Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A família encantada - Quarta página

Fauser, ainda bebê, ganhou o seu primeiro presente, dado pelos pais. Um televisor LCD. Todavia, o que Cacau e Mel deixaram de notar é que Fauser só tinha olhos para eles. Na sequência, quase ininterrupta, vieram o aparelho DVD, juntamente com as mídias DVD de contos de fada. 

O tempo passava, e Fauser pouca oportunidade tinha de passar com seus pais. Sequer os conhecia pela voz. A babá, dedicada, trazia de sua casa os livros com as histórias que lia para a linda criança. Fazia isso por amar toda criança que cuidava. 

Aos sete anos, Fauser ganhou um vídeo game, por fim um computador. A sua vida resumia aos metros quadrados do seu quarto e aos passeios para brincar na pracinha do condomínio fechado em que moravam. Sempre acompanhado de sua babá.

Entristecido pela criação que Cacau e Mel estavam dando ao filho, o Senhor do tempo incumbiu à formiga a missão de recobrar o encanto dessa família.
Sobre o céu, a noite trouxe o manto que escureceu o dia. Pipocou-o com estrelas, clareando-o. Chamou seu amigo vento para que soprasse as nuvens que teimavam em permanecer sob a sua obra de arte, e com o dedo indicador fez uma bola no canto do céu. Com um suave beijo, se fez luz. A noite enluarou-se.

A babá, admirando a beleza da noite, não fechou a janela do quarto do Fauser, encostando apenas a cortina. Quando se encaminhava para a porta, Fauser segurou-a pela mão...

 - Por que papai e mamãe não me amam, Baba?

- Eles amam sim, meu anjo! Eles são muito ocupados, precisam trabalhar.

- Por que eles precisam trabalhar, Baba?

- Vamos fazer uma brincadeira. Feche os olhos. Agora, imagine-se sem tudo isso aqui. Você seria feliz, meu anjo?

- Sim, se eles me amassem. Baba, quer ser minha mãe? Eu te amo tanto.

Os olhos da babá marejaram. A emoção a silenciou. Fauser continuou falando.

- Baba, meu sonho era viver em um mundo encantado, ter uma fada madrinha. Mas isso não existe, não é verdade, Baba?

- Existe sim, meu anjo. Basta acreditar. – Disse entre lágrimas.

- Então você é minha fada madrinha?

Desfazendo-se em lágrimas, a babá o cobriu, beijou o seu rosto e sussurrou em seus ouvidos:

- Sim, meu anjo, eu sou, mas isso fica sendo nosso segredo. 


Ao sair, ela encostou a porta.

Continua domingo às 08hs00min


TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS

AUTORES:


Água: Déia Tolda

Óleo: Eder Ribeiro 

Imagem Getty Images

domingo, 6 de outubro de 2013

A família encantada - Terceira página

Ao se darem as mãos, a bola de gude foi tocada pela mão da Mel e, nesse instante, percebeu qual era o sentimento que estava aflorando das linhas da mão do Cacau. A bicicleta teve a mesma sensação quando Cacau apoiou a sua mão no selim grafitado de girassóis. Os girassóis se abriram como se aquela mão carregasse raios de sol.

As duas, juntamente com a bola de capotão, sabiam que a amizade dele por ela estava sendo substituída pelo amor. Seriam relegadas ao esquecimento. E, aconteceu como a bola de gude havia previsto: a bicicleta foi deixada em um canto da garagem misturada aos restos de ferro velho. A bola de capotão, murcha, foi enterrada em uma caixa de sapato entre outros badulaques. A pobre bola de gude teve outro, lamentável, destino: esfumou-se entre bonecas quebradas, até ser confundida com um olho de uma.
Os dois estavam sentados na beira do cais, jogando os pés ao vento e migalhas de pão aos peixes. Enamorados, entreolhavam-se encabulados, ela com o queixo no peito, ora olhando para os próprios pés dançando no ar, ora para ele. Ele, com olhos de vontade, esperava que o tempo o empurrasse à ação. 

O dia enamorando-se da noite, deixou-se ser encoberto pelo seu manto. Os ventos, trazendo aromas campestres, esfumavam as nuvens; as estrelas formigavam no céu, e a noite iluminava-se pelo lume do amado. A lua cheia brilhava mais do que de costume. Era a lua dos enamorados.

Cacau fez a sua mão andar tamborilando os dedos na mureta do cais até encontrar as mãos da Mel. Deu-se o encontro de mãos, olhos, e, finalmente, seus lábios se encontraram.

O Senhor do tempo, com grãos de areia, cobriu-os com o manto do envelhecimento, visto que o amor dos dois pedia pressa. O pó do tempo não acumulou nos vincos adquiridos com os anos, pois eles ainda não os tinham. Contudo, os amadureceu o suficiente para que perdessem suas características de criança. Ele o que tinha de rapaz,  tornando-se homem. Ela o que tinha de moça, tornando-se mulher. Casaram com urgência, e, logo, tiveram um filho.

A bola de capotão, por não ter os cordões untados com gordura animal, estava com alguns gomos descosturados, envelhecida. A bola de gude, devido ao desuso, permanecia jovem, apesar de algumas trincas. A bicicleta fora azeitada com bastante óleo, porém, a poeira acumulada no decorrer dos anos lhe dera uma aparência de abandono precoce.

Dedicados ao trabalho, Cacau e Mel deixaram de proporcionar ao filho, Fauser, o que a eles não lhes faltara: a infância. Já seria imperdoável, se somente isso tivesse feito, porém, fizeram pior. Deixaram de serem pais e delegaram essa função à babá.

Continua quarta-feira às18hs00min


TEXTO DE ÁGUA E ÓLEO MISTURADOS

AUTORES:


Água: Déia Tolda

Óleo: Eder Ribeiro 

Imagem Getty Images