Diz o dito popular que a curiosidade matou o gato, mas cá pra nós, se não fosse a curiosidade, não a do gato é lógico, mas sim a do homem, hoje estaríamos a cozinhar em forno a lenha, a escrever em pedras e a ler e comer com o lume da candeia, e indo mais longe, repito, se não fosse a curiosidade humana em saber de onde viemos e para onde vamos, a saber, não teríamos descoberto Deus, pois de nós ele há muito tempo sabia, afinal tudo que é havido e tido é por obra dele.
Nós escritores temos a curiosidade no sangue, pois de onde tiraríamos as personagens senão curiando os outros, afinal escrever é cochichar por palavras a vida dos outros. Outro dito popular diz que quem cochicha o rabo espicha. Como a curiosidade é sempiterna em relação aos outros, quer entre escritores ou não, nunca reparei o quanto espichado se encontra o meu rabo, se ele em mim houver.
Por isso, nobre leitor, o convido a espichar o pescoço para dar uma curiada em José e Maria que neste exato momento travam um diálogo existencial. Adentramos a casa deles, mais precisamente o seu quarto. Veja caro leitor, Maria está nua, quase em prantos; José está nu, totalmente em prantos, cabisbaixo, a olhar por entre suas pernas, Ele, esmorecido, mole, motivo de suas lágrimas e a das quase de Maria.
“De que me vale tuas lágrimas José, diz Maria”. As lágrimas não são para tu, mulher, mas sim por Ele, por Ele estar morto, inútil. “Morto estás tu, homem”. Ele pode estar morto, mas eu não, mulher. “Estando Ele morto de nada me vale você vivo”. Como diz, mulher. “Se tu não podes matar minha fome, morta estarei eu, homem”. Então é para isso que te sirvo. “Serve-me também para fazer e guardar as compras, abrir uma garrafa, uma lata; mas de que me vale a comida que me entra pela boca se do outro alimento que aviva a alma, tu não me tens serventia”. Agora minhas lágrimas são pelas tuas palavras, mulher. “Lágrimas, lágrimas...”. Não grite, mulher. Alguém pode ouvir-nos. “Deixe ouvir-nos, quem sabe não estejam passando o que estamos passando”. Se estiverem não ouço gritos. “E eu lágrimas”. O que tu queres que eu faça. “Toma catuaba, coma amendoim...”. Eu já fiz isso. “Então, homem, reza por um milagre”. Que Deus te ouça, que Deus te ouça.
Nós humanos, incluso o escritor destas linhas, achamos que Deus esteja a resolver os problemas da carne, como se os da alma não o desse tanto trabalho. Se assim ele agisse, cegos enxergariam, aleijados andariam, apesar de que a igreja católica vende o milagre para salvação tanto anímico quanto corpóreo, e hoje, como tudo evolui, são os evangélicos que fazem, por si próprio, o próprio milagre.
Deixando de lado o adendo que em nada esclarece a história, seguimos curiando e cochichando, posto que não morremos por não sermos gato, e nem o rabo espichará por rabo não termos, ainda que em nossa terra, mulher para ser gata tem que ter um belo rabo, mas isso é outra história.
Fosse como fosse, lá estava Maria de joelhos a rezar, enquanto José, no banheiro, folheava uma daquelas revistas em que gatas, ou seja, mulheres mostravam os atributos que tão bem é a cara do Brasil, e a Ele elevava quando Ele vivo era. Caro leitor importa mais para nossa história saber se as preces rogadas aos céus por Maria serão atendidas do que a mão-de-obra que José está tendo no banheiro, portanto curíamos Maria.
“Pai elevadíssimo que estás no céu como na terra, criador de tudo que há, fizeste, por bem, ao criar o macho ter criado a fêmea, posto que tudo é dual. Pai, por isso lhe peço ajuda, faça com que meu marido volta a ser o que era antes, ou seja, fazei com que Ele renasça, porque se assim não for, morta sempre estarei, ou então, Pai, leva-me para a morada eterna”.
Como não podemos curiar o que Deus faz por ele estar em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum, por mais paradoxal que seja, ou seja, se ele está, como ao mesmo tempo pode não estar. Para que fique entendido, ele deixa de estar, mesmo estando, quando nós nele não acreditamos. Posto isto, é dito que ele escreve certo por linhas tortas, então curíamos José para ver se as linhas tortas têm a certeza da escrita.
“Mulher, milagre, Ele está vivo de novo. Graças a Juliana Paes”. Não blasfema, homem. O milagre é de Deus. “Sim, e que barro maravilhoso ele deve ter usado para fazê-la”. Foi minhas preces, tolo homem. Joga a revista fora. Deus pôs as mãos sobre tu, quero dizer, sobre Ele. “Não importa se foi Deus ou a deusa, o que importa é regalarmos”.
Caros leitores cabem a nós, agora, deitarmos as pálpebras, pois se assim não fizermos, não estaremos mais matando nossa curiosidade, mas sim praticando voyeurismo. Deixamos José fazer uso do ressuscitado e Maria tirar proveito do mesmo, mas se há algum voyeurista entre os meus leitores, que fique à vontade e se apeteça, quanto a mim, eu darei aos olhos o desejo do sonolento, o descanso. Por isso não haverá nenhum relato do regalo dos dois, deixo a cargo da imaginação de cada um.
Como foi dito que Deus escreve por linhas tortas, e que ele está mais a cuidar dos problemas da alma do que os da carne, o que o levou a ressuscitar o quê morto em José estava. Dito isso, cabe a nós investigarmos. Como já passaram mais de dez horas que José e Maria estão trancados, houve tempo suficiente para que eles regalassem, e como não ouvimos mais gemidos, nem ais e nem uis, abrimos os olhos e voltamos a curiar.
Lá está Jose, feliz, com Ele ainda hirto após tantas horas de regalo; isso só é humanamente possível devido aos milagres de Deus. No seu rosto permanecia um sorriso brando, tal qual no de Lázaro ao ver o mundo novamente após Jesus tê-lo ressuscitado. No rosto de Maria havia uma serenidade, um contentamento desenfreado, um esticar de lábios de uma orelha a outra, tal qual criança sobre bolas de sorvete, com a boca lambuzada pela massa, a escorrer gelada pelo queixo.
A história poderia terminar aqui com um final feliz, mas como sabemos que a vida está mais para um drama shakespeariano do que um romance açucarado, vide a história de Jesus, temos de desentortar as linhas para ver o quanto Deus escreve certo.
Maria, mesmo com a fome saciada, queria mais e mais. A fome como a sede tem de ser controlada, pois o sedento de tanto ir ao cântaro acaba quebrando-o, e o esfomeado empanzinado.
Ouvem-se, novamente, os gemidos de Maria. Mas os uis e ais agora eram de dor. Uma dor forte no coração. O regalo em demasia, a sede em excesso, a fome desenfreada fez com que Maria fosse ao cântaro, ao prato e a cama sem rédeas, a levando à morte. José chorava, não a morte de Maria, pois com os atributos que ele tinha, muitas Marias haveria de ter. Mas não, o seu choro era por os atributos não mais ter, por Ele morto, novamente, estar. Não houve outra solução para José do que pegar a revista e esperar que Juliana Paes fizesse, novamente, o milagre. Ele fez uso das mãos, para folhear a revista e para tentar dar vida a Ele.
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