Fevereiro de 1963 foi um dos meses mais quente do verão daquele ano. Fazia trinta graus na sombra, a cidade em peso estava no rio para refrescar. Armésio armara uma torre de madeira na margem do rio e instalara seus altos falantes, estava praticando seu hobby favorito. Tirava pilhéria do padre José, e este, devido sua sisudez e ignorância, espantara o coroinha que o ajudava e estava à procura de um outro até o substituto chegar. Deco, num dos momentos que saía de dia, destoava de todos. Trajado todo de preto, ele declamava um poema intitulado de a morte depois da vida. Era uma balburdia intensa, quanto mais ele gritava para ser ouvido, mais as pessoas vaiavam. Mas quando o ônibus vindo de Xique-Xique passou as margens do rio, Deco, finalmente, conseguiu declamar seu poema, pois toda a cidade havia se dirigido para a rodoviária, em busca de notícias para fofoca de fim de semana. Todos ficaram espantados quando um sujeito exótico, vestindo roupa multicolorida e espalhafatosa, com um andar para lá de feminino, desce, e mais espantados ficaram quando souberam que ele estava procurando o padre. Surpresos ficaram ainda mais quando descobriram que ele era o novo coroinha vindo a pedido do padre José, e indicado pelo padre Pedro da cidade de Sítio do Mato. As más línguas diziam que daquele mato saía coelho. Seu nome era Dandim.
Agosto de 1964, como legítimo baiano, curtia uma boa preguiça deitado na rede, quando fui acordado pelas piadas preconceituosas e pejorativas, vindas do alto falante do Armésio, sobre padres. Ele fazia isso de propósito, pois sabia que naquele horário o padre José passaria pela sua rua em direção a casa de Dandim para almoçar. Se um estranho visse a reação do padre José se espantaria, para nós de Barra a sua reação era normal, pois acumulador de inimigos, o padre os juravam de morte. Assim ocorreu com Deco um mês atrás. Vítima das brincadeiras de dois adolescentes, sabedores que ele era homofóbico e que Dandim nutria-lhe uma paixão, os pústulas surrupiaram um dos seus poemas e imitando sua letra induziu Dandim a ir ao seu encontro. A reação de Deco foi como de todo homofóbico. O surrou até perder suas forças. Padre José só veio saber três dias depois do ocorrido quando Dandim, depois de ter sumido, apareceu com algumas escoriações. Neste dia o padre fez um dos sermões mais duro. Seu ódio por Deco tomou proporções imensuráveis.
Pés ao vento e o resto do corpo enterrado na rede, fui acordado por latidos de cachorros que perseguiam uma carroça adentrando a cidade vinda de Mansidão. Minha sombra na calçada indicava que eram dezessete horas. O padre deveria estar atrasado, pois além da batina, ele estava com a estola branca e em passos apressados. Ao passar pela carroça, o sujeito que estava com as rédeas nas mãos não o percebeu e deu uma cusparada na sua estola. Mal chegara na cidade e fora, infelizmente, encontrar quem mais tinha tendência a arranjar desafetos. O sujeito, a primeira vista, me pareceu estranho. Ele tinha o hábito de mascar fumo e, devido a isso, uma cusparada gosmenta e volumosa de cor escura. Ao representante de Deus a mancha, deixada em sua estola branca, foi motivos para fazer daquele simples homem seu inferno. Esbravejando, o padre lhe fez juras de morte. O sujeito, sem entender o motivo da reação do padre, desceu, juntamente com sua mulher, e se apresentou. Para mim foi fácil me afeiçoar a ele. Pescador desde criança, ele gostava de pesca submersa. Seu nome era Evilásio e de sua esposa Evidália.
Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
quarta-feira, 14 de julho de 2010
domingo, 11 de julho de 2010
As histórias que o meu avô contava
1ª PARTE
Meu avô, descendente de índios, tinha um fôlego inacreditável. Reza a lenda que um dos seus filhos foi fecundado embaixo d’água. O nado para ele dava sentido a sua vida. O seu hobby favorito era contar histórias. Vê-lo nadar e ouvi-lo era, para mim, contemplar a sua beleza. Após atravessar o Rio Grande para se banhar nas águas do Rio São Francisco, ele se inspirava, ao sair d’água me levava no colo até a porta da minha casa e sentado numa roda de carro de boi usada como mesa, embaixo do pé de amêndoa, convidava-me para sentar no tamborete feito de cedro com acento de couro de boi chamando-me pelo meu apelido de infância por ele dado.
- Senta aqui Pelé que eu vou lhe contar a estranha morte do padre José.
Estamos no ano de 1960 na cidade de Barra, interior da Bahia. Como toda cidade do interior tem tipos esquisitos, Barra não seria diferente. Eles chegavam dos lugares mais longínquos em todo tipo de transporte. Uns viam a pé, outros de carroça, poucos de carro, alguns de ônibus e a grande maioria nos vapores Benjamim Constant, Saldanha e Jansen Melo, que navegavam pelo Rio São Francisco. Juntamente com as mercadorias eram notícias na cidade. Quando o sujeito era muito esquisito, Armésio que, para não fugir a regra, também era esquisito, e veio de Boqueirão a pé, anunciava a chegada do dito cujo no alto falante colocado numa torre por ele construída. Quando o padre José chegou, vindo de Santa Rita de Cássia de carro, Armésio não fez cerimônias e anunciou a sua chegada tirando pilhéria, sem respeitar a batina e a autoridade do padre. Pagou caro pela sua ousadia. Nenhum dos seus filhos foi batizado ou casou na Igreja São Francisco de Assis, a única de Barra.
