele ter percebido.

    Ele acordou assustado, sentindo golpes de água fria lhe tomando o rosto, e um filete de água morna lhe escorrendo pelas coxas. Desperto, ele vê a sua esposa agachar com dificuldade colocando o balde vazio no chão, erguer-se apoiando na cabeceira da cama, pois a barriga de, aproximadamente, quarenta semanas era um peso insuportável para o seu corpo magérrimo. Inquietou ao vê-la se dirigir a cozinha, pegar o bule esfumando e derramar em uma xícara um líquido que devido à distância não dava para definir cor e sabor. Apoiando-se no criado-mudo, ela sentou na cama oferecendo-lhe a xícara, pediu-lhe desculpas por ter usado água fria após várias tentativas de acordá-lo, pois esta foi a solução mais plausível devido a urgência de despertá-lo.
    No primeiro momento, ele não sentiu nem o aroma, nem o sabor do chá, sem saber se fora devido ao susto do despertar, ou ao medo pelo pesadelo. Refeito, os seus sentidos não o deixaria despercebido. A cor do chá era róseo, o aroma perfumado, o sabor floral e adocicado. Assustado, por o chá ter as mesmas características do que tomou na cafeteria, ele, desesperadamente, quis saber de sua esposa aonde ela o tinha conseguido. Ela lhe disse que seis velhinhos o havia ofertado como agradecimento por ela ter lhes dado esmolas. Ele não teve tempo de digerir aquela informação, pois a sua esposa, devido ao esforço ao jogar o balde de água fria, segurava com as duas mãos a barriga, e, assustada, olhava para o chão a poça de água formada em volta de seus pés. A bolsa havia estourada, sua filha vinha à luz. 

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domingo, 6 de novembro de 2011

Vindo à luz - 2ª parte

   Em volta da mesa, no chão, garrafas e mais garrafas vazias, sobre ela, quatro copos com espumas transbordando pelas bordas, e, em direção aos copos, quatros mãos que os suspendem no ar brindando a chegada da filha de um deles. A alegria era extremada, incontida e alcoólica. Ali, a alegria era individual, cada um estrangeiro em si não se reconhecia. Nada mais humano do que propor um desafio, ultrapassar os seus limites, como se, alcoólicos, já não os tivessem ultrapassado. A comemoração pela chegada da filha de um deles ficou em segundo plano.
     Quarenta, sessenta, oitenta; os batimentos cardíacos foram subindo de acordo com o aumento da adrenalina provocado pela alta velocidade dos carros, pelo desafio proposto, pela sensação de não haver limites intransponíveis. Noventa, cem; o indicador do velocímetro dos carros encaminhavam-se, lestamente, para a direita; nos olhos de cada um o sentimento de vitória. Cento e cinquenta, duzentos, duzentos cinquenta; quando a ultima marcha foi engatada, o pedal do acelerador atingiu o assoalho do carro, ele anteviu a sua derrota. Sua esposa, com sua filha no colo, chorava apoiada na lápide do seu túmulo; emocionado, ele perdeu o controle do carro. Desgovernado, o carro, ao bater em uma pedra no acostamento, voou sobre a mureta de proteção, arrancando a grama da ilha que separa uma pista da outra, chocando-se contra a mureta de proteção da pista inversa, atravessando-a e parando destruído ao chocar-se contra a árvore. Os outros três carros não tiveram sorte melhor.
     Atento à pista, o bombeiro corria em velocidade controlada, desviando com segurança dos automóveis à frente; logo atrás, a ambulância o seguia, também, em velocidade controlada, desviando dos outros carros, com a sirene ligada. Ao chegar, os paramédicos tentaram salvar uma das vítimas; não conseguiram, pois ele não agüentou os ferimentos. O segundo, com as veias do pescoço cortadas pelos cacos de vidro do para-brisa, morreu instantaneamente. O terceiro, apesar dos paramédicos tentarem a ressuscitação, teve, apenas espasmos como se tivesse vivo; não estava. O quarto, agonizando, acabara de perder a pulsação. Algum sinal de vida, pergunta o médico; Nenhuma, responde a enfermeira; Desfibrilador, vamos lá. No três. Um, dois, três, já. Algum sinal, pergunta o médico; Nada, responde a enfermeira; Mais uma vez; Nada; De novo; Nada; Outra vez. A enfermeira balança a cabeça negativamente. Quando já estavam desistindo dele, o médico ergue a cabeça para o céu e implora, Me ajude, por favor. Em desânimo total, lânguido, quase em prantos, ele vê a derrota eminente. Quatro vidas, diz amiúde. Cerra os olhos como quem estivesse esperando um milagre.

