Álgido, o vento fraco teve força o suficiente para arrancar o galho seco do jatobá, imponente, plantado na porta do asilo e levá-lo de encontro à janela, tirando-a da sua letargia mórbida. Sentada na espreguiçadeira de jacarandá com uma colcha de fuxico a cobrir suas esquálidas pernas do tempo gélido, ela não se assustou com o barulho, porém, deu um suspiro de quase abandono; o gato encolheu-se sobre os seus pés enrugados rosnando de medo. Em cima da mesa, forrada com uma toalha trabalhada em vagonite, havia um prato de mingau de milho mofado há muito tempo, no esquecimento do ato de ser comido. O silêncio ali somente era quebrado pelo assovio do vento. O relógio marcava sempre às quinze horas de um dia incerto. De quando em vez um vento mais forte fazia com que as cortinas bordadas em recilier bailassem no quarto como fantasmas atormentados a espera do céu. O bailado das cortinas era o único momento em que ela se permitia um sorriso, silente, no rosto macilento, dando viço aos seus olhos sofridos. Quando as cortinas tocavam as linhas tortuosas marcadas pelo tempo em seu rosto, ela se lembrava dos beijos prometidos dos netos que se foram, dos abraços esquecidos na infância perdida dos filhos que a abandonara, e o último beijo na última primavera do marido que não chegou a ver o último verão de felicidade. Desse dia em diante, quando a vida lhe fugiu, ela invernou aos poucos até chegar ao estado em que se encontrava em uma estação chamada saudades. Outonal, ela foi à janela e viu as árvores em tons amarelados, o céu gris e uma tristeza contida nos rostos das pessoas que formigavam nas ruas esfumando-se entre as esquinas. O outono sempre lhe vinha como uma quase morte, sendo um pouco otimista, o que lhe era raro, o considerava como uma semi-vida, porém, o verdadeiro significado era de abandono. As lágrimas esfumavam-se dos seus olhos; o gato, companheiro desde sempre e ainda, aninhou-se em seu colo cerrando os olhos; os dela há muito estavam cerrados.
Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
quinta-feira, 29 de abril de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Fábrica de monstro
Sexta-feira, desprotegido, as frustrações da semana era agasalho. Eu chego a minha casa cansado. Esposa na escola, filha dormindo. Campainha quebrada, eu ouço alguém chamar. Uma criança prostrada na porta com um olhar triste conta-me que havia jogado um pé de sandália, sem querer, na minha garagem e que havia chamado e como ninguém atendeu, ele estava vindo aquele horário. Não a achei, explico-lhe que talvez minha esposa tivesse guardado e que ele voltasse amanhã.
Anoitecia, o frio era intenso. A minha esposa havia chegado. Conversamos amenidades. Era madrugada quando fomos deitar. Aconteceu de eu esquecer de relatar sobre o pé de sandália.
Sábado de manhã. O sol nem havia surgido e a criança estava na minha porta com um pé de sandália na mão dizendo que era igual aquele a que ele havia perdido. Como minha esposa tinha saído cedo, ele ficou sem respostas. Chorando disse que seu pai daria uma surra, pois a sandália era para ele ir à escola de manhã e para seu irmão ir à tarde. Portanto além de apanhar eles teriam de ir descalços. Ofereci-lhe um par de sandálias novo. Ele recusou porque não o eximia do erro e seu pai pensaria que ele teria roubado.
Sentamos na escada da garagem e ele percebeu os jornais, as garrafas de alumínio e PET amontoados. Admirou eu ter a mesma profissão do seu pai e ser rico (coisas de crianças). Conta-me que seu pai era catador de lixo. Explico-lhe que eu separava meu lixo não orgânico e doava e se ele quisesse poderia levá-lo. Dois minutos depois ele chegou com um carrinho de mão.
Após chegar das compras minha esposa mostrou-me onde tinha guardado o pé de sandálias. No domingo vi a criança com sandálias nova, presente do pai por tê-lo ajudado na coleta de lixo. Dei-lo o pé de sandália e ele me falou que ia doá-lo para um colega de escola que estudava descalço. Saindo disse-me:
- Obrigado por ter me ensinado a valorizar a profissão do meu pai. A tua doação me ensinou a doar também.
FIM
A história acima é verdadeira, o final é fantasioso. Vamos aos fatos. Ao sair para a escola minha esposa deixou o pé de sandália na calçada, e alguém deve ter pegado. A criança por não ter achado apanhou tanto que no domingo ela me mostrou suas pernas. Marcas de cinto. A pobreza fabricando monstros.
Resolver o problema da desigualdade social para quê? Estaremos sempre construindo presídios para enjaularmos os monstros.
06/06/06
Anoitecia, o frio era intenso. A minha esposa havia chegado. Conversamos amenidades. Era madrugada quando fomos deitar. Aconteceu de eu esquecer de relatar sobre o pé de sandália.
Sábado de manhã. O sol nem havia surgido e a criança estava na minha porta com um pé de sandália na mão dizendo que era igual aquele a que ele havia perdido. Como minha esposa tinha saído cedo, ele ficou sem respostas. Chorando disse que seu pai daria uma surra, pois a sandália era para ele ir à escola de manhã e para seu irmão ir à tarde. Portanto além de apanhar eles teriam de ir descalços. Ofereci-lhe um par de sandálias novo. Ele recusou porque não o eximia do erro e seu pai pensaria que ele teria roubado.
Sentamos na escada da garagem e ele percebeu os jornais, as garrafas de alumínio e PET amontoados. Admirou eu ter a mesma profissão do seu pai e ser rico (coisas de crianças). Conta-me que seu pai era catador de lixo. Explico-lhe que eu separava meu lixo não orgânico e doava e se ele quisesse poderia levá-lo. Dois minutos depois ele chegou com um carrinho de mão.
Após chegar das compras minha esposa mostrou-me onde tinha guardado o pé de sandálias. No domingo vi a criança com sandálias nova, presente do pai por tê-lo ajudado na coleta de lixo. Dei-lo o pé de sandália e ele me falou que ia doá-lo para um colega de escola que estudava descalço. Saindo disse-me:
- Obrigado por ter me ensinado a valorizar a profissão do meu pai. A tua doação me ensinou a doar também.
FIM
A história acima é verdadeira, o final é fantasioso. Vamos aos fatos. Ao sair para a escola minha esposa deixou o pé de sandália na calçada, e alguém deve ter pegado. A criança por não ter achado apanhou tanto que no domingo ela me mostrou suas pernas. Marcas de cinto. A pobreza fabricando monstros.
Resolver o problema da desigualdade social para quê? Estaremos sempre construindo presídios para enjaularmos os monstros.
06/06/06
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