Eu não saberia transpor para o papel a sensação do artista ao ver a sua obra pronta, nem a sua satisfação ao sê-la admirada, mormente se entre o artista e a obra não há um parto, e mesmo se separados, muito de um há no outro.
Minha mãe e eu estamos tão ligados a ponto de pensar não ter havido um parto, apesar de, em carnes diferentes, sermos, senão a mesma alma, feito da essência da mesma alma. Na minha incompletude, sei que muito dela me completa. E se a história é sobre mim, ela, além de personagem, é autora.
Houve tempo que os carnavais não tinham as impudicícias de hoje, nem os foliões afloravam as suas concupiscências descaradamente e a olhos vistos; não havia, também, a necessidade de algum tóxico para se ter alegria. Era o que se chamava de carnaval familiar, e entenda-se família não apenas como os do mesmo sangue, mas também os amigos. Era outra época.
Iam todos arrancar argila nos barrancos da margem do – se me lembro bem – Rio Grande, Rio São Francisco e, sem muita certeza, Rio Preto para fazer o molde da mascara carnavalesca. Molde cozido, banhava-se jornais na bacia de água, colocava-os sobre o molde em camadas entremeadas por goma, cola feita com farinha de trigo cozida na água. Sem tremores e com mãos de artista, eles pintavam as mascara secas.
Bloco na rua, todos, parentes e aparentados tentavam adivinhar quem era o folião fantasiado e mascarado. Era época de talco, serpentina e banho de cheiro. Eu conhecia a mão da artista, as cores tinham uma alacridade que dizia muito da sua personalidade; por isso as viam lucilar em meus olhos, dizendo-me que quem estava atrás daquela mascara não era a minha mãe, mas a própria alegria.
Talvez seja por isso que o carnaval dura apenas quatro dias, pois o restante dos dias do ano está mais para cinzas. Eu viria saber disso oito anos depois.
Falido meu pai, eu me uni a minha mãe; apesar de não demonstrar tristeza, senti que ela sofria não somente as dores da perda, mas dores da derrota de meu pai, e, também, as dores das desilusões dos filhos. Com catorze anos, eu tinha a constituição física de um garoto de dez; se houve uma vantagem minha sobre o tempo foi essa, de não aparentar a idade que tenho. Meu pai, malsucedido, perambulou pelas ruas de São Paulo a procura de emprego; enquanto a minha mãe pedalava a velha Singer, costurando e bordando. Alguns meses depois, com esforço e muita economia, ela deu entrada em uma máquina industrial de bordar usada.
Acostumada com o sistema mecânico da Singer, pedalar para acioná-la mecanicamente e movimentar o bastidor - dois anéis com dezoito centímetros de diâmetro, um exterior e outro interior com bordo para garantir maior tensão no tecido – com as mãos para preencher o desenho com a linha, foi-lhe sacrificante passar a acionar o acelerador da máquina industrial para lhe dar a velocidade desejada e com os joelhos acionar uma alavanca movimentando a agulha para a direita e esquerda e esticando o pano com as mãos movimentava-o de acordo com o desenho. Diuturnamente por não se adaptar ao sistema eletromecânico, ela se desmanchava em lágrimas, exasperando-me. Eu a acompanhei durante meses nas aulas ministradas por uma amiga sua, mas não houve progresso. Quando a agulha quebrou ao atingir o seu dedo, eu resolvi agir.
Ouvi passos vindos da escada caracol, somente me dei conta que ela era ao abraçar-me. Seus olhos deitados sobre a rosa que eu acabara de bordar ficaram estupefatos. Senti o calor do seu corpo ao abraçar-me mais forte, seus lábios encostaram-se ao meu cabelo. Com o queixo na minha cabeça, seus olhos se perderam no infinito. A rosa bordada por mim umedeceu com as suas lágrimas, não agüentei e chorei também. Anos mais tarde eu viria saber que o mesmo sal das suas lágrimas é também o das minhas.
Novamente as cores entraram em nossas vidas trazendo alegria, porém eram cores diferentes, matizadas em novelos de linha. Nem na quarta de carnaval o dia era de cinzas.