    Após ele contar a sua história, os anciões lhe pede para definir, pelo que sentiu, o que era lá fora, lá embaixo e ali dentro. Então ele lhes disse, Lá embaixo é o que há de mais humano, o individualismo; lá fora é o que há de mais divino, a totalidade; e aqui é a passagem e cabe a vocês me julgaram e indicar o caminho. Refletindo, um dos anciões lhe disse, Isso aqui não é um julgamento, mas um atendimento a um pedido de ajuda de alguém que acabou de nascer e lhe ama muito, cabe a você decidir qual caminho seguir. Dizendo isso a sala volta à penumbra e começa a girar.

Continua.

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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Vindo à luz - 1ª parte



“Perdoamos uma criança com medo do escuro. A grande tragédia da vida é o homem ter medo da luz – Platão”

     Após o nascimento de sua primeira filha, ele havia sido tomado por uma alegria desmesurada e incontida de tal forma que somente havia uma maneira de extravasá-la, bebendo cerveja. E ele bebeu como se seu corpo estivesse sequioso.
     Prostrado na cadeira com a cabeça e os braços arcados para trás tentando revelar com a mente o que os olhos filmam e não conseguindo por a mesma estar entorpecida, e, também, em razão de o ambiente estar na penumbra devido à luminosidade vindo de fora entrar, somente, pelas frestas do que parecia ser janelas e portas, - sabendo-se que a visão precisa da luz para enxergar tanto quanto o fogo precisa do oxigênio para inflamar – ele, em volta de si cercado por garrafas vazias de cervejas, – não que as tivesse visto, mas sim as sentido com os pés, pois não é apenas com os olhos que se enxerga, porém com todos os sentidos – vê que tudo em volta de si girava, sem discernir se era fruto da sua imaginação devido à embriaguês ou era a realidade nua e crua. Trôpego, tateando a esmo na tentativa de enxergar, ele se encaminha para o que parecia ser uma porta, a ultrapassa e lá fora sente uma luminosidade intensa ofuscando a sua visão, não lhe permitindo enxergar e nem saber se estava sendo visto. A incompreensão lhe invade a alma o deixando confuso, visto que lá fora, no ar, permanecia um aroma de rosas, o ambiente era acolhedor e calmo. Aos poucos, ao discernir cores e formas, ele percebe que tudo, lá fora, é arredondado em cores pastel no tom azul, rosa, creme e uma maior predominância de branco. Sem ver, mas sentindo, algo o puxa para dentro, o prostrando na cadeira. Se não fossem as garrafas vazias e a cadeira, ali dentro não havia formas, a janela não era janela, e nem tampouco a porta era porta; o cheiro do seu corpo que exsudava de medo era o único aroma sentido, se houvesse cores, e não havia, era difícil defini-las. Ali dentro lhe parecia uma passagem, uma intenção de existir, e lá fora o existido, permanente. Se assim fosse, onde estaria o não existido, o impermanente, pensou. Ao esbofetear, levemente, o rosto por estar filosofando, sem ver, mas sentindo, algo ou alguém o puxa para baixo. O seu corpo exsudava, não de medo, mas devido ao calor desumano que fazia ali embaixo, dando um brilho a sua pele, cor e formas aos seus olhos, o descaracterizando, assemelhando-o a uma fera bestial. Ali embaixo, tudo eram rubro-negro, disforme, e o único cheiro que exalava era sulfúreo, o caos, o impermanente, o não existido ali permanecia. As vozes de desespero gritando por socorro eram plausíveis e compreensíveis, - por um momento ele pensou ter ouvido as vozes dos seus três amigos – e antes que sua voz fizesse parte daquele coro que gritava por socorro, ele é trazido de volta. Prostrado na cadeira como se dali nunca tivesse saído, ele sente passos vindos em sua direção, e, sem saber como, começa a enxergar na penumbra. Ele se vê cercado por seis anciões sentados em uma bancada a meia altura, e o mais estranho é que dos seus corpos irradiam uma luz incomum. Seriam extraterrestres, pensou. Sim, se você enxergar a terra fora do todo, respondeu um dos anciões, mas se a vê como parte do todo, somos seres divino, pois cada parte existente é divina. Como? Ele pensou. Quando você se acha importante, você é humano, lhe respondeu um ancião, mas quando você percebe que é o outro que é importante, você deixa de ser humano e passa a ser divino, e se o outro assim, também, lhe perceber vocês se unem, formam o todo, ou seja, atingem a totalidade. Lembre-se, nenhum ser é mau o tempo todo para permanecer mau a vida toda, disse-lhe o terceiro ancião, a bondade advém da praticidade, e ela surge de dentro de si para fora de si, e não o contrário. E o que é aquilo lá fora que eu vi, pensou, a bondade? Cabe a você nos dizer, disse-lhe o quarto ancião. E lá embaixo, eu ouvi vozes de desesperos, vozes que me assustaram, pensou, de quem são? O quinto ancião lhe respondeu igualmente ao quarto. Enfim, ele pensou, o que estou fazendo aqui. É o que queremos saber, diga-nos, por fim disse-lhe o último ancião. Como se eles não soubesse, ele não pensou isso, mas intentou pensar.

Continua.

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