Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Um presente de Natal


   Houve um tempo, uma criança sabia que seu mundo iniciava nas
margens do rio São Francisco e se encerrava na linha do horizonte
entre o rio e o céu. Houve ele, ainda pequeno, de ganhar um presente.
Os presenteadores, seus pais, lhe ensinaram que quanto mais ele o
usasse mais valor dava a si e mais valorizado se tornava o presente. E
assim ele fez durante os primeiros doze anos de sua vida.
   Houve de o tempo passar, e a criança se tornou adolescente. Seus
pais, querendo que ele soubesse mais, atravessaram a linha do
horizonte e ele soube coisas do outro mundo. Luzes, cores e sabores
tinham outros significados. A aceleração diária neste novo mundo
tornou os dias mais curtos, os meses menos demorados e o passar dos
anos imperceptível. Então, ele deixou de usar o presente de criança e
perdeu valores.
  Tendo esse novo mundo como espelho ele se tornou ignorante.  Porém
já homem feito, soube que ignorância não é falta de saber, mas
sinônimo para falta de amor. Sozinho percebeu que não mudaria as
pessoas desse novo mundo, também não era enterrando em si aquela
criança que se adaptaria a esse mesmo mundo. Passou a ser o que sempre
fora e começou a usar o presente de criança.
  Meus amigos, essa história não é fruto da minha imaginação, é real
e a criança da crônica sou eu. Meus pais sempre me ensinaram, mais do
que isso, frisou que compartilhar o presente durante a minha
existência valorizaria não só a mim, mas também aqueles que comigo
conviveria. Aproveito o Natal e o significado de iluminação que ele
tem para mim e lhes presenteio com o mesmo presente dado pelo meu pais
quando eu era criança. Estendendo as minhas mãos para lhes presentear
na esperança que não guarda esse presente somente para si. Não abra
ainda, quero que saiba que dentro desse embrulho encontra-se a
GENTILEZA.
   Que na sua ceia de Natal a congregação em família - sendo que
família é formada pelos filhos do mesmo Pai, Deus - possa haver a gentileza em
abundância e que em 2012 vocês possam recolher e distribuir amor.
   São os sinceros votos da minha Família. A Luz sempre permaneça em
nosso lar. Perceba-A e ilumina-se.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Depois - Parte final


   Pedro estacionou o carro em cima da calçada, sabia que estava errado, contudo, a pressa não lhe permitia outra ação senão essa. Ele retirou dois sacos de sessenta quilos do porta-malas do carro e colocou na garagem do salão de distribuição de sopa, em seguida saiu em disparada, sendo observado por Salvador. Voltou meia hora depois com duas caixas pequenas e as colocaram próximas dos sacos.
   - Pedro, posso saber o que se passa. Não me diga que vai tirar Jesus da cruz com toda essa pressa. - Salvador disse entre risos.
  - Não. - Pedro disse sorrindo, também. - Recolhi alguns sonhos nas padarias do bairro e algumas latas de doce de leite de alguns supermercados.
   - E o que pretende com isso, aqui só distribuímos sopa. Você sabe disso.
   - Sei, Salvador. Vou distribuí-los na rua para os famintos.
   - Pedro, depois de vinte anos, você ainda me surpreende. Isso é bom. Precisa de ajuda?
   - Desculpa, irmão, quero fazer isso sozinho.
   - Vá com Deus, Pedro. Ele te guiará aonde você quer chegar.
   Pedro partiu incomodado por Salvador ainda não chamá-lo de irmão depois de vinte anos de convivência.

   Socorro corria, mas a fome estava lhe tirando as forças das pernas, se descansasse, ela sabia que não levantaria, por isso passou a andar lentamente.

