O envelhecimento me
permitiu uma reflexão mais precisa sobre a passagem do tempo. Hoje, percebo que
a separação entre o ontem e o amanhã se mede pela distância dos meus passos.
Lembro-me de, quando criança, ficar admirando o cuco do relógio da cozinha da
minha casa sair nas horas cheias do seu receptáculo sem arredar o pé da posição
que me encontrava, e mal percebia a passagem do tempo. Talvez, devido a isso,
eu demorei a amadurecer. Bicho papão, saci, mula sem cabeça e Papai Noel, até
os onze anos, eram personagens reais. Porém, a minha sexualidade aflorou muito
cedo, pois, tendo um amigo adulto, ele me introduziu na vida sexual entre as
criações de patas de meu pai. Espera, não condenam aquela pobre criança, Freud
explica.
Freud um dia disse
que toda criança tem uma queda pela mãe, certifiquei-me disso quando do
nascimento do meu filho, e vou dizer, é uma concorrência desleal. Como meu pai,
na sua rigidez educacional, metia muito medo, eu preferi não tê-lo como
concorrente, então vidrei nas partes visíveis das amigas da minha mãe. Bastou
perceber um dos calcanhares de uma de suas amigas - naquela época era o máximo
que se via, precisaria de muitas badaladas do cuco para a mulher deixar à mostra as
batatas das pernas e muito mais ainda para mostrar as coxas. - para eu trocar a
cozinha pelo banheiro. E foi aí que percebi que os prazeres dados com os passos
não eram tão sublimes quantos os prazeres que as mãos poderiam oferecer. E
assim, esse tarado infanto-juvenil chegou aos dias de hoje e escreve esses
desvios sem demonstrar nenhum rubor.
Ontem, estava eu e
o meu filho de cinco anos- o meu Cravo, como gosto de chamá-lo - assistindo TV
e a gostosona da vez apareceu em uma propaganda de marca famosa de chinelo e
ele disse: "Mata o papai". Olhei assustado e ele abriu um sorriso tal
qual da imagem do cabeçalho do blog. Mais tarde a globeleza deu o ar de sua
graça e ele me perguntou se ela estava nua. Disse-o: "Quase". Então,
ele esfregou as mãos, passou a língua entre os lábios e pôs uma cara de faminto
que eu tive que desligar a TV receoso que ele desse uma cabeçada na tela de cristal
liquido e esfolasse a mesma. O meu Cravo, antes de ser reconhecido pelo perfume
de suas pétalas, se mostra reconhecível pelo seu talo. Por favor, não condenam
essa criança, Freud explica.
Mais um BBB está no
ar com as suas mulheres que parecem mais aquelas bexigas moldáveis devido
tantos mls de silicone. Os homens, então, cones invertidos fixados em dois
palitos de fósforo. Aí, vocês perguntam, e a cabeça? Digo, a única que eles
usam está mais embaixo, a de cima é um acessório inutilizável. É muito show
para pouco reality. Talvez Freud explique isso.
Bem, desligarei a
TV, pegarei o meu binóculo e vou para a janela da lavanderia espiar a vizinha
gostosona de meia-idade lavar as suas roupas. Ela ainda tem o hábito de lavar
no tanque, e faz isso de minissaia. Tudo bem, podem me condenar, prefiro
voyeurismo à francesa, in loco. Ah, em tempo, o meu filho estará assistindo o
Cartoon Network. Além de tarado infantil é um fuxiqueiro de primeira linha. Freud
explica?
Imagem: Goggle
