
Todos se afastam quando o mundo está errado/Quando o que temos é um catálogo de erros/Quando precisamos de carinho/Força e cuidado/Este é o livro das flores/Este é o livro do destino/Este é o livro de nossos dias/Este é o dia de nossos amores - Legião Urbana.
Hesediel entrou a casa percorrendo os olhos
pela sala em busca do Livro dos dias, o livro sagrado dos deuses, mas somente
achou o livro de Homero e outro de José Saramago, O evangelho segundo Jesus
Cristo. Procurou nas paredes a cruz cristã, assim como o Livro dos dias ou o
Livro Sagrado - este, devido a sua raridade, dificilmente seria encontrado -, contudo,
no tempo atual, símbolos de maior pureza da alma, dificilmente seriam achados
também. Apesar das velas acessas, aquela casa era pagã, seria perda de tempo
permanecer ali, não haveria ninguém próximo da pureza sanguínea. Ao colocar a
mão na maçaneta da porta da sala para sair, ele ouve suspiros vindos do quarto.
A grávida havia acordada, Iratus, sem perder tempo, voou até a escrivaninha onde
estava o estojo com o pó do sono, agarrou-o com uma das asas e o espargiu sobre
o rosto dela. Imediatamente a grávida voltou a dormir. Hesediel, com as mãos na
maçaneta da porta do quarto, desistiu de entrar após não ouvir mais os sussurros.
Uma gota de suor no rosto de Iratus ia cair sobre uma bacia próxima da cama
provocando ruído. Furiosus, em um movimento impensado, soprou na intenção de
desviar a gota de suor, contudo o sopro foi muito forte, desviando, também, a
bacia. O ruído foi maior do que teria sido se fosse provocado pela gota.
Iratus, ao perceber o erro de Furiosus, levou a mão à espada Daemo antevendo a
batalha. Hesediel já estava preparando voo quando o ruído o reteve. Ao abrir a
porta do quarto, um gato preto voou em sua direção arrancando uma pena de sua
asa. Dando uma volta em torno de si e levantando voo, Hesediel pegou o gato
pelo rabo e o arremessou na parede da sala. Em um dos cantos do quarto, Iratus
segurava a espada Daemo esperando o ataque. Com o impacto, a parede foi ao
chão. Hesediel nem se deu ao trabalho de verificar o quarto e se o gato havia
morrido. O gato saiu dos destroços sacudindo o pó do seu corpo para em seguida
ganhar a forma humana, era Furiosus. O seu olhar irado e vingativo mirou
Hesediel que sobrevoava abaixo das nuvens negras. Furiosus passou por cima dos
destroços abrindo as suas asas já na forma angelical e ordenou a Iratus que
seguisse Hesediel.
Furiosus adentrou o quarto com as suas asas
abertas, plainando com as pequenas asas dos pés e agigantando diante da
grávida. No seu rosto havia o contentamento do vitorioso. O seu riso gutural estrondou
pelo quarto e juntamente com o grito de medo da grávida, acordada com o
barulho, ganharam a rua e ecoaram pelo nevoeiro. Na mão de Furiosus havia o
corno do Senhor das Trevas, na escrivaninha um saco com o plasma do mesmo e o
caldeirão Diabolus retirado da mesma sacola onde estavam os outros objetos. A
escuridão traria o seu filho à luz. O processo iria começar.
A lufada de vento, provocada pelas batidas
das asas do anjo Hesediel quando Petrus foi a busca do médico, o fez lembrar-se
do que ocorrera no dia anterior:
"Despreocupados com o nascimento do seu
filho, pois ainda faltavam três semanas de gestação, o sol tal qual uma pedra
preciosa bem lapidada brilhando sem nenhuma nuvem a lhe perscrutar - isso,
provavelmente, por não haver ventos -, eles flutuavam grávidos por promessas de
felicidades, admirando o céu. Na cidade o dia corria silente, às vezes quebrado
por latidos de cachorros em algumas ruas, e por conversas lhes chegando aos
ouvidos, esmaecidas.
Repentinamente imperou um mutismo sepulcral,
assustando-os, como se o tempo, as pessoas, os animais houvessem parados, e
somente eles percebiam. Nos olhos petrificados dos animais o pavor era latente.
Nenhuma palavra se fez audível, o medo colocava freio na língua das pessoas. As
aves evolavam no céu distando dali sem fazer o ruído característico de quem
voa, como se elas estivessem sendo empurradas pelos ventos. Seres alados símiles
a morcegos voavam em sentido contrário. A esposa de Petrus havia ido para a
cama descansar, ele, pensando no filho que estava para nascer, não percebeu que
os seres alados não eram morcegos, mas anjos Shaitans.
Enfim, quando o silêncio se fez audível, ou
seja, o único ruído que se ouve é a própria respiração, Petrus se deu conta que
alguma coisa estranha estava
acontecendo. Pressentiu forças invisíveis o perscrutando.
A esposa de Petrus, deitada, tomada pelo
sono das grávidas, repentinamente, se levantou da cama com os cabelos - até
então lisos como a seda - emaranhados. Assustada pelo pesadelo, seu grito de
dor se confundiu com o ruído de latas e galhos de árvore se açoitando nas ruas.
Ela deixou os seus olhos serem levados, hipnotizados, à balburdia da rua e
saindo de si, se viu dando à luz a besta. Entremeada por choros e gritos, ela
foi despertada do transe, e depois consolada por Petrus.
O sol foi acortinado por nuvens plúmbeas, o
dia claro perdeu a sua luminosidade, o silêncio foi quebrado pela chuva
torrencial. Depois do temporal, a cidade não havia recuperado as suas cores,
pois, tanto o sol, como o céu, estava encoberto por um manto negro.
Tudo parecia fora de propósito, fora de
lugar. Inopinadamente, o manto negro se desfez e seres alados munidos de
espadas sangravam animais e gentes. O céu mandou ajuda com chuvas tempestivas,
ventos bravios e relâmpagos, mas cessou assim que os seres alados se juntaram
novamente e o cobriu totalmente.
Na rua, a enxurrada levava consigo os
destroços, pessoas e animais mortos, porém, não levava o medo acometido a todos
os habitantes da cidade. O sossego, até então, do pacato lugar, foi substituído
pelo pavor estampado no rosto das pessoas. Elas mal sabiam que o pior ainda
estava por vir. E era apocalíptico.
O manto negro que cobria o céu retirou
daquela pacata cidade o clima de felicidade que até então imperava. O sossego
somente chegou ao entardecer, quando um nevoeiro adentrou as ruas e deu uma
falsa sensação que assim que ele fosse embora o sol voltaria. A maioria das
pessoas se prendeu em casa tendo como vigia o medo, não vira quando uma densa
névoa cobriu toda a cidade, diminuindo o campo de visão e tirando qualquer
possibilidade de saber se era dia ou noite".
Foi nesse cenário que Petrus saiu para
buscar o médico para fazer o parto de sua esposa. Bem acima de sua cabeça, os
anjos Shaitans o vigiavam, não podia matá-lo, pois precisava de sangue para a
maturação do filho do Senhor das Trevas, e ele, sem saber, estava indo atrás de
um.
Continua na quarta-feira às 12hs00min
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