Percebendo a luz e passos de pessoas, ele colocou o espelho em cima do caixote, o seu chapéu já estava no chão. Iniciou o espetáculo sapateando, a sua voz não era melodiosa o suficiente para lhe permitir o canto. Com os atributos artísticos que tinha ele não estava agradando. O desespero o levou a dar um passo que sua capacidade física não permitia. Os passos acrobáticos que ele tentou o levaram ao chão, arrancando gargalhadas de todos. A dor no corpo devido à queda não era maior do que a dor devido à inanição, e doía mais ainda saber que nenhuma mísera moeda, qualquer que fosse, havia ganhado. A garrafa de pinga escondida atrás dos caixotes servia como alívio para suas dores.
Sentado cabisbaixo e com o olhar triste fixado no chão ele ensimesmou-se. A necessidade do alimento incitava os seus pensamentos a cometer um delito, mas ele ainda tinha o controle de si. Mesmo com o mau cheiro, o cachorro aninhou-se a ele. Todo animal acostuma-se com o cheiro do seu dono, e divide com ele as suas dores, as suas preocupações. Nas patas dianteiras, uma sobre a outra, ele deitou a cabeça, dobrou as patas traseiras enfiando o rabo entre as pernas, inclinou as ancas até tocar no chão e, entristecido, mostrou solidariedade ao seu dono. Era o único que não precisava representar para dizer de si os sentimentos que tinha. Entrementes a maioria dos transeuntes que passava pela calçada, envolto em sua arrogância, os desprezava; outros traziam em si uma comiseração sem o intuito da ajuda, apenas consternavam; a minoria presa a sua ignorância, os detestavam.
O cachorro foi despertado pelo som de moeda quicando no chão, e ele pelo latido do cachorro. O cachorro ia e vinha em um perímetro de dois metros quadrados, parando de vez em quando, latindo e apontando com o focinho na direção sul. Uma criança puxada pela mão, violentamente, apontava para a moeda que ela havia acabado de jogar, no seu rosto havia um sorriso inocente que fazia com que a tivéssemos como anjo de deus. A dor em seu rosto, devido à fome, não lhe permitia a retribuição, mas como ele ainda carregava intrinsecamente um anjo divino, com muito esforço, lhe esboçou um sorriso. A mãe, brutalmente, puxou a criança desviando o seu olhar da direção dele.
Após atravessar a rua, o cachorro, despercebido, entrou na padaria, apoiou as patas dianteiras, dobrou os joelhos traseiros sentando, e com o olhar chamou o seu dono. O balconista da padaria colocou as duas mãos no balcão, tomou impulso, flexionou os joelhos e saltou. Atendendo ao chamado do cachorro, ele com um dos pés na calçada e o outro dentro da padaria sentiu o impacto do pé direito do balconista lhe atingir o tórax, levando-o ao chão. O cachorro, balançando a cabeça, suavemente, olhou aquela cena sem entender o motivo da violência. A maioria dentro da padaria, mesmo entendendo o motivo, apenas olhou, desdenhamente, para a cena e voltou para o seu desjejum.
Ajoelhado, com uma das mãos no chão, tentando levantar, e a outra gesticulando para demonstrar que nela havia uma moeda de um real, ele, aos prantos, implorava por um pão com manteiga. A moeda saiu rolando pelo chão até se perder no bueiro, ele a acompanhou com os olhos torcendo para ela parar antes. Quando ela se perdeu na boca de lobo, ele percebeu que gotas de sangue manchavam o chão. O segundo pontapé do balconista não havia apenas lhe tirado a moeda da mão, acertou-lhe também a boca. Todos assistiam aquela cena como se não lhe dissessem respeito. Todos, dentro e fora da padaria, se sentiam confortáveis como se o ato de solidariedade se encerrasse quando era feita uma doação, estimulados por alguma campanha de algum programa televisivo em apoio a algum programa social. Havia alguém naquela padaria que lhe era solidário, e não era humano. A mordida foi tão violenta que ele desmaiou, restos de carne da coxa do balconista desprendiam da boca do cachorro.
A duração do tempo não é sentida da mesma forma por todas as pessoas. A dor intermitente, causada pela fome, lhe tirava qualquer brevidade do tempo, o dia sempre lhe era custoso de passar, parecia interminável. À noite, anestesiado pelo álcool, ele dormia sem a certeza do acordar.
Carros em alta velocidade passavam pela rua diante de seus olhos e ele não via; no céu as nuvens desapareciam para dar lugar aos pássaros metálicos voadores; sobre a órbita de sua cabeça circulavam satélites de comunicação; a lua estava tão próxima que ele conseguia ver as pegadas de Neil Armstrong; há pouco uma nave espacial turística rasgava o céu rumo a Marte. A noite havia chegado lhe trazendo dores insuportáveis no estômago, e consequentemente os delírios contumazes. O cachorro havia saído em busca de restos de comida na lixeira da padaria, mas ele não tinha coragem para fazer o mesmo; mesmo em estado de demência, ele tinha dignidade.
O cachorro, alimentado, o puxa pela barra da calça roída, o guiando até os caixotes. Ele retira o litro de cachaça que estava atrás dos caixotes e o seca em goles abruptos, dobra uma caixa de papelão ao meio, várias vezes, até alcançar a altura desejada, a coloca no chão e deita encostando a cabeça na mesma. O cachorro puxa uma manta carcomida com os dentes e cobre metade do seu corpo, vela o seu sono por alguns minutos, depois deita próximo a ele curvando todo o corpo.

O barulho da chuva batendo no telhado de zinco da padaria lhe chega aos ouvidos como aplausos. Todo de branco em um cenário também branco, ele, no teatro da vida, era ator principal, enfim.
Noite de lua cheia, o cachorro, com a cabeça apontada para o céu, teatro da vida, uiva. Se houver lágrimas em seus olhos, elas se misturavam com as gotas da chuva.