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O dia surgia cobrindo a manhã com uma névoa densa, no horizonte só se via feixes de luzes vindo das lâmpadas dos postes. Saí todos os dias como sempre faço, carregando o peso da minha responsabilidade. Cheguei ao centro da cidade, a névoa havia dissipado. Percorri as mesmas ruas para chegar ao meu trabalho. Pouca coisa mudou, geralmente são os mesmos rostos. Olhei na calçada da padaria ainda fechada e vi traços de algo coberto por uma caixa de papelão. Aproximei e percebi que ali estava um irmão. A ironia de tudo isso é que na caixa de papelão estava escrito em letras garrafais: “PRODUTO DE QUALIDADE”. Ele se mexeu, sentou-se e bebeu um líquido de uma garrafa. O cheiro era muito forte para ser cachaça, percebi que era álcool. Sai dali transtornado devido minha impotência. Culpei-me por não ter lhe ajudado. Sei que minha indignação não mudará o seu destino. Sei que mais tarde o dono da padaria limpará aquele chão.
Cheguei ao serviço cumprimentando a todos, poucos responderam. A indiferença daqueles com quem convivo a maior parte do tempo não me incomodou. Adaptei-me ao meio e o meio não me mudará.
A noite descortinou diminuindo um pouco o peso da responsabilidade. Saí do serviço e uma senhora passa de mãos dadas com uma criança. Ela me encara, sorri e gesticula com a mão dando tchau. Retribuo-lhe o sorriso e o cumprimento. Reconfortei-me e senti a esperança naquela criança. Caberá a nós ensiná-la a permanecer assim, quem sabe quando adulto ela passará por uma calçada e não verá um indigente porque ela aprendera a lição: AMAR O PRÓXIMO. Ainda há tempo de ensinarmos todas as crianças.
Eu tenho dois. Elas são o arco-íris dos meus dias chuvosos, o sol nos meus dias claros, lua e estrela em minhas noites, o combustível que me leva adiante. Eu as ensinarei amar. Faça a tua parte e ensina uma. Ainda há esperança.