Eu nunca fui afeito a tecnologia, considero-me um “intecnológico” inveterado, e olha que não é por falta de conhecimento, mas uma opção. Lembro-me de ter sido apresentado a uma máquina de datilografar Remington, em 1972, um monstro para a época, e, por imposição do meu pai, sempre severo na educação dos filhos, fui obrigado a aprender usá-la, apesar dos meus minguados oito anos. Aprendi, mas usá-la... Fui engolido pela máquina. Anos mais tarde ganhei uma Olivetti compacta laranja, e para desespero do meu pai, eu preferi o bom e usável papel e lápis.
Anos sobre anos depois, eu comprei um celular com a intenção de usar o editor de texto para escrever do que o próprio telefone para telefonar, mas quase sempre as mãos, ao digitar, não acompanhavam o pensamento, então, o bom e usável papel e, agora, caneta permaneceram para o celular ter um uso mais apropriado, como despertador e relógio. Como o avanço tecnológico, o celular adquiriu tantas utilidades que usá-lo para receber e fazer chamadas é raro.
Era época de haver e ter, os estudos e o trabalho passaram a ser o foco principal; eu, precisando maximizar o tempo, passei a escrever no transporte público que me levava de casa para o trabalho e deste para a escola. Com o passar do tempo, eu adquiri uma técnica em escrever no ônibus em movimento, mantendo-a até hoje. Contudo, houve época que pensei comprar um minigravador na intenção de gravar as minhas histórias e depois transpô-las para o papel. Desisti da ideia, pois, certamente, iam querer me pôr em camisa de força, apesar de São Paulo ser uma cidade de, e para, loucos. Mormente se literatura e loucura, além de rima, no fim das contas, habitarem o mesmo teto, ou seja, a cabeça de um escritor. Por isso, eu permaneci, até a data de hoje, com o bom e usável papel e caneta, rascunhando as minhas histórias.
Isso dito, eu tenho como hábito acumular vários pedaços de papeis com as minhas histórias, e talmente as bordadeiras quando obram colchas de fuxico, eu vou costurando-as até ganharem formato definitivo após várias revisões.
Devido à insistência de alguns amigos que vêem valor literário nos meus escritos, incentivando-me a escrever e publicar um livro – escrever possa ser conseguível, publicar cabe aos amigos moverem mundos e fundos, mais fundos porque mundos se movem por si só -, eu estou, se não me engano, na minha quarta tentativa de escrever um.
Como havia dito que loucura e literatura, além de rima, habitam o mesmo teto, eu, na minha loucura literária, quando escrevo parto sempre do final para chegar ao início e alcançar o meio. Neruda já havia dito que escrever é fácil, inicia-se com uma palavra e termina com um ponto, no meio, enche de ideais. Portanto, com a história com fim, meio e início pronta, como a escrevo em retalhos de papel, eu fui costurá-la; para minha surpresa, eu tinha perdido o meio da história, ou, como muitos gostam de dizer, o fio da meada. A personagem da história, que de louco não tem nada, vive me perturbando para eu dar um fim na sua história, ou seja, reescrever o meio, pois ele sabe que é devido o quê lá está escrito, a razão do seu fim, apesar de ter tido um início promissor.
Agora eu vivo um dilema, não sei se mato a personagem por não agüentar a tortura da cobrança, e, consequentemente, dou fim a mais uma tentativa de escrever um livro, ou, dou ao livro outro fim, melhor dizendo, dou a história outro fim reinventando um novo começo, nem que para isso seja necessário contar a mesma história, e entre o fim e o começo encher de ideias.
* Este texto é dedicado ao meu querido Amigo Osvaldo do blog http://mautristeefeio.blogspot.com por tanto me incentivar a escrever um livro e por achar valor literário no que eu escrevo.
Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
sexta-feira, 25 de junho de 2010
domingo, 20 de junho de 2010
Desatino de um nordestino
Quando eu saí de Brasília com o meu cabelo a lá Pepeu Gomes, ainda tinha muito da minha baianidade, pois Brasília, com os seus dezesseis anos, procurava uma identidade e pouco importava se você era baiano, mineiro, carioca ou gaúcho, acolhia-o como seu.
Antes que alguém se pergunte quem é esse tal de Pepeu Gomes, explico, é um cantor baiano, cuja música de maior sucesso tem esses versos, “se deus é menino e menina, sou masculino e feminino...”; portanto, provavelmente, essa música deve ter sido composta em sua homenagem, não que ele fosse deus, mas como aquele cabelo liso e comprido abaixo dos ombros, ele estava mais para menina, mesmo sendo menino. Concluindo, eu tal qual ele cagado e cuspido, lógico, sem a sua fama.
Quando cheguei a São Paulo com o meu cabelo a lá Pepeu Gomes, as pessoas colocavam uns olhos sobre mim como se buscassem uma identidade, um gênero específico, e isso me aborrecia, pois quando se nasce no sertão, macho, você não opta, não muda de gênero, grau ou número, é macho e ponto, mormente quando o sertanejo carrega uma jeguice genética para lhe dar sustentação e agüentar todo o peso de ser quem é.
Quando aprocheguei-me em São Paulo trazendo no cocuruto um cabelo de Pepeu Gomes fiquei maravilhado com o mundaréu de carros quase embucetados um atrás do outro, alumiando os letreiros das Casas da Banha, Buriti, G. Aronso, Mesbla, Mappin e Arapuã, e deu nos meus miolos que seria rico. Mas menino, quah! Besta, tabaréu, tabaroa de dar nos quartos, eu não assuntei que São Paulo é um mundinho onde se come sonhos e caga arrogâncias.
Oxente! Mainha, que não é besta não, não ia querer que eu desse com os burros nágua; bastou painho ter dado, diga-se de passagem, para ficar bem entendido, meu pai deu foi os burros nágua, pois como nordestino paidégua, para não aperrear com o peso de ser quem é, a sua jeguice é porreta de arretada. Como ia dizendo, mainha, que de besta não tem nada, sabida que só ela, cortou o meu cabelo como quem soubesse que eu sofreria um sertão de preconceito, não de gênero, mas de regionalidade.
Mas menino, quah! Sofri tanto preconceito que fiquei cuma reiva da gota serena destes cabruncos que mangavam deu. Esses chibungos, filhos de uma égua raparigueira, boiolas chinfrins, chibatas, baiotolas trim-trim assim-assm, cabrobós empertigados. Fiquei tão zureta, arretado, zuruó da vida, aporrinhado e avexado até, por ser chamado, na escola, no trabalho, ora de baiano burro, ora de burro baiano por falhar e até por não que eu joguei fora a régua e o compasso e munido de lápis e borracha reinventei a minha própria história.
Quando São Paulo chegou a mim, Pepeu Gomes se encontrava no ostracismo, o cabelo estava cortado a lá reco como se dizia na época, a régua e o compasso há muito tempo eu havia perdidos pelo caminho. A minha história havia sido reinventada em outra língua, sem a musicalidade baiana, sem os oxentes, porretas, mainha e painho, carregada de palavras com tantos erres e aprendidas em noites trancado no quarto.
Ô meu! Somente agora, passados trinta anos, após trocar de vocabulário, percebo que não me signifiquei, mais do que perder a identidade, mano, vejo que de nordestino eu só tenho o tino. Puts! Perdi foi muito mais. Pô meu! Perdi foi o meu norte.
O meu norte permaneceu escondido nas mãos do vô Pedro que chorou ao me ver partir, e sentado embaixo do pé de amêndoas esperou-me por um sertão inteiro.
Oh, vida paidégua, vida da peste que não se recupera o que se perdeu. Isso é mais que vida Severina, é desatino de um nordestino.
* Tanto este texto como o anterior bebeu de sua inspiração no blog http://rumoaescrita.blogspot.com da minha amiga Deia.
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