Ela arrastou o filho evitando pisar no gramado em volta da trilha calçada com ladrilho português. Ajeitou-o no banco traseiro do Hilux pedindo que afivelasse o cinto. Voltou para dentro de casa sem perceber que havia pisado no gramado. Saiu, novamente, trazendo nas mãos os sacos de lixo separados para reciclagem na noite anterior e os acondicionaram em seus respectivos contêineres. Retirou da bolsa a tiracolo Louis Vuitton um frasco de álcool em gel – hábito adquirido depois da primeira pandemia da gripe suína -, e fez a higienização das mãos ali mesmo, na rua. Já dentro do carro, através do controle remoto, lacrou todas as portas da casa acionando o sistema eletrônico de vigilância, e, cantando os pneus, saiu costurando as ruas, ziguezagueando entre os carros, como se assim recuperaria o tempo perdido nos afazeres.
O suor porejava do seu rosto e se misturava na água lodosa que corria pela sarjeta. Monstros inauditos povoavam o seu corpo, intrinsecamente, comendo os seus órgãos. O martelo de Thor timbalejava ao chocar-se com seu cérebro, ensurdecendo-o. Das hordas do inferno, os filhos do lúcifer vinham montados em dragões cuspindo fogo. Ele, em completo desespero, se arrastava procurando uma guimba de diamba para suavizar os delírios provocados pela abstinência ao craque.
A mãe desferiu um tapa em direção ao filho, atingindo-o, de raspão, no rosto por este a irritar devido ao atraso; e, possivelmente, a criança chorou não pelo tapa em si, mas pela possibilidade de chegarem atrasados para o início da sessão do filme “A era do gelo – 6” em quarta dimensão.
A mãe, mais irritada ainda com o choro do filho, fora de si, parou o carro no meio da pista, puxou o freio de mão, desafivelou o cinto de segurança, virou-se e, aos gritos, pediu-lhe para parar com o choro. Um sussurro lhe chegou aos ouvidos, quase inaudível, tartamudeado pelo medo, chamando-lhe a atenção, “maaa... maaa... ê”. Ela viu o filho com dedo apontado para o para-brisa traseiro, assustado com o monstro brilhante se aproximando da traseira do carro. Quando ela olhou adiante, procurando a pista, viu, apenas e somente, uma luz intensa ofuscando os seus olhos. O grito dos pneus sobre o asfalto a fez voltar a si.
Ela virou-se lestamente. Sem afivelar o cinto, ela ligou o carro, pisou fundo no acelerador e olhou no espelho retrovisor. Os faróis do caminhão iluminando o Hilux aproximavam cada vez mais. O estrondo da buzina do caminhão abafou qualquer pedido de socorro, dela e da criança. A atmosfera ao redor do carro foi tomada pelo cheiro de borracha queimada, e o Hilux se viu coberto por uma tênue fumaça gris. Ela havia se esquecido de soltar o frei de mão.
Quando ela voltou a olhar o espelho retrovisor, o caminhão estava com o farol baixo. Não passava de um ponto, em movimento, perpendicular a linha no horizonte, símile a um dos caminhões de brinquedo do seu filho. A criança amuou-se na porta lateral do carro, entremeada por raiva e incompreensão deixou seus olhos se perderem na paisagem.
O shopping ainda distava algumas horas de onde eles estavam; a mãe, ainda rancorosa, irritada consigo mesmo, não menos com o filho, abaixou o espelho retrovisor para avistar o filho e com os olhos o fulminou. O olhar da mãe o culpando, amedrontou-o mais do que o acidente não ocorrido horas atrás. Ela acelerou, mais e mais, o Hilux furando todos os semáforos vermelhos. No centro, na região conhecida como cracolãndia, ela foi obrigada a parar porque os carros a sua frente assim fez obedecendo à sinalização.
