
As estações mudaram e ele permanecia com a traseira sentada no chão frio, pois o inverno se aproximava, o rabo de vez em quando se mexia pressentindo a chegada dela, por ser alarme falso as orelhas decaíram, o olhar enternecido quase ia as lágrimas e o uivo lamentoso que ele dava, além de entristecer o já triste ambiente, prenunciava que ela tão cedo não voltaria.
Ainda me lembro quando eu assava a tapioca, retirava o coco ralado e o leite condensado da geladeira, e ele, afoito, deslizava sobre o chão, com uma destreza para desviar dos móveis que eu me perguntava se havia maior prova de amor, ou então se era ele que conseguia demonstrar mais amor do que eu. E antes que ela tocasse a campainha, ele latia anunciando a sua chegada. Quando se ama e é amado em demasia entendemos todas as línguas, até as dos animais. E ela com seu jeito de dizer eu te amo com o corpo, gesticulando, me dizia que não havia mais necessidade de campainha, a não ser que o cachorro reconhecesse outra mulher e me avisasse que ela estava chegando para eu abrir a porta. Mas ela sabia que todas as portas que havia em mim pertenciam somente a, e eram abertas somente para ela.
Ainda é cedo e ele a espera, mal sabe ele que não somos mais os mesmos, que não entendemos mais os signos que nossos corpos exprimiam e nem os símbolos que em nossas almas haviam e nos significavam. Tudo bem, tudo passa mesmo não passando bem, mesmo com as incertezas do que poderá vir a ser, mesmo se as certezas que nós tínhamos não as sabemos mais como sabíamos antes. Eu tento entender o que se passa com ele, pois agora ele está com os olhos postos nos meus como se quisesse entender as minhas tristezas, ou quiçá saber se as minhas eram iguais as suas, visto que o motivo era, a falta dela. Ele aguça o olfato tentando farejar em mim o doce aroma que ela deixava, uma sensação primaveril permanente não importando que estação estávamos. Mas no estado que eu me encontrava, melancólico, o que exalava de mim encobria qualquer aroma. Eu estava amargo e invernal. Qual sentimento mais dolorido do que a tristeza nos deixando num permanente estado de frieza. Permaneci com os meus olhos nos dele para ver se entendia da natureza animal, pois da humana qualquer leitura que fizesse era ininteligível.
Dela, os olhos, lindo olhos, contam a minha história. Quando da primeira vez os meus olhos os dela se encontraram, souberam os olhos dela ler todos os códigos que havia em mim, souberam decifrar o genoma da minha alma. A mim não cabia ser, a não ser, ser para ela.
Ele não desviava o olhar de mim, como se pedisse socorro, como se a falta dela lhe tirasse a esperança que se poderia viver o depois de amanhã. O que ele não entendia que o pedido de socorro era mútuo. Cansado de esperar entendemos que se continuássemos a nos olhar, a tristeza não seria passageira, apesar de saber, intimamente, que ela não era. Nos olhamos mais uma vez para percebermos que precisávamos de novos amigos, de novos amores, pois não nos bastávamos.
Entrei, liguei a televisão para ter a sensação de que a casa estava cheia. Ninguém, em sã consciência, sozinho é são. Ele me acompanhou, não sei se compartilhando dos mesmos pensamentos, para não me deixar só. Ele deitou no meu colo cruzando as patas, uma sobre a outra e deixando cair sobre as mesmas a cabeça, adormeceu após eu lhe acarinhar. Por ser animal ele necessitava do contato físico para amar e ser amado, eu nem tanto.
Ela fugiu sem ao menos dizer adeus, mesmo assim permanece em mim um amor imutável, daquele que não precisa da pessoa fisicamente, mas apenas saber que ela continua presente por ser o amor, por ela, nato de dentro para fora, amor este infindável por um único motivo, ser verdadeiro e por ser assim, ser puro.
Olho mais uma vez para ele e lhe sorrio, certo de que não precisaríamos de novo amigos, de novos amores, tínhamos um ao outro. Era o suficiente. Permaneceríamos vivos.
foto de Manuel Catarino http://br.olhares.com/cao_triste_foto582738.html