Gotas de ti

Ao vir aqui você corre o risco de me levar em gotas. Mas não se assusta, sou gotas de bondade e outras tantas de maldade, portanto, humano como você, e ao vir aqui você choverá bondade sobre mim, e eu, inundação. Seja bem-vindo!

sábado, 9 de maio de 2009

O peso da idade


Quando a idade nos faz ver que não somos mais capazes de executar as tarefas mais simples, o que fazemos quando limitados, choramos as mágoas ou sorrimos da desgraça? A resposta cabe a cada um de nós e ela advém da visão que entendemos da vida. Minha mãe, senhora dos seus setenta dois anos, artesã, vê a vida como uma dádiva de Deus. Sorridente, pouco se queixa. Nascido numa família cercado por mulheres – tenho seis irmãs e apenas um irmão - aprendi mais com ela do que com o meu pai. Dela vem o gosto pela leitura e pela escrita. Ela morando no interior eu na capital, nossas visitas são um eterno contemplar, falamos-nos e ouvimos-nos. Numa dessas visitas, ela estava absorta no seu artesanato, eu a admirar. Repentinamente ela levanta e começa a remexer em gavetas, tirar os livros dos lugares na estante. Volta para o seu trabalho e sorrindo me diz que a sua memória estava lhe traindo, pois ela não conseguia mais lembrar aonde deixava os seus objetos. Recomendo-lhe que ela marcasse numa caderneta aonde os deixava, assim era só olhar na caderneta que ela encontraria. Bingo, você é um gênio meu filho. Ri do seu comentário. Despeço dela e saio em visita a uma irmã que também mora no interior. Lá fico sabendo que minhas outras irmãs e meu irmão estavam vindo para visitar minha mãe. Passeio um pouco pela cidade e esqueço das horas. É maravilhoso quando, nada para fazer, fico a admirar a natureza, a olhar uma formiga carregando uma folha para o formigueiro, ou o canto do sabiá no pé de laranjeira. São essas pequenas coisas simples que me faz entender que cada ser vivente é merecedor da vida. Volto para a casa da minha mãe e percebo minhas irmãs a revirar a mesma, meu pai a reclamar ajudando e minha mãe dando gargalhadas. Não entendo a cena e adentro a casa e meu pai esbravejando reclama a mim o fato de estar ele ali naquele cenário trágico-cômico quando deveria estar pescando. Minha mãe, ente risos, me diz:
- Segui teu conselho a risca. Guardei todas os meus objetos e anotei na caderneta como você me pediu. Só tem um problema. Não sei onde guardei a caderneta.
A sua gargalhada ecoa pelos cantos da casa. Guardei o meu riso para não ferir ainda mais o brio do meu pai, assim também fizeram minhas irmãs. Ali está uma pessoa que sabe viver a vida.

6 comentários:

Elcio Tuiribepi disse...

Olá Éder, pois é rapaz, estou aqui a rir também, sou super esquecido, distraído e acho que me aconteceria a mesma coisa, já aprontei cada uma por causa de esquecimento que você nem imagina...
Mas hoje levo assim na brincadeira e tento rir de mim mesmo, brinco com meu jeito, no caso a sua mãe é por causa da idade, eu sou asim desde os quatorze, quando extrapolei no direito de me esquecer de algo. Você já ouviu falar de Tdah...Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade...
Já fui em palestras e tudo o mais, mas depois de uma certa idade, não adianta...rsrs
Belo texto Éder...um abraço na família e que sua mãe continue rindo...alegrando o ambiente...valeuuuu

Elcio Tuiribepi disse...

Rsrs...pois é Éder, e isso aqui em casa é meio de família, meu irmão já esqueceu a filha e eu também
depois dela já grande...rsrs
Só rindo mesmo...valeuuu

Germano Xavier disse...

Acho que esta é a plena maturidade da sabedoria. Tua mãe atingiu o saber final, se é que exista. Busquemos o exemplo.

Abraço forte,meu caro.
Tudo de bom.

Sigamos...

Osvaldo disse...

Oi Eder;
As minhas desculpas pela ausência, mas como já expliquei a outros amigos, duas viagens ao exterior em trabalho e algumas vernissagens de exposiçóes têm-me deixado pouco tempo livre.

Mas claro, sempre que me è permitido, é sempre um imenso prazer te visitar neste blog de cultura...

Este caso que contas sobre tua mãe, é maravilhoso...
Minha mãé também tinha muitas "saídas" destas. Mulher nascida na Manaus do inicio do sèculo passado sempre cultivou modos e gestos do europeu e do nativo. Grande artesã do tricôt em lã ou em linha, também o fazia com fios de Palma e outros vegetais da nossa Amazónia.

Obrigado amigo Eder por me lembrares e reavivares imagens que o vento vai guardando na gaveta do tempo... e sem caderninho pra anotar.

Um abraço caro amigo
Osvaldo

Tatiana disse...

Para começar quero dizer que:
Votei em seu blog.
"Votação realizada com sucesso, verifique seu e-mail para confirmar a votação"
Que doçura a sua postagem...e como eu gostaria de conhecer a sua mãe...adoro sorrir e gargalhar...e ela me fez lembrar de mim em muitos momentos...

Deus a ilumine muito!
E a você também viu?

Um abraço carinhoso

Célia de Lima disse...

rsrs... gostei de cara dessa mãezinha! Dádiva é poder contar com um anjo desses pra viver melhor! Linda! E adorei o texto!!! Beijocas. Bom domingo! :-)

Contos-a-gotas

EM OUTRAS LÍNGUAS

gotas musicais