Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com

domingo, 6 de outubro de 2013

A família encantada - Terceira página

Ao se darem as mãos, a bola de gude foi tocada pela mão da Mel e, nesse instante, percebeu qual era o sentimento que estava aflorando das linhas da mão do Cacau. A bicicleta teve a mesma sensação quando Cacau apoiou a sua mão no selim grafitado de girassóis. Os girassóis se abriram como se aquela mão carregasse raios de sol.

As duas, juntamente com a bola de capotão, sabiam que a amizade dele por ela estava sendo substituída pelo amor. Seriam relegadas ao esquecimento. E, aconteceu como a bola de gude havia previsto: a bicicleta foi deixada em um canto da garagem misturada aos restos de ferro velho. A bola de capotão, murcha, foi enterrada em uma caixa de sapato entre outros badulaques. A pobre bola de gude teve outro, lamentável, destino: esfumou-se entre bonecas quebradas, até ser confundida com um olho de uma.
Os dois estavam sentados na beira do cais, jogando os pés ao vento e migalhas de pão aos peixes. Enamorados, entreolhavam-se encabulados, ela com o queixo no peito, ora olhando para os próprios pés dançando no ar, ora para ele. Ele, com olhos de vontade, esperava que o tempo o empurrasse à ação. 

O dia enamorando-se da noite, deixou-se ser encoberto pelo seu manto. Os ventos, trazendo aromas campestres, esfumavam as nuvens; as estrelas formigavam no céu, e a noite iluminava-se pelo lume do amado. A lua cheia brilhava mais do que de costume. Era a lua dos enamorados.

Cacau fez a sua mão andar tamborilando os dedos na mureta do cais até encontrar as mãos da Mel. Deu-se o encontro de mãos, olhos, e, finalmente, seus lábios se encontraram.

O Senhor do tempo, com grãos de areia, cobriu-os com o manto do envelhecimento, visto que o amor dos dois pedia pressa. O pó do tempo não acumulou nos vincos adquiridos com os anos, pois eles ainda não os tinham. Contudo, os amadureceu o suficiente para que perdessem suas características de criança. Ele o que tinha de rapaz,  tornando-se homem. Ela o que tinha de moça, tornando-se mulher. Casaram com urgência, e, logo, tiveram um filho.

A bola de capotão, por não ter os cordões untados com gordura animal, estava com alguns gomos descosturados, envelhecida. A bola de gude, devido ao desuso, permanecia jovem, apesar de algumas trincas. A bicicleta fora azeitada com bastante óleo, porém, a poeira acumulada no decorrer dos anos lhe dera uma aparência de abandono precoce.

Dedicados ao trabalho, Cacau e Mel deixaram de proporcionar ao filho, Fauser, o que a eles não lhes faltara: a infância. Já seria imperdoável, se somente isso tivesse feito, porém, fizeram pior. Deixaram de serem pais e delegaram essa função à babá.

Continua quarta-feira às18hs00min


TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS

AUTORES:


Água: Déia Tolda

Óleo: Eder Ribeiro 

Imagem Getty Images


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A família encantada - Segunda página

Cacau e Mel, agora, viam o mundo pelos olhos um do outro. Por mais que o Senhor do tempo o acelerasse, e as mudanças fossem perceptíveis a todos, eles sequer as notavam, uma vez que enxergavam pelos olhos do amor, e a este tudo é atemporal.

Estava lá a mesma árvore, com várias camadas de primaveras, que um dia deitou seus galhos para que um pássaro de plumagem amarela entoasse uma canção dizendo: menino bobo. Agora que se encontrava marcada por dois corações entrelaçados, com os respectivos nomes de Cacau e Mel, a árvore pediu ao vento, entre gracejos, que levasse aos dois, além do aroma primaveril, estas duas palavras: amor bobo.

O vento, sempre gentil com a árvore, atendeu-lhe o pedido, carregando ambas as palavras. Os dois jovens, aos risos, saíram de mãos dadas, abobalhados, tropeçando nos próprios pés, tendo um ao outro como apoio. Para trás ficaram a bicicleta, a bola de gude e a bola de capotão no quintal da casa. Entreolhando-se, as três perceberam que tanto o menino quanto a menina estavam indo embora, prestes a se tornarem homem e mulher.


Os dois se retiveram no meio do caminho, com jeito de quem se lembrou de voltar para buscar algo muito importante. Cacau voltou feliz, ao ponto da própria felicidade pensar ser nele a sua morada. Ele corria saltitando, tocando os calcanhares um no outro. Mel o seguia a passos lestos.

Os dois, ao se aproximarem da bola de gude, da bola de capotão e da bicicleta, proporcionaram a esses três seres inanimados alegrias desmedidas. À bola de gude mais ainda, ao ser levada por Cacau. 

Porém, pela primeira vez, não reconheceu a mão a que estava tão acostumada. Os suores eram outros, a tremedeira descompassada não era a mesma, acusava sentimentos que ela desconhecia. A bola de gude se perguntou: em que linha da mão nossa amizade se escondeu?

O que ela não entendia era que as linhas das mãos de Cacau transpiravam outro sentimento. Sentimento esse que a bola de gude somente conheceria se tocasse as linhas das mãos de Mel.

- Toma. Ela agora é sua. – Disse Cacau a Mel, fazendo menção de entregar-lhe a bola de gude.

- Mas... – As palavras lhe fugiram.

- Esta bola me acompanhou até aqui. Um bem inestimável que lhe dou com prova da minha amizade.

Emocionada, Mel foi até a bicicleta. Como a bola de gude, a bicicleta soube de imediato que não eram mais as mesmas mãos que a tocavam.

- Toma. É sua agora. – Mel, com doçura nas palavras, entregou a bicicleta ao Cacau.

- Não. Não posso aceitar.

- Por quê? – Perguntou Mel decepcionada com a recusa.

- Ela vale mais do que a bolinha de gude.

- Que importância tem o valor monetário quando se AM... – Cacau não a deixou terminar a frase, beijando-a nos lábios.

Continua domingo às 08hs00min


TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS

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Água: Déia Tolda

Óleo: Eder Ribeiro 

Imagem Getty Images