- Meu filho, Deus
nunca nos dá a cruz com o peso maior do que podemos suportar.
Quando minha mãe disse essa frase pela
primeira vez, as perdas da nossa família eram tantas que senti todas as cruzes
divinas ou não, desde a era Roma, sobre nossa família. Nunca quis saber como
meus sete irmãos aguentaram as suas respectivas cruzes, a minha foi tão pesada
que o meu afastamento de Deus durou desde a pré-adolescência até o início da
vida adulta. O que eu não percebia era que Deus sempre esteve conosco e nunca
deixou de nos mostrar a Sua presença, principalmente a mim.
Quando, ainda criança, os Rios Grande e
Preto, por quatro vezes, tentaram me tomar para si. Não foram mãos humanas que
me salvou. Deus esteve comigo. Deus está comigo.
Quando, ainda criança, um saco de trigo de
sessenta quilos, caiu sobre o meu mirrado corpo e nada sofri, Deus esteve
comigo. Deus está comigo.
Quando, ainda criança, água fervente,
acidentalmente queimou o meu corpo e nenhuma sequela ficou. Deus esteve comigo.
Deus está comigo.
Quando, agora adulto, a minha filha passando
mal, eu e minha esposa, desesperados, esquecemo-nos de colocar a cadeirinha no
banco traseiro do carro e dirigindo para o hospital, colidimos de frente com um
ônibus, Deus esteve conosco. Ensanguentado, sai do carro e olhando o banco
traseiro, vi todos os cacos do para-brisa no assento onde deveria estar a
cadeirinha com a minha filha, Deus esteve conosco. Minha esposa embaixo do banco do motorista,
presa, Deus esteve conosco. Porém, ao ouvir o choro da minha filha no colo do
cobrador do ônibus, sem nenhum arranhão, não tive dúvidas, Deus esteve conosco.
Deus está conosco.
Quando o meu filho nasceu prematuro e
internado na UTI pré-natal, após vários antibióticos não surtirem efeito contra
uma infecção, a médica dizendo que tentaria regredi a mesma com a velha
penicilina, eu sabia, Deus está conosco. Após quinze dias de internação, a
médica disse que a infecção havia regredido com a penicilina. Engano dela, o
que ela não sabia era que Deus esteve conosco. Deus está conosco.
Quando, viajando para visitar a minha mãe no
interior, o carro lotado, ao pisar no freio, um dos pneus estourou e o carro
girou no seu próprio eixo na autopista, uma voz sussurrou: - Tire os pés do
freio e segura firmemente o volante. O carro aos poucos foi parando na quarta
pista da autoestrada, próximo do acostamento. Não preciso dizer de quem era o
sussurro. Deus esteve conosco. Deus está conosco.
Sábado, dia oito de dezembro, esposa tinha ido
ao médico levar os seus exames da tireoide para avaliação. Combinamos que as
crianças ficariam com as tias e nos encontraríamos no shopping. Estava indo tomar banho quando o telefone
toca:
- Vem me buscar, imediatamente.
- Ainda não tomei banho.
- Coloque qualquer roupa e venha logo.
Senti um choro segurado depois da palavra
logo. O telefone emudeceu, e por mais preparado que você esteja, o pior lhe
passa pela mente.
Chegando ao local combinado para buscá-la, a
minha esposa se encaminhou para o carro cabisbaixa, abriu a porta e ao sentar,
em lágrimas, me disse:
- Estou com câncer na tireoide.
As duas mãos postas no volante ali ficaram,
imediatamente olhei para o céu. Uma sensação de vazio me dominou. O silêncio se fez para dar vazão as lágrimas.
O céu desceu sobre nossas cabeças, sem o apoio do chão, ficamos suspensos pelo
medo. Liguei o carro, gotas de chuva caiam bem fracas. Estava na Avenida
Interlagos, próximo a Igreja do Padre Marcelo, o semáforo fechou, novamente,
olhei para o céu, as nuvens que nublava o dia foi se afastando e os raios
solares foram enchendo o céu de luz.
Sábado foi um dia pesado, de lágrimas e
busca de um cirurgião de pescoço e cabeça. Os dias estão nos levando, e toda
ação é de oração. E são as lágrimas a minha companheira. Preciso de silêncio. E
de Luz.
Por tempo indeterminado, estou encerrando as
atividades no blogger. Desejo a todos um Feliz Natal e
próspero Ano Novo.
Neguinha, com Ele, tu podes. Caminhamos juntos, no fim do caminho haverá Luz.

