Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Gaia - Página 1

   Próbolo justificava o seu sustento de todos os dias em um serviço maçante no comércio que pertencera a seu tio Phobus. A sua permanente mudez o enclausurava no silêncio sepulcral. Atendia aos poucos freguês que arriscavam enfrentar o frio rigoroso sem lhes dizer uma palavra, as suas respostas eram por gestos, uma forma de se esquentar no clima gélido e permanente. Nunca sabiam se ele estava triste ou alegre, se sofria ou não, pois seu rosto estava emoldurado a mascara viva da indiferença, não lhe havia feições.
   Próbolo cerrou as portas do estabelecimento mecanicamente, um ato contínuo do seu desespero por não querer ficar ali, mas ele não sabia para onde ir, ainda mais que sair num clima daquele era arriscar-se sem a esperança de sucesso na empreitada. Não sabia quem era, pois seu tio pouco lhe falou do seu passado, apenas o suficiente para ele não saber demais sobre o que ocorrera após a última grande guerra. Às vezes, era conduzido ao passado pelas lembranças que vinham em sonhos, e elas eram esparsas.  Apesar da sua sisudez, o freguês ia ao seu estabelecimento por ser o único daquela Horda.
   Próbolo subiu as escadas impulsionado pela necessidade do descanso, passou pelo quarto de compartimento de armas e entrou. Abriu a gaveta de souvenir revolvendo os objetos para tentar ser levado ao passado. Retirou o punhal que seu tio lhe dissera pertence ao seu pai, porém um buraco negro em sua mente bloqueava qualquer tentativa de lembranças. Levou às narinas um retalho de pano grená que pertencera a sua mãe na tentativa de ser levado ao passado pelo aroma, contudo, o cheiro já havia exalado.  E assim, sucessivamente, dia após dia, as suas tentativas de lembrar o que ocorrera com a sua família redundavam em fracasso. Avançou os degraus da escada como se tirasse um peso das costas, enfim, ao chegar ao quarto não se sentiu leve, pois os aborrecimentos diários eram um fardo que não lhe saía da mente. Abriu a torneira, encovou as mãos debaixo da água gélida que jorrava e as levou ao rosto, como de hábito não se olhou no espelho, enfiou a cabeça debaixo da torneira deixando-a por alguns segundos, quando a retirou, uma lamina de água se formou como se desse continuidade aos seus longos cabelos lisos. Jogou-se na cama encharcando o lençol e umedecendo o colchão. Por mais que a sua presença fosse sentida, até por ele próprio, o seu corpo estava oco, não se sentia espiritualmente ali, prenúncio de que o pior estava por vir. Levantou-se, não queria se sentir enterrado na própria cama. O sono não passa de uma breve morte e o despertar não é para a vida, pensou. Foi à janela e deixou os seus olhos se perderem na fronteira que separava uma Horda da outra. O sempiterno inverno deixava as ruas desertas. Por incrível que pareça, todos seguiam uma ordem não estabelecida, pois nos Estados não havia mais governo, um poder supremo. Depois do ataque terrorista às Torres Gêmeas estadunidense e da resposta a esse mesmo ataque, o mundo entrou em crise ética, moral, religiosa e financeira. Com a queda das bolsas européias, a economia entrou em crise derrubando todos os governos e levando os países a se digladiarem um contra o outro. A guerra durou cinquenta anos, a mais sangruenta de todas, mais ainda do que as guerras medievais. Sobre esses escombros, o mundo foi erigido, Deus estava morto, Jesus não passava de uma história esquecida em alguma bíblia carcomida pelo tempo que sobrou sob esses mesmos escombros. Algo impensado aconteceu, o cristianismo estava morto. As pessoas só acreditavam em si mesmo e o único combustível que as levavam adiante era para satisfazer as necessidades físicas. O individualismo nunca fora tão perverso como estava sendo nessa era. Estávamos na Era das Trevas. 
   Próbolo, por mais que se sentisse sozinho e vazio, realmente não estava. Uma luz apagada vivia nele, intrínseca, esperando o momento certo para ser acessa. Voltou à cama e tentou não dormir, receava que os sonhos não preenchessem o seu vazio. Forçosamente, permaneceu com os olhos abertos, porém, a luz interna foi acessa, chegara o momento dele se conhecer. O sono, repentinamente, abateu sobre ele derrubando-o na cama.

Continua

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domingo, 2 de setembro de 2012

Silêncio e luz



      Esse texto, em nenhum momento é uma crítica a igreja, ou ao padre, atenta simplesmente ao ser humano, independente de sua religião. O texto surgiu depois de uma leitura da Paula Barros ao meu status no Facebook, quando um padre negou um cumprimento a uma senhora e depois com desdém, gesticulou a mão quando ela lhe pediu uma benção. Obrigado minha querida e estimada amiga, Paula Barros.


