Um tapa. Apenas um tapa. Blaft. Pronto. Só isso. Um tapa.
Passional, você quer algo mais forte. Não, um tapa não. A dor será só na superfície. A marca, um vermelhidão que sumirá em poucas horas. Um tapa, decididamente não. A dor tem que ser mais profunda, mesmo esmaecendo depois, volta tal o fogo à brasa ao ser atiçada. O tapa é um gesto supérfluo que se esvai como o ar ao ser consumido pelo fogo. Porém, a dor que atinge o âmago é ferida incicatrizável. Ah! Essa dor somente nos atinge por palavras. As palavras, você as sabe usar muito bem.
Um tapa. Apenas um tapa. Blaft. Pronto. Só isso. Se fosse um tapa... Até que seria perdoável, mas as palavras...
Umazinha uma vez na semana e você se acha homem... Ah, não quer que eu grite... Danem-se os vizinhos. Eu grito e bem alto: Você não é homem! Quem sabe assim, todos sabendo, não cai um na minha horta... Você não quer que eu bata nas minhas coxas. Como você é patético. Acha que trocar uma lâmpada, o botijão de gás, o pneu do carro te faz homem. Muitos fazem isso e aquilo melhor que você, e digo mais, até uma mulher faz, e aquilo também... Não se faz de desentendido, você sabe muito bem o que quero dizer com “aquilo”... Vai tomar você... Eu seria se fosse filha da sua mãe... Já estamos nela, querido... Agora você é homem, quer me bater. Nem para isso você presta. Você é um covarde. Tá mudo agora. Queixas e mais queixas é o teu mantra diário. Cadê os gestos de carinho, o “Oi, meu bem! Como foi o seu dia?”... Ah, eu não faço isso também. Você quer tudo à base de troca. Lavar, passar e cozinhar. Não mereço nem um “Obrigado querida”... Ah, eu não faço isso só para você. Ok, de hoje em diante eu faço a minha parte e você faz a sua... Como você ousa dizer isso. Então vá atrás de suas putas. Pensa que sou uma máquina que liga e desliga quando você bem entender. È só chegar, apertar o botão e fuck me... Você rir desgraçado, debocha. Você pensa que isso aqui é um liquidificador para espremer o sumo da fruta sem triturá-la. E o liquidificador como fica se nem prazer têm... Grito sim, afinal sou a Rô Barraqueira... Pode ir para o seu boteco. Vai lá me pintar com as tintas que carrega... É assim que você me ver, como uma bruxa. Vocês homens são todos iguais, só muda o manequim e o endereço. Aqui para você.
Ela apontou para mim as mãos espalmadas e aos poucos foi curvando o dedo polegar, indicador, anelar e mínimo.
Passei uma água no rosto antes de sair e vi na lixeira um pacote pequeno contendo um líquido pastoso, absorvido no algodão, na cor vermelho enegrecido. Por cinco dias viveremos um inferno, contudo, durante os outros vinte cinco estaremos entre flores, amando.