Após o semáforo fechar, crianças formigavam saindo de todas as esquinas, batendo nos vidros dos carros; algumas esmolando, outras vendendo, a maioria fazendo malabares em troca de qualquer trocado para não ter que vender seu corpo por um prato de comida. Assim que o semáforo abriu, todas as crianças voltaram para a calçada rindo à toa; não sei se toda criança é feliz por natureza, ou, ali, a probabilidade de felicidade estava no interlúdio do abrir e fechar dos semáforos.
A mãe, antes de o semáforo abrir, já estava acelerando o carro, segurando-o na embreagem. Assim que abriu, os pneus cantaram um som agudo e nervoso. O fluxo estava lento devido à quantidade de carro. O seu filho notou uma criança se arrastando pela sarjeta, com a boca colada ao meio-fio, trêmula, com o olhar perdido. Permaneceu olhando, agora de joelhos sobre o banco, pelo para-brisa traseiro, até perdê-lo de vista.
Ele se arrastou com os joelhos sangrando, tateando a calçada a procura de uma guimba de diamba. Avistou, também, o garoto e chorou por saber que há tempos atrás, em um carro igual aquele, sua mãe o espancou, com a anuência de seu pai, por ter derramado o sorvete no estofamento do carro. Foi a última vez que ele foi espancado.
Extasiado pelas vendedoras das lojas do shopping devido à similitude as bonecas chinesas de porcelana, o filho foi arrastado pela mãe em direção ao cinema. Com óculos apropriados para assistir filmes em 4D, eles tiveram a sensação de vivenciar o mesmo, pois se no filme chovia, do teto caíam gotículas de água dando a impressão de chuva; se nevava, a temperatura ambiente caía tanto na sala de cinema que se tinha a sensação de estar nos pólos; se alguma árvore fosse cortada, o ar era borrifado pela essência da mesma, dando a sensação que o corte foi real. Eles saíram do cinema entorpecidos.
Ele não teve outra opção. A abstinência as drogas o levou a padaria; frêmito, com arma em punho, ele, tremendo tal qual vara verde, com a voz, também trêmula, tartamudeou o assalto.
Ela entrou no Hilux e acomodou o seu filho no banco traseiro beijando-lhe a testa. Serena, passou a mão sobre os seus cabelos, rosto e a pousou no seu queixo por alguns segundos. A sua irritabilidade diluíra durante a sessão cinematográfica. Quais marcas a sua violência deixará em seu filho é uma herança que cabe ao tempo dizer. O carro dirigiu-se a marginal pinheiros evitando o centro da cidade.
A noite chegara trazendo consigo todas as personagens. Ratos, baratas e viciados se misturavam, na região da cracolândia, as prostitutas, travestis, traficantes e notívagos.
O Hilux ia a setenta por hora na pista local da marginal; os ocupantes pareciam estar em outra dimensão. Quilômetro distante dali, o estrondo da bala propagou no ar, a bala atravessou a rua e se alojou, lateralmente, na cabeça dele. Arremessado contra o balcão, o seu corpo quebrou o vidro e seu sangue se misturou ao glacê do bolo.
O dono da padaria o pegou no colo, apontando a arma para o policial, disse-lhe, “É de brinquedo”.
“Hoje. Amanhã será uma de verdade, e aí? Eu lhe digo. Vocês correm para a TV reclamando a falta de segurança”.
“Mas é uma criança...”
“Ora, as crianças. Disse o policial com desdém. – Olha para essas – disse apontando para as crianças, viciada em craque, do outro lado da rua -, elas não têm isso aqui – ajuntou o dedo indicador ao polegar – de inocência. São frutos podres. O mal tem que ser arrancado pela raiz”.
O policial saiu da padaria tragando um cigarro. Com a boca fez anéis da fumaça expelida, atravessou a rua em direção as crianças, jogou o cigarro no chão e pediu a um deles que o apagasse com a sola do pé, pois os mesmos estavam descalços. Um deles, demonstrando uma coragem inabalável, pisou no cigarro; imediatamente o policial pisou em cima do seu pé, esmagando-o.