   Oh! Meu Deus, fico triste com a imensidão do silêncio, não se tem respostas. Quando não se tem um espelho, em que mirar? Meu Pai, não tem observação, nem sequer um curtir se tem. É, Deus, hoje em dia, nem precisamos falar para ouvirmos a sua voz, é tudo enigmático, assim como o Senhor é, precisamos decifrá-Lo, é preciso tirar conclusões. "Bom dia, padre". Santo Cristo, nem o padre responde mais a um cumprimento. "Padre, sua benção". Pai do céu, ele nem se deu ao trabalho de olhar para trás, simplesmente gesticulou a mão. Será que fez isso por obrigação, para não manchar a sua imagem perante os outros? Por mais revestido de crenças que estejamos, Pai, nos perdemos quando deixamos vicejar o que nos é humano. Sabe, dizem por aqui, que o Senhor fala com as pessoas, mas que elas não escutam, não entendem. Como escutá-Lo se nossos erros nos ensurdecem, como entendê-Lo, Senhor, se ao não reconhecermos esses mesmo erros nos cegamos. Outros dizem que o Senhor fala por sinais. Como, meu Pai, entender esses sinais se não conseguimos entender a nós mesmo. Mas e o padre, Senhor, por que ele não falou comigo? Por que ele não disse nada? Não entendeu os sinais que lhe envie? Eu fico triste, às vezes indignada, e até revoltada. Mas eu trato o padre igual trato o Senhor. Não deveria, Pai? Responda-me, por favor. Eu sei, Senhor, ele não é Deus, apenas mais um ser humano. Sim, eu sei, o Senhor não gostou do que eu disse, não foi? Fala-me, Pai. Será que os meus erros foram tantos que me ensurdeceu? Reconheço que eles são muitos, perdoa-me. Dentre esses erros estar o de comparar um padre com o Senhor, é demais, não é? Eu sei que sou exagerada. Porém, acredito que o Senhor está dentro de nós, não está? Por que a mudez? Dizem que o senhor se comunica no silêncio, mas não te ouço. Eu não compreendendo esse Teu silêncio, definitivamente. Queria te ver, Pai, saber se seus olhos ficam marejados devidos aos nossos erros. Ficam, Senhor? Responda-me, pois o que mais faço é chorar pelos meus. O teu silêncio não me é compreensível, porque o silêncio se assemelha ao desprezo. Mas às vezes eu penso assim: se o padre é humano, portanto, fadado ao erro como eu, então é melhor que ele fique longe de mim, pois, ele é tão surdo como eu. Que ele continue a andar apressado, sem olhar para trás, sem ouvir o meu chamado, gesticulando a mão como sinal de benção. O seu desprezo demonstra a sua surdez, a falta da resposta ao cumprimento a sua escuridão. Deixa-o ir, seguir o seu caminho, e eu de cá fico a observar.

     




   O outro nos serve de espelho para não sermos tentados a cometer o mesmo erro. Com o seu desprezo, o padre silenciou, Pai.  Eu tenho, Senhor, de tirar lições do silêncio que é silêncio para poder escutá-Lo. Por que as luzes se apagaram, Pai? Eu e a minha mania de querer respostas para tudo. Tudo bem, eu não preciso vê-Lo para escutá-Lo. Sabe, Pai, eu vim parar nesse banco da estação por que não conseguia senti- Lo nas igrejas, ali a balburdia era em demasia, a música muito alta, o nome dele, do outro, sabe, do seu adversário era dito repetidas vezes que provavelmente o Senhor ali não seria bem vindo. Pois bem, vim parar aqui tentando Lhe encontrar nas pessoas. Nós que somos a sua igreja, nós somos pedras que desgastará com o tempo, cujo pó espalhará o que Seu filho aqui nos deixou: amai-vos uns aos outros. A energia voltou, Pai, que bom, agora posso enxergar as pessoas. Não voltou? Senhor, estou Lhe ouvindo. Sim, a Luz é vinda do senhor. Às pressas, as pessoas vão à cega, não Lhe enxerga, não percebe que tudo que há é pela força de sua Luz, não Lhe ouve devido andar as escuras, para lhe escutar é necessário enxergar a tua Luz, recebê-La para então, no silêncio escutá-Lo. Sim, Pai, eu compreendo. Quanto ao Padre, sim, entendo, ele se vestiu com suas crenças e na sua arrogância, acha que toda ovelha fora da sua igreja é desgarrada. Quanto às pessoas, sim, Pai, eu sinto a sua Luz e entendo tudo, elas estão vestidas de escuridão, a ignorância as afasta da Luz. Sim, Pai, é compreensível, sofremos porque nos afastamos de Ti, afastados cometemos erros, os erros nos ensurdecem e nos cega. Sim, sinto-me iluminada. Porém, Senhor, o homem também é um animal e a sua insensatez o impele a ser fera, entre feras é o instinto que o move, não sei se estou preparada para isso. Sim, senhor, entendo, o padre também não está, o meu vizinho também não, ninguém está. Eu sei, Pai, por mais espinhoso que seja o caminho, há a necessidade da caminhada para se alcançar a Luz através do aprendizado. Sim, Senhor, nenhum ser despreza o perfume das rosas devido aos espinhos. Obrigado, Pai, agora eu enxergo, serei como a vela que necessita do desgaste da parafina para permanecer iluminada. Agora entendo, Pai, o melhor instrumento de transformação é o amor. Eu sei, parece utópico achar que amando vamos transformar o outro, mas só de sentir esse amor em mim, sinto-me transformada, melhor e feliz. Sim, Pai, eu vou, iluminada.   
     - Padre, me espere. Padre eu preciso de sua benção...


Autores: Paula Barros e Eder Ribeiro

Imagem fotopoética de Paula Barros