O despertador do celular toca ininterrompidamente. Oh aparelho maldito! Lembra-me de mais um dia de escravidão, assim é o trabalho. Janela engradada permite-me sentir o aroma do sereno da madrugada. Vejo a lua nua cercada por estrelas semi-apagadas. Como contemplar somente é permitido aos filósofos, de banho e desjejum tomado encaminho-me ao trabalho, sem antes não deixar de admirar a lua que me segue. E isso com certeza ao poeta é permitido. Quem inventou o trabalho, e disse que com o suor dele nos seria permitido comprar tudo, nos seria permitido a felicidade? Doze, às vezes treze, horas preso ao trabalho com apenas uma hora de folga para o almoço, eu nem sei quem primeiro sente o cansaço, se a alma ou o corpo. Sei e sei muito bem que os dois se desfazem sobre o produto produzido. Não há ganho que pague esta perda. Somos escravos do dinheiro.
Noite, eu, resto de alguém, mas um resto poético, procuro a lua no céu e a vejo vestida de brilho cercada por estrelas cintilantes. A lua amiga me abraça com seu brilho e me joga no colo da minha família. Minha filha não me permitindo o descanso me diz como foi o seu dia na escola e me cobra uma revistinha para ler. Esposa com lista de compras na mão me beija apaixonadamente. Aí está a explicação para o trabalho: uma quer alimento para a alma, o saber; a outra quer alimento para o corpo, o pão. E só o dinheiro ganho com o suor do corpo para consegui-los. Mas mesmo assim acho o trabalho um fardo, um fardo demasiadamente pesado. Bem, e eu o que quero? Não é difícil de saber. Eu quero logo, que minha namorada lua me perdoa, o sábado e domingo. Preciso ver o sol.