   Pedro havia distribuído todos os sonhos. Foi em direção ao carro e quando jogou os dois sacos vazios no porta-malas sentiu um ruído, então, ele enfiou a mão no saco e encontrou um sonho. Olhou para todos os lados para ver se encontrava algum faminto, como não encontrou, ele levou o sonho à boca. Neste mesmo instante, ele ouviu um ruído de algo se chocando no carro. Foi na direção de onde o ruído havia vindo e encontrou uma criança caída no chão.
   - O que lhe aconteceu? - Pedro perguntou ansiando uma resposta, pois estava preocupado.
   - Você é o anjo que veio me trazer o sonho recheado com doce de leite.
   Pedro não havia entendido a resposta, somente se deu conta quando a criança avançou sobre a sua mão retirando o sonho e o comendo vorazmente.
   Esbaforido, Pedro entrou no salão de distribuição de sopa, carregando a criança no colo e já explicando a Salvador o que se passara. Após pedir às voluntárias que desse um banho na criança, a alimentasse e a acomodasse num dos quartos do salão, Salvador, pela primeira vez, viu Pedro orando.
   - Pai, um dia, eu não dei valor a vida que me deste, atentei contra o bem maior que deixara para mim. Pai, sei que sou pequeno, ainda não merecedor de Sua graça, por isso, peço-Lhe, não para mim, mas para essa criança, não deixe que a Luz lhe expire, ilumina-a.
   Salvador, emocionado, se encaminhou a Pedro e lhe deu um abraço demorado.
   - Pedro, a sua fé trará Luz a ela. Você é um iluminado, irmão.
   Pedro, enfim, ouviu o que tanta ansiara, ser chamado de irmão por Salvador. Segurou mais um pouco aquele abraço para si e o agradeceu por não ter desistido dele. Salvador lhe sorriu e beijou a sua testa, abençoando, em seguida saiu da sala deixando-os a sós.
   Ainda emocionado, Pedro viu os seus olhos retrocederem em câmera lenta para o passado, no momento que encontrou com Angélica pela primeira vez na escola e voltar ao presente lestamente ao encontro dos olhos da criança que acabara de acordar. Gelou, o olhar das duas eram parecidos. O seu coração disparou, um sentimento que há muito tempo estava adormecido aflorava. Ela é uma criança, Pedro, disse para si. Agora sem controle dos olhos, esses voltaram para o dia que ele fez amor com a Angélica na padaria e foram trazidos de volta para o corpo da criança que remexia no sofá. A simetria dos corpos era idêntica, as curvas mais ainda, um detalhe as diferenciava, Angélica era clara, a criança é morena. Se não fosse pela magreza de uma em relação à outra, poderia dizer que eram a mesma pessoa. Olhou mais detalhadamente para o corpo dela, e ela percebera, gostara até. O delineamento simétrico das curvas do corpo dela já não lhe dava a certeza de que era uma criança. Perturbado, ele resolveu falar com Salvador, mas antes a criança lhe falou:
   - Posso saber o nome do meu anjo salvador?
   - Pedro, e o seu?
   - Socorro.
   - Pois bem, Socorro, eu não sou anjo e muito menos salvador, sou apenas um praticante do amor cristão. Agora preciso ir. - Pedro disse tartamudeando, nervoso e perturbado.
   Ele encontrou Salvador no jardim cuidando de suas flores.
   - Pedro, amar é exercitar o Deus em nós, isso você fez ao salvar esta garota, reduzir o amor a superfície do físico é diminuir o Deus intrínseco, é deixar de verbalizá-lo, é emudecer a Sua voz, é regá-Lo ao depois. Pense bem irmão, o conhecimento nos dá a oportunidade de saber escolher, e escolher é saber pôr em pratica as nossas vontades. Saiba das suas e escolha.

CINCO ANOS DEPOIS

   Contristo e cabisbaixo, Pedro alimentava os pombos, fazia isso para ter companhia. Com cinquenta anos, os vincos no rosto, a rigidez da pele e dos sentimentos o envelhecera muito. Sombreava por onde passava, perdera a luz depois que abandonou o serviço voluntário no salão de distribuição de sopa. O alarido dos pombos, após ele jogar as migalhas de pão despertava em seu rosto o sorriso de antes. Repentinamente, o bater de asas dos pombos voando por sobre a sua cabeça o assustou, uma sombra no chão encontrava com a sua. Ele levantou a cabeça e não acreditou no que estava vendo.
   - Angélica? - Pedro disse, incrédulo.
   - Não, Pedro, sou eu, não me reconhece mais.
   - Socorro. - Pedro disse se refazendo do susto.
   - Pensou que ia fugir de mim. Demorei, mas te achei. Levante.
   Socorro pegou-o pela mão e o ergueu, Trazendo-o para junto de si. Parados, se olharam demoradamente, um procurando no outro quais eram as suas vontades. Não precisou de muito tempo para saber.
   Pedro voltou para o serviço voluntário e reencontrou Salvador. Deu-lhe um abraço demorado segurando as lágrimas.
   - O bom filho a casa torna. - Salvador disse sorrindo.
   - Ele torna porque sabe que o Pai sempre estará de braços aberto para ele.
   - Sempre, Pedro, Ele sempre estará com e será por nós.
   E durante mais cinco anos Socorro exercitou o amor divino ajudando aos necessitados, juntamente com Pedro, Salvador e outros voluntariados. Em um dia comum, um dia de sol brilhante, ela se foi, alegre. Sofrera, aos vintes e cinco anos, um ataque cardíaco fulminante. Pedro estava ao seu lado, mas quando o resgate chegou já era tarde. Antes de ir, ela, segurando na mão de Pedro, disse:
   - Meu amor, estou indo pelas mãos do amor, o amor divino, por isso não sofra, sempre há um depois.
   - Eu sei, amor. Vá em paz.
   Pedro disse escondendo a sua tristeza em um sorriso sem convicção e deixando as lágrimas jorrarem assim que os olhos de Socorro foram fechados por ele. Aos poucos, ele foi perdendo a tristeza ajudando aos outros no serviço voluntário. Permaneceram em si as saudades e as boas lembranças vividas.
   Aos sessenta anos, ele não aguentava mais o serviço voluntário, o seu corpo não fraquejava, cansava fácil. Sentou, arcou o corpo levando a cabeça ao braço do sofá, adormeceu. Em seu rosto havia sorrisos da época que ele amara a Angélica e Socorro, os mesmos sorrisos.
   - Você voltou, veio realmente me buscar como havia prometido.
   - Sim, Pepito. Eu sempre lhe disse que há um depois. Vem meu amor, me acompanha.
   - Mas, onde está Socorro?
   No rosto de Angélica havia um sorriso que não era seu, o sorriso de Socorro. Pedro entendera. Foi para amá-la até um novo depois.

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