“Sabe qual a diferença entre o meu cigarro e você? Nenhuma. Os dois me fazem mal. Porém, garoto – o policial fez uma pausa procurando nos olhos do garoto algum medo; mas, no meio em que ele vivia, ter medo era sentenciar-se à morte, por isso, destemido, ele procurava, de alguma forma, entender a sua vida. Desde que ele nasceu, indiferente as intempéries, tinha conseguido isso até aquele momento - , você eu posso eliminar, o vicio ao cigarro é mais difícil”.
Dia mais tarde, o garoto empunharia uma arma, colocaria uma garrafa de coca-cola sobre a trave do campo de futebol, e, após vários tiros, se contentaria ao derrubá-la tendo em mente a imagem do rosto do policial.
Os pensamentos, as experiências de vidas relatadas das minhas personagens não são reflexos dos meus pensamentos e experiências, mas sim, peças do mosaico que forma o ser humano. Os meus textos não intentam a polêmica, mas nos chamar à reflexão. Deixo o meu email para quem quiser trocar ideias, compartilhar textos e interagir: gotasdeprosias@gmail.com
quinta-feira, 3 de junho de 2010
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Álbum de família: fotos, grafias emotivas
No meu álbum de família tem tantas fotografias pelo tanto de ano vivido, não tanto quanto o do rei Roberto Carlos, que expô-las me causa emoções indizíveis.
Poderia expor a foto do colégio Santa Eufrásia, administrado por feiras; lá, eu conheci o quanto deus pode ser mau pelas palmatoadas das professoras, principalmente a de religião. Porém, aprendi a respeitar o outro. Ou então, a foto de um nordestino cabra da peste que conviveu comigo até os meus doze anos e foi esteio em minha vida, e devido à distância que nos separou, permeou as minhas saudades, o meu avô.
Poderia expor a foto de uma senhora-menina com 73 anos, completados no último dia 23 de maio, que me ensinou o quanto deus é bom ao dispor de si para dispor-se ao outro, a minha mãe. Ou então, a foto de um jovem, senhor dos seus 76 anos a completar em 07 de setembro, que com a mão direita me deu o pão, alimento para o corpo; com a mão esquerda os livros, alimento para a alma; e me ensinou o significado de bondade, o meu pai.
Poderia expor a foto dos tios, tias, primos, primas, irmãos, irmãs, sobrinho e sobrinhas que me ensinaram a consagrar a família. Ou então, a foto da rosa e do cravo que, apesar das brigas infantis, se constroem amando e mais me ensinam do que eu a eles, os meus filhos.
Poderia expor, por fim, a foto de uma guerreira que aos 12 anos saiu do seio da sua família por não suportar ver os pais se disporem da alimentação para dispô-la aos filhos, e em dias de farinha com peixe frito, havia dias outros que na falta de um alimentavam-se do outro e na falta dos dois, alimentavam-se de ilusões. Essa guerreira venceu e me ensinou o significado de solidariedade. Minha flor de Liz, sedimentando o meu chão; mais do que estrela do meu céu, o próprio céu, minha esposa.
Não o faço por saber o valor que todos eles incutiram em mim. Exponho outra foto porque ela simboliza o valor de outra família agregado aos meus valores. O filosofo escreveu que nossa felicidade depende dos bons encontros que temos no decorrer da vida, e esta família foi um bom encontro. Algum dos membros já conheço há bastante tempo, outros há pouco e alguns estou aprendendo a conhecer, mas todos eles já significaram o valor da amizade e da gentileza. Por isso, amigos, obrigado é o mínimo que posso dizê-los. Muito podem achar que a foto pode representar pobreza, mas ressalto que o tesouro está intrínseco; ela representa a família e para conhecer uma família é necessário entrar em casa. Por isso convido a todos a conhecer essa nova família que tanto valor agregou a mim. Para sabê-los clique no título da postagem para entrar na casa de cada membro desta nova família; não precisa bater na porta, ela já está aberta.
- In memorian Pedro Mariano Vogado, meu avô, vindo à luz em 30 de janeiro de 1907 e ido à luz em 11 de outubro de 2000
- A frase “dispor de si para dispor-se ao outro” é de autoria do Padre Fábio de Melo e está no livro “Quem me roubou de mim?”
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