Um fato interessante aconteceu em fevereiro de 1962. Segunda-feira amanheceu nublada, nuvens carregadas cobriam todo o céu. O sol que era presença constante nas manhãs de Barra, naquele dia estava ausente. As horas passavam e nada das nuvens dissiparem, de repente a ventania trouxe um lençol de areia que, quem estivesse nas ruas, cegaria. A cidade emudeceu, todos, sem exceção, fecharam as portas e as janelas. Os cachorros latiam desesperados, as galinhas cacarejavam e batiam asas como querendo fugir daquele cenário apavorante. Os cavalos relinchavam e com suas patas socavam o ar. Ouvia-se barulho de galhos de árvores, arrancados pelo vento, batendo em portas e janelas. Repentinamente as nuvens desabaram. O temporal se instalou na cidade por horas enchendo o Rio São Francisco e o Rio Grande, dificultando o embarque e o desembarque nos cais. O vapor Saldanha, enfim, depois de horas, com muita dificuldade conseguiu ancorar no cais de Barra. Os marinheiros estavam extenuados. Neste dia insólito, vindo de Barreiras, Deco desembarcou do vapor. Todo vestido de preto, cabelos e barbas longas lhe cobriam todo o rosto. Dele só se via os olhos miúdos. Dizia-se poeta, mas para alguns era um louco, para a maioria era um tolo. De hábito noturno, passava a maior parte do tempo no cemitério. Ele dizia que as almas se encontravam à noite na igreja e deixava o cemitério para os noctívagos.
Meu avô, descendente de índios, tinha um fôlego inacreditável. Reza a lenda que um dos seus filhos foi fecundado embaixo d’água. O nado para ele dava sentido a sua vida. O seu hobby favorito era contar histórias. Vê-lo nadar e ouvi-lo era, para mim, contemplar a sua beleza. Após atravessar o Rio Grande para se banhar nas águas do Rio São Francisco, ele se inspirava, ao sair d’água me levava no colo até a porta da minha casa e sentado numa roda de carro de boi usada como mesa, embaixo do pé de amêndoa, convidava-me para sentar no tamborete feito de cedro com acento de couro de boi chamando-me pelo meu apelido de infância por ele dado.
- Senta aqui Pelé que eu vou lhe contar a estranha morte do padre José.
Estamos no ano de 1960 na cidade de Barra, interior da Bahia. Como toda cidade do interior tem tipos esquisitos, Barra não seria diferente. Eles chegavam dos lugares mais longínquos em todo tipo de transporte. Uns viam a pé, outros de carroça, poucos de carro, alguns de ônibus e a grande maioria nos vapores Benjamim Constant, Saldanha e Jansen Melo, que navegavam pelo Rio São Francisco. Juntamente com as mercadorias eram notícias na cidade. Quando o sujeito era muito esquisito, Armésio que, para não fugir a regra, também era esquisito, e veio de Boqueirão a pé, anunciava a chegada do dito cujo no alto falante colocado numa torre por ele construída. Quando o padre José chegou, vindo de Santa Rita de Cássia de carro, Armésio não fez cerimônias e anunciou a sua chegada tirando pilhéria, sem respeitar a batina e a autoridade do padre. Pagou caro pela sua ousadia. Nenhum dos seus filhos foi batizado ou casou na Igreja São Francisco de Assis, a única de Barra.
Um fato interessante aconteceu em fevereiro de 1962. Segunda-feira amanheceu nublada, nuvens carregadas cobriam todo o céu. O sol que era presença constante nas manhãs de Barra, naquele dia estava ausente. As horas passavam e nada das nuvens dissiparem, de repente a ventania trouxe um lençol de areia que, quem estivesse nas ruas, cegaria. A cidade emudeceu, todos, sem exceção, fecharam as portas e as janelas. Os cachorros latiam desesperados, as galinhas cacarejavam e batiam asas como querendo fugir daquele cenário apavorante. Os cavalos relinchavam e com suas patas socavam o ar. Ouvia-se barulho de galhos de árvores, arrancados pelo vento, batendo em portas e janelas. Repentinamente as nuvens desabaram. O temporal se instalou na cidade por horas enchendo o Rio São Francisco e o Rio Grande, dificultando o embarque e o desembarque nos cais. O vapor Saldanha, enfim, depois de horas, com muita dificuldade conseguiu ancorar no cais de Barra. Os marinheiros estavam extenuados. Neste dia insólito, vindo de Barreiras, Deco desembarcou do vapor. Todo vestido de preto, cabelos e barbas longas lhe cobriam todo o rosto. Dele só se via os olhos miúdos. Dizia-se poeta, mas para alguns era um louco, para a maioria era um tolo. De hábito noturno, passava a maior parte do tempo no cemitério. Ele dizia que as almas se encontravam à noite na igreja e deixava o cemitério para os noctívagos.
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