Em volta da mesa, no chão, garrafas e mais garrafas vazias, sobre ela, quatro copos com espumas transbordando pelas bordas, e, em direção aos copos, quatros mãos que os suspendem no ar brindando a chegada da filha de um deles. A alegria era extremada, incontida e alcoólica. Ali, a alegria era individual, cada um estrangeiro em si não se reconhecia. Nada mais humano do que propor um desafio, ultrapassar os seus limites, como se, alcoólicos, já não os tivessem ultrapassado. A comemoração pela chegada da filha de um deles ficou em segundo plano.
Quarenta, sessenta, oitenta; os batimentos cardíacos foram subindo de acordo com o aumento da adrenalina provocado pela alta velocidade dos carros, pelo desafio proposto, pela sensação de não haver limites intransponíveis. Noventa, cem; o indicador do velocímetro dos carros encaminhavam-se, lestamente, para a direita; nos olhos de cada um o sentimento de vitória. Cento e cinquenta, duzentos, duzentos cinquenta; quando a ultima marcha foi engatada, o pedal do acelerador atingiu o assoalho do carro, ele anteviu a sua derrota. Sua esposa, com sua filha no colo, chorava apoiada na lápide do seu túmulo; emocionado, ele perdeu o controle do carro. Desgovernado, o carro, ao bater em uma pedra no acostamento, voou sobre a mureta de proteção, arrancando a grama da ilha que separa uma pista da outra, chocando-se contra a mureta de proteção da pista inversa, atravessando-a e parando destruído ao chocar-se contra a árvore. Os outros três carros não tiveram sorte melhor.
Atento à pista, o bombeiro corria em velocidade controlada, desviando com segurança dos automóveis à frente; logo atrás, a ambulância o seguia, também, em velocidade controlada, desviando dos outros carros, com a sirene ligada. Ao chegar, os paramédicos tentaram salvar uma das vítimas; não conseguiram, pois ele não agüentou os ferimentos. O segundo, com as veias do pescoço cortadas pelos cacos de vidro do para-brisa, morreu instantaneamente. O terceiro, apesar dos paramédicos tentarem a ressuscitação, teve, apenas espasmos como se tivesse vivo; não estava. O quarto, agonizando, acabara de perder a pulsação. Algum sinal de vida, pergunta o médico; Nenhuma, responde a enfermeira; Desfibrilador, vamos lá. No três. Um, dois, três, já. Algum sinal, pergunta o médico; Nada, responde a enfermeira; Mais uma vez; Nada; De novo; Nada; Outra vez. A enfermeira balança a cabeça negativamente. Quando já estavam desistindo dele, o médico ergue a cabeça para o céu e implora, Me ajude, por favor. Em desânimo total, lânguido, quase em prantos, ele vê a derrota eminente. Quatro vidas, diz amiúde. Cerra os olhos como quem estivesse esperando um milagre.
Após ele contar a sua história, os anciões lhe pede para definir, pelo que sentiu, o que era lá fora, lá embaixo e ali dentro. Então ele lhes disse, Lá embaixo é o que há de mais humano, o individualismo; lá fora é o que há de mais divino, a totalidade; e aqui é a passagem e cabe a vocês me julgaram e indicar o caminho. Refletindo, um dos anciões lhe disse, Isso aqui não é um julgamento, mas um atendimento a um pedido de ajuda de alguém que acabou de nascer e lhe ama muito, cabe a você decidir qual caminho seguir. Dizendo isso a sala volta à penumbra e começa a girar.
Continua.
Imagem clique AQUI
